A Importância da Abordagem Multidisciplinar nos Transtornos Mentais: Perspectiva do Psiquiatra
Considerações iniciais
Atualmente, sabemos que os transtornos mentais como a ansiedade, a depressão ou os transtornos relacionados ao uso de substâncias, por exemplo, são condições altamente prevalentes e intrinsecamente complexas. Eles não são resultado de disfunções cerebrais isoladas, mas sim fenômenos que se manifestam e interagem com a totalidade do indivíduo – sua biologia, seu psiquismo, suas relações sociais, sua história de vida e o ambiente que o cerca.
Diante dos transtornos mentais nosso papel como psiquiatras é fundamental, especialmente no diagnóstico preciso, na compreensão dos mecanismos neurobiológicos e, crucialmente, na otimização da farmacoterapia. Contudo, seria ingenuidade acreditar que nosso trabalho, de maneira isolada, seja suficiente para resolver a totalidade do sofrimento e da disfuncionalidade que um transtorno mental acarreta. Nesse contexto, a abordagem multidisciplinar se torna não apenas benéfica, mas absolutamente indispensável, como veremos a seguir.
A etiologia dos principais transtornos mentais é multifatorial
Os transtornos mentais não são puramente neurobiológicos. Eles apresentam, sim, substratos neuroquímicos. Sabemos, por exemplo, que a genética tem papel fundamental no transtorno bipolar ou esquizofrenia, por exemplo. Estudos de neuroimagem mostram que o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) está associado a alterações no metabolismo dos gânglios da base e do córtex órbito-frontal. Ademais, reconhecemos que a dopamina é o principal neurotransmissor envolvido nas dependências químicas.
No entanto, fatores genéticos e substratos neurobiológicos interagem constantemente com diversos fatores ambientais na gênese dos transtornos mentais. Abaixo discriminamos uma série de fatores ambientais relacionados à etiopatogenia dos transtornos mentais (quadro 1).
Quadro 1. Principais fatores ambientais associados aos transtornos mentais
Fatores pré-natais e perinatais
Complicações obstétricas, baixo peso ao nascimento (<2500 g), idade paterna > 40 anos, estresse ou doenças materna durante a gestação.
Adversidades na infância
Abuso físico ou sexual, negligência parental, ausência de aleitamento materno, infecções, falecimento de um dos pais, núcleo familiar conflitivo, vitimização por bullying.
Uso de substâncias
Cannabis, álcool e outras drogas; tabagismo e vapes, uso inadequado de benzodiazepínicos e/ou estimulantes.
Estressores psicossociais
Instabilidade em vínculos interpessoais, dificuldades financeiras, desemprego, migração recente ou morar em grandes centros urbanos.
Fatores individuais
Traços de temperamento desadaptativos (ex: impulsividade ou instabilidade afetiva)*, alimentação pouco saudável, sedentarismo, presença de outras doenças clínicas ou estado inflamatório.
*Traços de temperamento e outros aspectos da personalidade modulam a forma de interação entre fatores genéticos/ neurobiológicos e o ambiente.
Visão holística e personalização do cuidado pela equipe multidisciplinar
Cada profissional de saúde traz uma ótica diferente para o paciente psiquiátrico. O psicólogo, por exemplo, explora o mundo interno, os traumas e as dinâmicas de relacionamento. Para muitos transtornos, como TOC e ansiedade, as psicoterapias são mais eficazes e seguras do que os próprios medicamentos. O terapeuta ocupacional foca na retomada da funcionalidade e autonomia. Seu trabalho, associado à fisioterapia, é de suma importância em pacientes portadores de demências ou distúrbios funcionais, por exemplo. Os enfermeiros monitoram a adesão a psicofármacos e oferecem suporte contínuo aos pacientes hospitalizados (ex: pacientes dependentes químicos ou psicóticos). O assistente social lida com as particularidades culturais e econômicas, sendo agentes fundamentais para os cuidados da psiquiatria da infância. Fonoaudiólogos auxiliam pacientes com distúrbios de linguagem e transtornos do espectro autista. Sem contar, ainda, o papel primordial dos nutricionistas nos transtornos alimentares, como bulimia e anorexia nervosa.
Para nós, médicos psiquiatras, cabe reunirmos essas diversas perspectivas e montarmos uma espécie de “quebra-cabeça”, desenhando um plano de tratamento verdadeiramente personalizado que atende à complexidade do indivíduo e não apenas de uma determinada doença.
O papel do médico generalista e de outras especialidades médicas nos transtornos mentais
Atravessamos uma epidemia de transtornos mentais. Não se sabe ao certo se isso decorre das mudanças recentes do estilo de vida e do meio ambiente (ex: consumo de alimentos ultraprocessados, isolamento social presencial em detrimento das redes virtuais, poluição) ou ainda, se por sequelas da pandemia. Fato é que diante desse panorama preocupante, a saúde mental não deverá mais ser tema exclusivo da preocupação dos escassos psiquiatras em nosso meio, mas sim dos médicos generalistas e também de outras especialidades médicas.
Além disso, cabe ressaltar que sintomas da mente podem ser decorrentes de outras doenças clínicas. Por exemplo: devemos investigar hipotireoidismo em um episódio depressivo, distúrbios metabólicos ou infecciosos em casos de confusão mental abrupta ou agitação psicomotora. Portanto, é de suma importância a inclusão de médicos não-psiquiatras na saúde mental e a conscientização dos mesmos no sentido da psicoeducação.
Em suma, a abordagem multidisciplinar não é um preciosismo, mas uma necessidade ética e científica no tratamento dos transtornos mentais. Ela reflete a compreensão de que estamos tratando pessoas inteiras e não apenas “cérebros deambulantes” ou sintomas isolados. Por meio dessa colaboração, podemos oferecer aos nossos pacientes a melhor chance de recuperação plena e duradoura.
As condições psiquiátricas merecem acolhimento, escuta qualificada e uma abordagem personalizada para garantir bem-estar e qualidade de vida. No Núcleo de Psiquiatria do Hospital Sírio-Libanês, você encontra uma equipe multidisciplinar preparada para atuar com seriedade, empatia e compromisso, unindo conhecimento técnico, ciência atualizada e cuidado integral.
Referências Adicionais:
- Organização Mundial da Saúde (OMS) - Comprehensive Mental Health Action Plan (2013).
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE) Guidelines (UK), 2020.
- Gabbard G. Long-Term Psychodynamic Psychotherapy: A Basic Text (3rd ed.). American Psychiatric Publishing, 2014.
- Liberman RP, Hilty DM, Drake RE, et al. Requirements for teamwork in psychiatric rehabilitation. Psichiatr Serv, 2001; 52(10): 1331-42
- Gilman SE, Ni MY, Dunn EC, Breslau J, et al. Contributions of the social environment to first-onset and recurrent mania. Mol Psychiatry. 2015;20(3):329-36.
- Shintani AO, Rabelo-da-Ponte FD, Marchionatti LE, et al. Prenatal and perinatal risk factors for bipolar disorder: A systematic review and meta-analysis. Neurosci Biobehav Rev. 2023;144:104960.