Previsões otimistas para o combate das hepatites virais
Conhecidas por serem silenciosas, pois demoram a apresentar sintomas, as hepatites virais são doenças infecciosas que causam inflamação praticamente restrita ao fígado. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, uma em cada 12 pessoas em todo o mundo tem algum tipo crônico de hepatite provocada por vírus. Trata-se de um problema relevante de saúde pública. No entanto, o gastroenterologista do Sírio-Libanês e professor da Universidade Federal de São Paulo Mario Kondo explica que não é motivo para pânico.
É que, na maioria dos casos, a infecção pelo vírus da hepatite não traz graves consequências. Muitas vezes, o vírus é eliminado sem que o paciente sequer perceba a infecção. E mesmo aqueles que venham a desenvolver formas crônicas da doença, podem conseguir um bom controle ou até mesmo a cura.
Como se pega, como se trata
Hepatite A - É a hepatite viral mais comum. Transmitida pela ingestão de alimento contaminado ou pelo contato com sangue ou fezes da pessoa infectada. Chega-se a cura em 99% dos casos e há vacina preventiva. Não existe tratamento específico.
Hepatite B - Tem como principal meio de transmissão a relação sexual sem preservativo. É o tipo de hepatite que mais leva a óbito. Em sua forma crônica pode desencadear à cirrose hepática e o carcinoma hepatocelular (câncer de fígado). No entanto, existe vacina preventiva e tratamento gratuito no Brasil. Na maior parte dos casos, os pacientes crônicos não conseguem se livrar totalmente do vírus, mas conseguem uma boa qualidade de vida com a ingestão diária de alguns comprimidos.
Hepatite C - A principal forma de transmissão se dá por contato com sangue (compartilhamento de objetos como agulhas, seringas e alicates de unha). Não existe vacina e tratamento para controle. Os remédios oferecidos pelo SUS conseguem curar aproximadamente 60% dos casos. Novos remédios, ainda não aprovados pela ANVISA, podem curar mais de 90% dos casos.
Hepatite D - Também conhecida por hepatite Delta, tem como principal forma de transmissão a via sexual. Só as pessoas portadoras da infecção pelo vírus B da hepatite têm o risco de se infectar pela hepatite D. É menos comum que as hepatites A, B e C. No Brasil, registrada principalmente na região Amazônica.
Hepatite E - Tem características parecidas com a hepatite A. Seu principal meio de transmissão é a ingestão de água ou alimentos contaminados. É mais comum na Ásia e na África.
Fonte: Ministério da Saúde.
A hepatite do tipo A, conta com vacina preventiva e geralmente o próprio organismo elimina o vírus. A hepatite B também conta com vacina altamente eficaz, e medicamentos específicos têm se mostrado capazes de controlar bem a doença, quando o vírus não é eliminado logo de cara pelo organismo. Indicadas pelas Sociedades de Pediatria e Imunologia, as duas vacinas já fazem parte do calendário de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS). Já para a hepatite C, os remédios disponibilizados atualmente pelo governo são capazes de curar aproximadamente 60% dos pacientes.
Diante dessa comparação, a maior preocupação recairia então sobre o vírus C da hepatite.
Mas Kondo reforça que devemos nos manter otimistas. Ele conta que acaba de ser lançada uma nova classe de medicamentos, ainda não aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que está revolucionando o tratamento da doença. “São antivirais ultramodernos, capazes de curar mais de 90% dos casos, com efeitos colaterais quase nulos”, comenta.
A novidade, porém, tem suas restrições. Além de não ter a aprovação da Anvisa, é muito cara. Nos Estados Unidos, por exemplo, quatro meses de tratamento, em geral suficientes para livrar o paciente do vírus, saem por aproximadamente 190 mil dólares.
Mesmo assim, Kondo comemora. “Essa talvez seja a melhor notícia para o enfrentamento das hepatites nos últimos anos”, diz. “Ainda não é uma realidade para todos, mas é um futuro que já existe. E em breve, possivelmente, esses medicamentos também estarão disponíveis no SUS”, acrescenta.
Quando o transplante é indicado?
Quando descobertas muito tardiamente, as hepatites virais podem trazer tal prejuízo ao fígado que o paciente precisa recorrer ao transplante. No Brasil, a hepatite C é a maior responsável por transplantes de fígado.
A pessoa que se encontra nesta situação é cadastrada no Sistema Nacional de Transplantes e passa a aguardar um doador. A gravidade da doença e a compatibilidade com o órgão disponível são critérios utilizados pelo Ministério da Saúde para determinar os primeiros da lista que devem ser considerados para receber o órgão.
Em São Paulo, o tempo médio de espera para receber um fígado está entre seis meses e um ano. Respeitando os critérios de escolha dos candidatos, os casos menos graves esperam por mais tempo. É importante lembrar que mesmo após o transplante a pessoa precisa continuar o tratamento, pois ela se mantem com o vírus no organismo e, na falta do controle, a doença poderá danificar também o novo órgão.
Alerta especial
Embora o número de infectados pelas hepatites virais seja considerável, não se pode falar em epidemia. Segundo Mario Kondo, o registro de novos casos vem se mantendo no mesmo patamar há vários anos.
A orientação, de qualquer forma, é para que todas as pessoas que receberam sangue ou hemoderivados antes de 1995 procurem um médico para verificar se há necessidade de realizar o exame de detecção do vírus da hepatite C. E aqueles que se expuseram a relações sexuais sem proteção ou são filhos de mães portadoras da hepatite B devem fazer o teste para este vírus.