Esclerose múltipla: quais os sintomas, diagnóstico e tratamento
A esclerose múltipla muitas vezes se anuncia de forma discreta, quase fácil de ignorar. Uma visão que fica embaçada em um dos olhos durante alguns dias, um formigamento na perna que aparece sem motivo aparente, um cansaço que não passa nem depois de uma boa noite de sono.
Esses sintomas podem estar associados à esclerose múltipla, é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central, formado pelo cérebro e pela medula espinhal. Ela ainda não tem cura, mas os tratamentos atuais conseguem controlar a doença, reduzir os surtos e preservar a qualidade de vida, sobretudo quando o diagnóstico é precoce.
Neste artigo, você vai entender o que é a esclerose múltipla, quais são os primeiros sintomas, o que se sabe sobre as causas, quais são os tipos da doença, como é feito o diagnóstico e quais tratamentos estão disponíveis. Também vamos falar sobre a convivência com a doença no dia a dia. Siga a leitura!
O que é esclerose múltipla
Para entender a esclerose múltipla, vale imaginar os nervos como fios elétricos. Assim como os fios têm uma capa que protege e ajuda a conduzir a energia, as fibras nervosas são revestidas pela mielina, uma camada que permite que as mensagens entre o cérebro e o restante do corpo circulem com rapidez.
Na esclerose múltipla, o sistema imunológico, que deveria defender o organismo contra vírus e bactérias, passa a atacar essa camada por engano. O processo provoca inflamação e pequenas cicatrizes, chamadas de lesões desmielinizantes, em diferentes pontos do cérebro, da medula espinhal e dos nervos ópticos. É por isso que os sintomas variam tanto: cada lesão pode afetar uma função diferente, como a visão, a sensibilidade ou os movimentos.
A doença não é contagiosa e não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Há quem passe longos períodos sem nenhum sintoma e quem precise de um acompanhamento mais próximo.
Sintomas de esclerose múltipla: os primeiros sinais
Os sintomas de esclerose múltipla dependem da região do sistema nervoso atingida e podem ser leves no início, o que ajuda a explicar por que muitas pessoas demoram a procurar ajuda. Entre os sinais mais comuns estão:
• Alterações visuais: visão embaçada, dor ao movimentar o olho ou perda parcial da visão em um dos olhos, quadro conhecido como neurite óptica. A visão dupla também pode ocorrer.
• Dormência e formigamento: sensação de pele adormecida no rosto, nos braços, nas pernas ou no tronco, às vezes acompanhada de queimação.
• Fraqueza muscular: dificuldade para segurar objetos, subir escadas ou manter o ritmo de uma caminhada.
• Desequilíbrio e falta de coordenação: passos inseguros, tontura e sensação de instabilidade ao andar.
• Fadiga: um cansaço desproporcional, que atrapalha o trabalho e as tarefas de casa e não melhora totalmente com o repouso.
• Alterações cognitivas: lapsos de memória, dificuldade de concentração e lentidão para organizar o pensamento.
• Outros sinais: sensação de choque que desce pela coluna ao dobrar o pescoço, urgência para urinar e alterações na fala ou na deglutição.
No Brasil, a Academia Brasileira de Neurologia estima uma prevalência de aproximadamente 15 casos a cada 100 mil habitantes, o que corresponde a algo entre 30 mil e 35 mil brasileiros. A doença costuma aparecer entre os 20 e os 40 anos, justamente quando muitas pessoas estão construindo a carreira, a família e os projetos de vida, e é mais frequente em mulheres.
Sintomas que surgem e desaparecem
Uma característica marcante da doença são os surtos que, na definição do neurologista Tarso Adoni, coordenador do Centro de Esclerose Múltipla do Hospital Sírio-Libanês, em entrevista à CNN Brasil, é "um sintoma visual, sensitivo ou motor que dura alguns dias e passa".
Justamente por passar, o sintoma costuma ser deixado de lado. Mas a melhora espontânea não significa que o problema foi resolvido: é um sinal de que vale investigar.
Entenda sobre: Neuropatia periférica causa perda da sensibilidade e formigamento
O que causa a esclerose múltipla: fatores genéticos e ambientais
A ciência ainda não identificou uma causa única para a esclerose múltipla. O que se sabe é que a doença surge da combinação entre uma predisposição genética e fatores ambientais que, juntos, desregulam o sistema imunológico.

A genética aumenta o risco, mas a esclerose múltipla não é considerada uma doença hereditária no sentido clássico. Ter um familiar próximo com a condição eleva as chances, porém a maioria das pessoas diagnosticadas não tem outros casos na família, e a maioria dos filhos de quem tem a doença não vai desenvolvê-la.
