Outubro: rosa sim, mas nem tanto
Outubro chegou, o mês de conscientização sobre o câncer de mama, movimento mundialmente conhecido como Outubro Rosa. O principal objetivo é chamar a atenção para a doença oncológica que mais causa mortes entre as mulheres no Brasil e no mundo.
Já sabemos que o câncer de mama é muito comum, com uma estimativa anual de 66 mil novos casos no Brasil, e que pode acometer qualquer pessoa, inclusive aquelas sem os conhecidos fatores de riscos modificáveis: obesidade, sedentarismo, uso de álcool, tabagismo ou uso de hormônios femininos. Existem também os fatores de risco não modificáveis, que são mamas densas, história familiar positiva ou presença de mutações em genes associados ao câncer de mama, tais como BRCA1, BRCA2, TP53, CHEK2 e PALB2. Não custa lembrar que atividade física e hábitos alimentares saudáveis são verdadeiros aliados na diminuição do risco de câncer de mama e, para mulheres que optarem por engravidar, o aleitamento materno também diminui significativamente esse risco.
A campanha tem grande importância, pois é justamente nesse mês que muitas pessoas lembram de fazer seus exames de rastreamento, ou seja, aqueles que fazemos de forma preventiva, mesmo sem sintomas. No caso do câncer de mama, tais exames são a ultrassonografia mamária e a mamografia, os quais recomendamos fazer a partir dos 40 anos de idade. A ideia principal de fazer esses exames mesmo sem sintomas é o DIAGNÓSTICO PRECOCE. Isso porque, quanto mais inicial o câncer de mama é descoberto, menos agressivo é seu tratamento e maiores são suas chances de cura. Quando há alguma suspeita na mamografia ou na ultrassonografia, surge a necessidade de uma biópsia, que é o método de diagnóstico definitivo da doença.
O tratamento do câncer de mama evoluiu muito nas últimas décadas e hoje ele é muito mais personalizado. Assim, a forma de tratá-lo vai depender da extensão (estágio ou estadiamento) da doença e das características biológicas do câncer (principalmente o subtipo: hormônio-positivo, her2-positivo ou triplo-negativo). De uma maneira geral, ele envolve cirurgia, terapia sistêmica (quimioterapia, hormonioterapia, terapia alvo ou imunoterapia) e, em alguns casos, também pode ser necessária a radioterapia.
Abaixo destaco importantes avanços no tratamento que aconteceram nesse último ano:
- Na doença chamada “hormônio-positivo”, aquela em que o tumor apresenta expressão do receptor de estrogênio >1%, destacamos, primeiramente, a consolidação do uso de ferramentas genéticas que avaliam a expressão dos genes do tumor, tais como OncotypeDx® ou Mamaprint ®. Em situações de tumores iniciais, seu uso pode auxiliar na decisão de usar ou não quimioterapia. Estima-se que em mais de 80% dos casos de câncer de mama hormônio-positivo a quimioterapia não ajudaria no tratamento, e, por isso, a importância dos testes genéticos. O grande problema para nossa população ainda é o acesso, pois embora o uso dessas ferramentas esteja aprovado pela ANVISA, elas não estão disponíveis na rede pública e as operadoras privadas de saúde continuam negando os pedidos para realização do exame. Esses testes possuem um alto custo, que restringe sua utilização para uma parcela pequena da população brasileira. Outro grande avanço é a aprovação no Brasil do uso de Abemaciclibe (Verzenios ® Eli Lilly) para pacientes com tumores operados e com alto risco de recorrência, pois ficou demonstrado que seu uso em combinação à hormonioterapia tradicional diminui o risco de recidiva da doença.
- Esperança renovada também na doença chamada “HER2-positivo”, que compreende cerca de 15% dos casos. Este mês tivemos no Brasil a aprovação de uma nova medicação: o trastuzumabe-deruxtecano (Enhertu ®, AstraZeneca e Daichii-sankyo). Essa medicação é formada pela combinação de um anticorpo já conhecido, o trastuzumabe, com várias moléculas de quimioterapia, no caso o deruxtecano, ligada nesse anticorpo. Assim, a quimioterapia é liberada no interior da célula tumoral (do câncer) após a ligação do anticorpo com a célula doente. Os dados apresentados em setembro de 2021 no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica foram impressionantes, e essa nova medicação mostrou-se muito superior à terapia padrão. A medicação segue em análise para o tratamento de casos mais iniciais, inclusive com vários estudos clínicos acontecendo aqui no Brasil. A depender dos resultados, poderemos ter grandes mudanças no atual tratamento dessa enfermidade.
- Na doença chamada de “triplo-negativo”, que ocorre em 15% dos casos, quando o tumor não apresenta expressão dos receptores hormonais ou de HER2, a grande novidade foi a comprovação de que a imunoterapia Pembrolizumabe (Keytruda®, MSD) associada à quimioterapia pré-operatória diminui os casos de recidiva do câncer.
- Mas nem tudo são flores e nem tudo é rosa. No Brasil, apenas 35% das nossas mulheres realizam mamografia anualmente e, com isso, nossa taxa de casos mais avançados é maior do que em países desenvolvidos, sobretudo na rede pública. Também precisamos destacar a grande dificuldade para conseguir agendar uma biópsia, além da demora para que esse resultado esteja disponível.
São grandes os avanços terapêuticos no tratamento, mas também é grande a dificuldade para que eles cheguem até nossas pacientes atendidas na rede pública. Precisamos lutar para que todas tenham acesso aos especialistas que fazem parte do processo, do diagnóstico ao tratamento, que inclui ginecologista, mastologista, radiologista, patologista, oncologista clínico, radioterapeuta, cirurgião plástico e toda a equipe interdisciplinar, composta por enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas.
O empoderamento da população, com acesso a informações de qualidade, aumentará a consciência dos seus direitos e é passo fundamental para que um tratamento adequado (e no tempo correto) seja realidade para toda nossa população. Nesse cenário, quanto mais estudos clínicos tivermos em andamento no país, mais acesso a terapias promissoras nossas pacientes terão. Os estudos clínicos que comprovaram o sucesso das vacinas contra a COVID-19 reforçam que a melhor forma de respondermos às questões de saúde é por meio da metodologia científica empregada na pesquisa básica, translacional e clínica. Não se esqueça, sempre pergunte a seu médico se existe um estudo clínico disponível para o seu caso.
Não custa repetir que, quanto mais inicial for o câncer no momento do diagnóstico, menos dispendioso e agressivo será o tratamento empregado. Por isso, não se esqueça do objetivo da campanha e faça seus exames preventivos, só assim o Outubro Rosa cumprirá seu papel.
Acesse hsl.org.br/outubrorosa e conheça a nossa campanha #AoSeuLadoSempre