Câncer de Tireoide: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento
O câncer de tireoide é a neoplasia maligna endócrina mais comum, caracterizada pelo crescimento descontrolado de células originadas do epitélio folicular ou das células C parafoliculares. As últimas décadas têm mostrado aumento na incidência global, em parte relacionado ao maior uso de métodos de imagem de alta resolução, embora também haja evidências de crescimento real da prevalência.
1. Sintomas e Manifestações Clínicas
O câncer de tireoide geralmente apresenta evolução indolente, o que significa que cresce lentamente e pode permanecer assintomático por longos períodos. Muitos casos são diagnosticados de forma incidental, durante exames de rotina ou avaliações por outros motivos. No entanto, sinais clínicos podem surgir de acordo com o tipo histológico e a extensão local da doença.
Sintomas locais
Os sintomas locais estão relacionados ao crescimento do tumor dentro ou ao redor da glândula tireóide:
- Nódulo tireoidiano palpável: é a manifestação mais frequente. Pode surgir isoladamente ou associado a uma tireoidopatia nodular prévia.
- Crescimento rápido do nódulo: achado de alerta, especialmente sugestivo de carcinomas pouco diferenciados ou anaplásicos.
- Disfagia: dificuldade para engolir, geralmente causada por compressão ou invasão do esôfago.
- Disfonia: alteração da voz, indicando possível comprometimento do nervo laríngeo recorrente.
- Dispneia: sensação de falta de ar, relacionada à compressão ou desvio da traqueia.
- Dor cervical: menos comum, geralmente associada à invasão extratireoidiana ou crescimento tumoral agressivo.
Manifestações regionais e sistêmicas
Essas manifestações refletem a disseminação local ou regional da doença:
- Adenopatia cervical: presença de linfonodos aumentados no pescoço, comum no carcinoma papilífero, que frequentemente apresenta metástases linfonodais ao diagnóstico.
- Síndrome compressiva importante: ocorre em tumores volumosos que comprimem estruturas cervicais.
- Sintomas sistêmicos: são raros e geralmente observados apenas em doença metastática avançada.
2. Diagnóstico
O diagnóstico do câncer de tireoide envolve a integração de dados clínicos, laboratoriais, ultrassonográficos e citopatológicos, permitindo avaliação precisa do risco de malignidade.
Avaliação clínica e laboratorial
- Exame físico cervical: inclui palpação da tireoide e dos linfonodos cervicais, avaliando tamanho, consistência e mobilidade.
- Calcitonina sérica: indicada quando há suspeita de carcinoma medular, pois esse marcador é produzido pelas células C da tireoide.
Ultrassonografia de Tireoide
É o método de primeira linha para avaliação estrutural da glândula. Permite identificar características suspeitas de malignidade, como hipoecogenicidade marcada, microcalcificações, margens irregulares ou infiltrativas, formato mais alto que largo (“taller-than-wide”), vascularização central aumentada e alterações linfonodais. Sistemas como o TI-RADS auxiliam na estratificação do risco e na decisão de realizar biópsia.
Punção Aspirativa por Agulha Fina (PAAF)
É o padrão-ouro para avaliação citológica dos nódulos tireoidianos. O Sistema Bethesda classifica os achados citológicos em categorias que estimam o risco de malignidade e orientam a conduta clínica, variando de resultados benignos (Bethesda II) até altamente suspeitos ou malignos (Bethesda VI).
Exames complementares
- Tomografia computadorizada: útil na avaliação de tumores volumosos, extensão retroesternal ou suspeita de invasão traqueal ou esofágica.
- Ressonância magnética: indicada em situações específicas, especialmente para melhor avaliação de partes moles.
- PET-CT: geralmente utilizado em casos de doença recorrente ou metastática sem captação de iodo radioativo.
3. Tipos Histológicos Principais
Os tipos histológicos diferem quanto ao comportamento clínico e prognóstico:
- Carcinoma papilífero (CPT): mais comum (≈80%), geralmente de crescimento lento e bom prognóstico.
- Carcinoma folicular (CFT): apresenta maior associação com invasão vascular e metástases hematogênicas.
- Carcinoma medular (CMT): origina-se das células C e pode estar associado a mutações do gene RET.
- Carcinoma anaplásico (CAT): altamente agressivo, com crescimento rápido e prognóstico reservado.
- Carcinoma de células de Hürthle: variante oncocítica, com potencial comportamento mais agressivo.
4. Tratamento
O tratamento é individualizado e depende do tipo histológico, estadiamento da doença e fatores prognósticos do paciente.
Cirurgia
A cirurgia é a base do tratamento dos carcinomas diferenciados da tireoide:
- Lobectomia: indicada em casos selecionados, como nódulos pequenos e únicos, sem alterações adicionais no parênquima tireoidiano, e em pacientes com seguimento rigoroso.
- Tireoidectomia total: recomendada para tumores maiores que 1 cm, multifocais ou com risco intermediário ou alto de recorrência.
- Dissecção cervical: realizada quando há confirmação clínica ou ultrassonográfica de metástases linfonodais.
Terapia com Iodo Radioativo (I-131)
Indicada principalmente em carcinomas diferenciados com risco moderado ou alto de recorrência.
Seus objetivos incluem a ablação de restos tireoidianos, o tratamento de micrometástases e o controle de doenças metastáticas ativa. A eficácia depende de níveis elevados de TSH, obtidos por retirada da levotiroxina ou uso de TSH recombinante.
Terapia Supressiva com Levotiroxina
Tem como objetivo manter níveis baixos de TSH, reduzindo o estímulo ao crescimento tumoral. A intensidade da supressão é ajustada conforme o risco de recorrência e a presença de doença ativa.
5. Prognóstico e Seguimento
O prognóstico dos carcinomas diferenciados da tireoide é excelente, com sobrevida superior a 90% em 10 anos. Já os tumores anaplásicos e os carcinomas medulares apresentam comportamento mais agressivo e pior evolução.
O seguimento inclui dosagem de tireoglobulina (TG) e anticorpos antitireoglobulina, ultrassonografia cervical periódica e exames de imagem adicionais conforme o risco e a evolução clínica.
O Núcleo de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Sírio-Libanês atua de forma especializada no diagnóstico e tratamento das doenças da tireoide, paratireoides, glândulas salivares e tumores da região cervical, integrando assistência cirúrgica de alta complexidade, avaliação multidisciplinar e acompanhamento contínuo. A atuação conjunta com áreas como endocrinologia, oncologia, patologia, radiologia e medicina nuclear permite a definição de condutas individualizadas, com foco em segurança, precisão diagnóstica e melhores desfechos clínicos para cada paciente.