Entre os fatores ambientais, a infecção pelo vírus Epstein-Barr, causador da mononucleose, é um dos mais estudados. Segundo o dr. Tarso Adoni, o risco é maior quando a infecção acontece na adolescência, e parte da estrutura do vírus se parece com a da mielina, o que pode levar o sistema imunológico a atacar as duas ao tentar combater o vírus.
Também estão associados à doença a baixa exposição ao sol, com níveis reduzidos de vitamina D, o tabagismo e a obesidade na adolescência.
Nenhum desses fatores, isoladamente, causa a esclerose múltipla, e ter um ou mais deles não significa que a pessoa vai desenvolver a condição. Como parte do risco depende da genética, não existe uma forma comprovada de prevenção. O que está ao alcance de todos é reconhecer os sinais e buscar avaliação cedo.
Tipos de esclerose múltipla
Os tipos de esclerose múltipla são definidos pela forma como a doença evolui ao longo do tempo. Conhecer cada um ajuda a entender por que o tratamento é sempre individualizado.
| Tipo | Como se manifesta |
| Remitente-recorrente (surto-remissão) | É a forma mais comum, responsável por cerca de 85% dos casos no início da doença. Os surtos são seguidos por períodos de melhora, com recuperação que pode ser completa. |
| Secundariamente progressiva | Surge anos depois da forma remitente-recorrente. Os surtos ficam menos frequentes, mas as limitações de movimento e de atividades aumentam de forma lenta e gradual. |
| Primariamente progressiva | Representa uma parcela menor dos casos. Não há surtos bem definidos, e os sintomas pioram de forma lenta e contínua desde o início. |
| Benigna | Termo usado para casos que, após muitos anos, mantêm pouca ou nenhuma limitação. Só pode ser reconhecida em retrospecto, e não no momento do diagnóstico. |
De acordo com o dr. Tarso Adoni, cerca de metade das pessoas com a forma remitente-recorrente pode evoluir para a forma secundariamente progressiva depois de 10 a 20 anos do início dos sintomas. Retardar essa evolução é um dos principais objetivos do tratamento iniciado cedo.
Como é feito o diagnóstico de esclerose múltipla
Não existe um único exame capaz de confirmar a esclerose múltipla. O diagnóstico é construído pelo neurologista a partir de um conjunto de informações, com base nos critérios de McDonald, parâmetros internacionais revisados periodicamente.
A versão mais recente, de 2024, foi publicada em 2025 na revista The Lancet Neurology e passou a incluir o nervo óptico entre as regiões avaliadas.~

Avaliação clínica
Na consulta, o médico investiga a história dos sintomas: quando começaram, quanto tempo duraram e se já aconteceram antes. O exame neurológico avalia força, sensibilidade, reflexos, equilíbrio, coordenação e visão.
Ressonância magnética de crânio e coluna
A ressonância magnética é o principal exame de imagem. Mais do que encontrar lesões, o neurologista analisa se elas estão em regiões típicas da doença, como ao redor dos ventrículos cerebrais, próximas ao córtex, no tronco cerebral, na medula ou no nervo óptico, e se há lesões em estágios diferentes, sinal de que surgiram em momentos distintos.
Esse padrão, somado aos sintomas, é o que diferencia a esclerose múltipla de outras alterações que também aparecem no exame.
Análise do líquor
Em alguns casos, é indicada a punção lombar para analisar o líquor, o líquido que envolve o cérebro e a medula. A presença de bandas oligoclonais, um marcador de inflamação no sistema nervoso central, reforça a suspeita.
Exclusão de outras doenças
Exames de sangue e outras avaliações ajudam a descartar condições com sintomas parecidos, como infecções, outras doenças autoimunes e deficiências de vitaminas. A falta de vitamina B12, por exemplo, pode causar formigamento e alterações de sensibilidade e, em alguns casos, aparecer como alterações na medula na ressonância.
Esclerose múltipla, esclerose sistêmica e ELA: qual a diferença
A palavra esclerose significa endurecimento ou cicatrização de um tecido, e por isso aparece no nome de doenças bastante diferentes entre si. Essa semelhança costuma gerar confusão e medo desnecessário em quem está pesquisando sobre o próprio diagnóstico. Vale separar as três condições mais confundidas.
A esclerose múltipla é uma doença autoimune do sistema nervoso central, em que o sistema imunológico ataca a mielina. Evolui, na maioria dos casos, em surtos seguidos de melhora, e tem tratamentos capazes de controlar a doença por muitos anos.
A esclerose sistêmica, também conhecida como esclerodermia, é uma doença autoimune reumatológica. Ela não afeta a mielina: o problema está na produção excessiva de colágeno, que provoca espessamento e endurecimento da pele e pode comprometer órgãos internos. Quem acompanha o caso costuma ser o reumatologista.
