Saúde urinária da mulher jovem: o que é normal e o que merece atenção
A mulher jovem encaixa-se numa fase de aumento de problemas urinários. Trata-se de um tópico muito interessante e que pretendo discorrer de maneira muito didática e de fácil compreensão dos problemas mais corriqueiros.
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A mulher tem muito mais infecção do trato urinário do que o homem. O fator anatômico é usado para explicar esta maior predisposição. A uretra da mulher é mais curta e fica no períneo, bem mais próxima da vagina e do ânus. Portanto, num ambiente potencialmente mais contaminado.
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Ao longo da vida há três momentos em que o sexo feminino fica mais exposto a ITU. Na infância (por vulvovaginites e refluxo vésico-ureteral), na mulher jovem (devido a vida sexual e reprodutiva) e no climatério (em decorrência: 1- da baixa de estrógeno que provoca fragilidade da mucosa da vulva e vagina além de: 2- facultar maior aderência das bactérias ao revestimento interno do trato urinário, além: 3- da perda da acidez vaginal (que é um ambiente hostil a essas bactérias). Apenas após os 50 anos de idade é os homens passam a ter mais infecções do trato urinário que as mulheres por aumento da próstata e dificuldade miccional.
Voltando às mulheres, as infecções do trato urinário são quase invariavelmente provocadas por bactérias gram-negativas intestinais que fora do intestino podem provocar infecções graves. Dessa forma, obstipações intestinais crônicas podem propiciar multiplicação dessas bactérias além do surgimento de outras bactérias no intestino. Hábitos intestinais regulares representam um fator de proteção contra bactérias do intestino grosso e infecção do trato urinário.
Outra coisa que a mulher deve evitar é ficar segurando muito a urina na bexiga. Nem sempre encontram banheiros limpos e por isso têm uma tendência a segurar mais urina até encontrar um ambiente com mais higiene. Urinar representa uma lavagem mecânica da bexiga eliminando as bactérias que porventura entraram no trato urinário. A urina acumulada pode possibilitar a multiplicação das bactérias na própria bexiga o que aumenta o risco de ocorrer uma infecção, isto é, quando o micróbio começa a agredir o organismo e provocar inflamação. Como sabemos, o homem tem muito mais facilidade de esvaziar a sua bexiga em qualquer ambiente já que evita contatos com vaso sanitário ao contrário da mulher, evitando acúmulos prolongados de urina na bexiga.
É fácil de entender que a junção uretero-vesical tem um mecanismo que evita que a urina da bexiga volte para os ureteres. Quando isso falha, as bactérias da bexiga atingem os rins muito mais facilmente podendo ocasionar infecção renal que é muito mais grave pelas suas manifestações, assim como pelo dano ao parênquima renal que ao ser atingido as células renais vão sendo substituídas por tecido fibroso cicatricial podendo prejudicar a sua função.
Por outro lado, excesso de higiene (lavar-se exaustivamente a cada micção) ao contrário do que se imagina altera as defesas próprias e não evita cistites recorrentes. Falta de higiene obviamente favorece qualquer infecção, mas uma higiene básica é suficiente para se proteger. Entende-se por cistite recorrente mais de dois episódios num semestre ou três ou mais ao ano.
Mulheres com cistite recorrente são investigadas pelo urologista na busca de algum fator predisponente como por exemplo diabetes ou alguma disfunção miccional. Quando nada é detectado recomenda-se um tratamento prolongado e profilático com uma dose muito pequena de (quimioterapia profilática) que a mantém livre de novas infecções propiciando-se que algum problema pequeno não detectável se corrija com o tempo.
A mulher adulta também fica exposta à formação de cálculos urinários e aos sintomas intensos de cólica renal que muitas vezes exige que a paciente se dirija a um pronto atendimento para ser medicada mais intensamente e fazer exames para se avaliar melhor o grau de obstrução ureteral e se está provocando dilatação acima do cálculo e sua dimensão que nos permite avaliar a possibilidade de eliminação espontânea ou se vai precisar de algum tratamento endoscópico mais imediato.
Após esta breve introdução, recomenda-se que a mulher tome bastante água durante o dia. Levar uma garrafa de água para ingerir durante um dia quente ou quando se faz atividade física é muito saudável para manter-se bem hidratada. Uma regra boa é: a cada micção, tomar um copo de água. Dessa forma estará tomando água distribuída nas 24 horas e sabemos que uma coisa puxa a outra e dessa forma vai tomar, ao menos, uns dois litros de água por dia e assim vai urinar de tempos em tempos, além de manter a urina diluída reduzindo o risco de infecção e de formação de cálculo urinário.
Mulheres que porventura apresentaram cistites recorrentes, quando grávidas precisam ser acompanhadas de perto e eventualmente precisam receber uma medicação antimicrobiana profilática numa dose de 1/3 ou 1/4 da dose terapêutica para protegê-la de novas infecções o que na gravidez é absolutamente indesejável. Ainda na gravidez, as mulheres eliminam mais cálcio na urina e isso é um fator que favorece a formação de cálculo urinário.
Na mulher jovem que teve um cálculo urinário é totalmente recomendável que se faça uma investigação metabólica por meio de uma série de exames de sangue e urina no sentido de se detectar algum fator predisponente. Desta forma trata-se a causa e não a consequência que é um cálculo já formado. Assim evitam-se complicações relacionadas aos cálculos que costumam recidivar e cirurgias, com seus inconvenientes.
Há mulheres que associam muito a ocorrência de cistite à atividade sexual. Que fique bem claro: não é uma doença sexualmente transmissível, mas a atividade sexual propicia a entrada de bactérias que causam infecção para a bexiga. Ou seja, de bactérias que estavam colonizando a região da vulva e da vagina. Exames feitos no parceiro não colaboram em nada e geralmente mostram-se normais.
Nesses casos, recomenda-se que a mulher urine após atividade sexual e, em casos mais frequentes, vale a pena tomar um comprimido de antimicrobiano leve antes ou mesmo após a relação sexual. Esta medida pode evitar cistites recorrentes as quais podem atrapalhar o relacionamento afetivo do casal.
A mulher depois da menopausa em consequência da alteração hormonal tem diminuição de lactobacilo e de produção de ácido lático. Consequentemente, a diminuição de acidez vaginal cria uma condição favorável à colonização de bactérias patogênicas na vagina. O estrógeno restaura a integridade da mucosa vaginal e uretral, além diminuir a possibilidade de as bactérias aderirem à mucosa da bexiga e com isso evitar que sejam eliminadas. Em cistites recorrentes em mulheres no climatério, o uso tópico de estrógeno uma ou duas vezes por semana ao se deitarem na forma de gel ou creme vaginal reduz consideravelmente o risco de infecção do trato urinário. Estrogênio tópico além de não ser absorvido tem um efeito melhor que o estrogênio por via oral.