A medicina de precisão no combate ao câncer de pele

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Dr. Eduardo Bertolli

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A medicina de precisão une ferramentas tradicionais de diagnóstico (avaliação de sintomas, resultados de exames, histórico etc.) com informações mais detalhadas sobre o perfil do paciente. Assim, ela possibilita um tratamento mais preciso e personalizado, além de entender quais são os riscos embutidos em cada caso.

Com o uso cada vez mais comum do termo “precisão”, a oncologia tem sido uma área frequentemente associada a esse conceito. Neste artigo, vamos analisar o uso da medicina de precisão para o câncer de pele sob duas perspectivas diferentes: o da radioterapia e o da cirurgia.

Aplicação na radioterapia

A radioterapia faz parte de um dos três pilares do tratamento oncológico – juntamente com a cirurgia e os tratamentos medicamentosos. O radio-oncologista, médico especialista em radioterapia, prescreve a dose de radiação necessária, o fracionamento adequado, o tipo de tratamento a ser utilizado e conduz as toxicidades associadas aos tratamentos.

Há várias tecnologias e tipos de tratamento radioterápicos. É possível classificá-los quanto à “distância” dos feixes ao paciente, à energia dos feixes (megavoltagem, kilovoltagem etc.) e ao tipo dos feixes (fótons, raios-X de alta energia, elétrons, prótons, íons, entre outros). O uso de feixes irradiantes envolve uma equipe multidisciplinar composta pelos médicos radio-oncologistas, físicos médicos, dosimetristas, tecnólogos e enfermeiros, visando tratamentos de alta precisão e qualidade técnica.

O câncer de pele engloba vários tipos diferentes de tumor, e, consequentemente, gera demandas variadas de tratamento. Sob o ponto de vista da radioterapia, é possível estabelecer alguns cenários dentre os mais frequentes na rotina médica:

  1. Radioterapia definitiva, ou seja, o tratamento principal do paciente será a radioterapia. Geralmente é indicada quando a cirurgia não é factível ou o paciente não tem condições de ser operado, ou quando se opta por uma estratégia não invasiva.
  2. Radioterapia pós-operatória (ou adjuvante), quando há a necessidade de uma terapia contra resíduos microscópicos de doença após a cirurgia ou quando se deseja diminuir o risco de uma recidiva.
  3. Radioterapia de sítios linfonodais, quando se seguem os mesmos argumentos da irradiação definitiva e pós-operatória dos sítios linfonodais adjacentes ao tumor primário.
  4. Radioterapia em cenários de recorrência, quando a enfermidade neoplásica recidiva após um tratamento prévio. Pode ser aplicada em praticamente todos os cenários do câncer de pele.
  5. Radioterapia paliativa, direcionada em focos metastáticos, quando se busca controle de sintomas ou simplesmente controle local daquele foco neoplásico distante do tumor inicial.

É importante ressaltar que os tratamentos radioterápicos não são isentos de complicações e também há algumas situações clínicas onde a radioterapia tem contraindicações. Ademais, há uma interseção de efeitos oriundos da interação da radioterapia com as outras esferas oncológicas, pensando tanto nos limites de cada modalidade, bem como nas toxicidades acumuladas.

Aplicação na cirurgia

O objetivo fundamental da cirurgia oncológica é remover a lesão completamente, preservando o máximo de tecido sadio possível. Isso pode ser atingido com a participação da patologia no intraoperatório, avaliando as margens de ressecção que o cirurgião pratica durante o procedimento. Caso haja necessidade de ampliação, isso é realizado em um único tempo cirúrgico, permitindo a reconstrução imediata com maior segurança do ponto de vista oncológico e otimizando, assim, o tratamento do paciente.

Sobre a avaliação de margens nos carcinomas cutâneos, cada vez mais as técnicas não invasivas de diagnóstico da pele são empregadas antes da cirurgia. Seja por meio da microscopia confocal, realizada pelo dermatologista, seja pelo ultrassom de alta frequência, realizado pelo dermatologista, o cirurgião pode ter um planejamento mais preciso. As informações serão usadas tanto na retirada da lesão quanto na reconstrução, proporcionando, assim, uma adequação estética e funcional da cirurgia sem abrir mão dos princípios oncológicos.

No melanoma, câncer de pele menos frequente, porém com maior potencial de gravidade, a cirurgia desempenha papel fundamental no tratamento principalmente das lesões iniciais. Lesões essas que são cada vez mais diagnosticadas com o auxílio do mapeamento corporal total com dermatoscopia digital e, dessa forma, cirurgias menos extensas já serão suficientes.

Já para os casos em que há risco de acometimento dos gânglios ou linfonodos, é possível estudar a drenagem linfática antes da cirurgia com o exame de linfocintilografia, realizado pela Medicina Nuclear. A partir desse exame, o cirurgião oncológico realizará uma cirurgia menos extensa e muito mais assertiva para o estadiamento e tratamento do paciente.

Medicina de precisão e multidisciplinar em nosso Hospital

Dentro do Hospital Sírio-Libanês existe uma cultura institucional de discussão multidisciplinar de casos, buscando a melhor estratégia de tratamento que envolva um cuidado centrado no paciente. O Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa e o Núcleo de Oncologia Cutânea e Sarcomas (NOCS) promovem periodicamente encontros multidisciplinares voltados ao manejo do câncer de pele. Deles participam os mais variados especialistas – cirurgiões oncológicos, dermatologistas, patologistas, radiologistas, oncologistas clínicos, radio-oncologistas, entre outros, que oferecem suas opiniões embasadas na melhor literatura médica vigente sobre os casos trazidos para discussão.

Além disso, nenhum tratamento radioterápico é realizado sem que haja antes um rigoroso controle de qualidade, visando a segurança do paciente e garantindo tratamento correto.