A esclerose lateral amiotrófica, a ELA, é uma doença neurodegenerativa que atinge os neurônios motores, responsáveis por comandar os músculos. Não é autoimune e não provoca surtos: a perda de força é progressiva e contínua, com impacto sobre movimentos, fala, deglutição e respiração. Sensibilidade, visão e, na maior parte dos casos, a capacidade de raciocínio costumam ser preservadas.
Em resumo, a esclerose múltipla e a ELA afetam o sistema nervoso, mas por mecanismos e com evoluções bem distintas, enquanto a esclerose sistêmica sequer é uma doença neurológica. Compartilhar o nome não significa compartilhar o prognóstico.
| Esclerose múltipla | Esclerose sistêmica (esclerodermia) | ELA (esclerose lateral amiotrófica) | |
| O que é | Doença autoimune do sistema nervoso central | Doença autoimune reumatológica do tecido conjuntivo | Doença neurodegenerativa dos neurônios motores |
| O que é atingido | Mielina do cérebro, da medula e dos nervos ópticos | Pele e, em parte dos casos, órgãos internos | Neurônios que comandam a musculatura |
| Principais sintomas | Alterações visuais, formigamento, fraqueza, desequilíbrio e fadiga | Endurecimento da pele, dedos que mudam de cor com o frio e sintomas de órgãos afetados | Perda progressiva de força, alterações na fala, na deglutição e na respiração |
| Como evolui | Em geral por surtos, com períodos de melhora entre eles | Crônica, com evolução variável conforme os órgãos envolvidos | Perda progressiva de força, alterações na fala, na deglutição e na respiração |
| Quem costuma ser afetado | Adultos jovens, entre 20 e 40 anos, com mais frequência mulheres | Adultos, com predomínio em mulheres | Em geral após os 50 anos |
| Especialista responsável | Neurologista | Reumatologista | Neurologista |
Tratamento para esclerose múltipla
Apesar de ainda não existir uma cura para a esclerose múltipla, atualmente o tratamento já auxilia muitos pacientes a manterem a rotina de trabalho, os estudos e a convivência com a família. O plano é sempre individualizado e combina diferentes frentes.
Medicamentos que modificam o curso da doença
Os chamados medicamentos modificadores do curso da doença atuam no sistema imunológico para reduzir a inflamação no sistema nervoso central. O objetivo é diminuir a frequência e a intensidade dos surtos, evitar novas lesões e retardar a progressão das limitações.
Segundo o dr. Tarso Adoni, existem opções orais, injetáveis por via subcutânea e aplicadas na veia, e, dependendo do medicamento, a aplicação pode ser mensal ou até semestral.
A escolha leva em conta o tipo da doença, o nível de atividade inflamatória, o histórico de saúde e os planos de cada pessoa, como o desejo de engravidar.
Por isso, a indicação é sempre feita pelo neurologista, e o tratamento não deve ser interrompido sem orientação médica.
Tratamento dos surtos
Durante um surto, o médico pode indicar anti-inflamatórios potentes, como os corticoides, por poucos dias, para acelerar a recuperação. Em situações específicas, outras abordagens podem ser consideradas. Nem todo sintoma novo exige esse tratamento, e a avaliação médica define a melhor conduta para cada caso.
Reabilitação multidisciplinar
O tratamento da esclerose múltipla também vai além dos medicamentos. A fisioterapia, a terapia ocupacional, a fonoaudiologia e acompanhamento psicológico oferece suporte para lidar com o diagnóstico e com as mudanças na rotina.
Em todas essas frentes, o tempo faz diferença. Quanto antes o tratamento começa, maiores são as chances de controlar a inflamação antes que ela deixe sequelas, o que torna o diagnóstico precoce um dos fatores que mais influenciam o prognóstico.

Como é viver com esclerose múltipla e qual a expectativa de vida
Viver com esclerose múltipla envolve ajustes que fazem a diferença na rotina:
• Atividade física regular: com orientação profissional, os exercícios ajudam a manter a força, o equilíbrio e a disposição, além de contribuírem para o controle da fadiga.
• Organização da rotina: distribuir as tarefas mais exigentes ao longo do dia e prever pausas ajuda a lidar com o cansaço sem abrir mão das atividades.
• Atenção ao calor: dias muito quentes, banhos quentes e febre podem piorar temporariamente sintomas antigos. Esse efeito costuma passar quando o corpo volta à temperatura normal e não indica, necessariamente, um novo surto.
• Não fumar: além de estar associado ao risco da doença, o tabagismo está ligado a uma evolução menos favorável.
• Saúde emocional: ansiedade e tristeza são reações comuns ao diagnóstico, e contar com apoio psicológico e com a rede de familiares e amigos faz parte do tratamento.
• Consultas e exames em dia: o acompanhamento com o neurologista e as ressonâncias periódicas permitem ajustar o tratamento sempre que necessário.
Esclerose múltipla e expectativa de vida
Essa é uma das dúvidas mais comuns, e a resposta traz um alento realista: a esclerose múltipla não é considerada uma doença terminal, e a maioria das pessoas com a condição tem expectativa de vida próxima à da população em geral e a diferença que existe vem diminuindo com a evolução dos tratamentos.
O que mais influência esse cenário é o controle da doença ao longo do tempo: tratamento iniciado cedo, adesão às orientações médicas e atenção à saúde como um todo, incluindo pressão arterial, colesterol, peso e tabagismo.
Quando procurar um neurologista
O dr. Tarso Adoni orienta procurar um médico sempre que surgirem sintomas neurológicos que persistem por dias sem uma causa definida, como alterações na visão, na sensibilidade ou nos movimentos do corpo.
A recomendação vale especialmente para sintomas que aparecem e desaparecem, que se repetem em partes diferentes do corpo ou que surgem em adultos jovens. Para quem já tem o diagnóstico, qualquer sintoma novo, ou a piora de um sintoma antigo por mais de 24 horas, deve ser comunicado ao neurologista.
Se você se identificou com algum desses sinais ou recebeu o diagnóstico recentemente, não adie a consulta. O diagnóstico precoce é o caminho mais seguro para controlar a doença e preservar a qualidade de vida.
O Núcleo de Neurologia do Hospital Sírio-Libanês é formado por especialistas em diversas áreas da neurologia. Possui capacitação para avaliação e acompanhamento de pacientes com necessidade de internação por causas neurológicas, bem como acompanhamento ambulatorial.
Conheça mais sobre o Núcleo de Neurologia do Hospital Sírio-Libanês.
Perguntas frequentes sobre esclerose múltipla
1. Esclerose múltipla é contagiosa?
Não. A esclerose múltipla é uma doença autoimune, em que o próprio sistema imunológico ataca a mielina. Ela não passa de uma pessoa para outra por contato, saliva ou qualquer outra forma de convivência.
2. Quais são os primeiros sintomas de esclerose múltipla?
Os sinais iniciais mais comuns são visão embaçada ou dor ao movimentar um dos olhos, formigamento, dormência, fraqueza, desequilíbrio e fadiga intensa. Em geral, esses sintomas duram alguns dias e depois melhoram, o que faz muitas pessoas adiarem a avaliação.
3. Esclerose múltipla é hereditária?
Não no sentido clássico. Ter um familiar próximo com a doença aumenta o risco, mas a maioria das pessoas diagnosticadas não tem casos na família, e a maioria dos filhos de quem tem esclerose múltipla não desenvolve a condição.
4. Vitamina D baixa causa esclerose múltipla?
Níveis baixos de vitamina D e pouca exposição ao sol estão entre os fatores associados à doença, mas não são uma causa isolada. A reposição da vitamina deve ser feita somente com orientação médica.
5. Qual é o tipo mais comum de esclerose múltipla?
A forma remitente-recorrente, também chamada de surto-remissão, responde por cerca de 85% dos casos no início da doença. Nela, os surtos são seguidos por períodos de melhora.
6. Ter uma lesão na ressonância significa ter esclerose múltipla?
Não necessariamente. Pequenas lesões na substância branca podem ter diversas causas, como enxaqueca e alterações vasculares. O diagnóstico depende da avaliação do neurologista, que considera sintomas, exame físico, imagens e outros exames.
7. Esclerose múltipla tem cura?
Ainda não. Porém, os tratamentos disponíveis reduzem os surtos, diminuem o surgimento de novas lesões e retardam a progressão da doença, permitindo que muitas pessoas mantenham uma vida ativa.
8. O tratamento da esclerose múltipla está disponível pelo SUS?
Sim. O Sistema Único de Saúde oferece diagnóstico, medicamentos e reabilitação conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla, do Ministério da Saúde.
9. Quem tem esclerose múltipla pode engravidar?
Sim. O ideal é planejar a gestação com o neurologista, porque alguns tratamentos precisam ser ajustados antes da concepção. Durante a gravidez, os surtos tendem a diminuir, e o acompanhamento deve continuar com atenção especial nos meses após o parto.
10. Qual é a expectativa de vida de quem tem esclerose múltipla?
Na maioria dos casos, a expectativa de vida é próxima à da população em geral, e a diferença vem diminuindo com os tratamentos modernos. Manter a doença controlada e cuidar da saúde como um todo são os fatores que mais contribuem para um bom prognóstico.
Texto validado pro Dr. Eduardo Genaro Mutarelli CRM - 42777