Acalasia: causas, sintomas e como o tratamento cirúrgico resolve a dificuldade de engolir

Comida que parece "entalar" no peito, engasgos frequentes e regurgitação de alimentos horas após as refeições podem ser sinais de acalasia. Entenda por que ela surge e como o tratamento devolve a deglutição.
21/08/2026 5 min de leitura
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acalasia costuma começar de forma silenciosa: a comida parece "parar" no meio do peito, o engasgo vira rotina e, depois de algum tempo, até a água passa a incomodar. Muita gente convive anos com esses sinais achando que é refluxo, gastrite ou nervosismo, até perceber que algo mais está acontecendo na hora de engolir.

acalasia é um distúrbio motor do esôfago em que o esfíncter esofágico inferior (a válvula muscular entre o esôfago e o estômago) não relaxa durante a deglutição. Com isso, o alimento não consegue passar normalmente para o estômago e se acumula no esôfago. 

É uma condição rara, mas frequentemente subdiagnosticada, justamente porque é confundida com refluxo gastroesofágico ou com quadros de ansiedade.

A boa notícia é que a acalasia tem tratamento eficaz e, na maioria dos casos, definitivo. Ao longo deste conteúdo, você vai entender o que é a doença, por que ela surge, como reconhecer os sintomas, de que forma o diagnóstico é feito e quais são as opções de tratamento da acalasia. Siga a leitura!

O que é acalasia e como ela afeta a deglutição

Para entender o que é acalasia, ajuda lembrar como funciona uma deglutição normal. Quando engolimos, o esôfago realiza contrações coordenadas (o peristaltismo) que empurram o alimento de cima para baixo. Ao chegar ao final, o esfíncter esofágico inferior relaxa e abre a passagem para o estômago.

Na acalasia, esse mecanismo falha em dois pontos: o esôfago perde a capacidade de se contrair de maneira coordenada e o esfíncter inferior permanece contraído quando deveria relaxar. O resultado é o acúmulo de alimento no esôfago, que com o tempo sofre dilatação progressiva e passa a devolver a comida não digerida, gerando regurgitação.

mulher jovem assoando o nariz com um pano branco

Existem dois tipos principais. A acalasia primária (ou idiopática) ocorre sem uma causa externa identificável, por degeneração dos próprios neurônios do esôfago. Já a acalasia secundária é consequência de outra doença, sendo a doença de Chagas a causa mais relevante no Brasil.

Causas da acalasia

Quando se fala em causas da dificuldade de engolir, a acalasia é uma das possibilidades, ao lado de refluxo, estreitamentos do esôfago, alterações neurológicas e tumores. O que diferencia a acalasia é o padrão progressivo, que costuma envolver tanto sólidos quanto líquidos.

Além disso, o mecanismo central da acalasia primária é a degeneração dos neurônios do plexo mioentérico, a rede nervosa responsável por comandar os músculos do esôfago. Sem esse controle, o esôfago perde o peristaltismo e o esfíncter inferior deixa de relaxar. 

A origem exata dessa degeneração ainda não é totalmente conhecida e envolve fatores autoimunes, genéticos e possivelmente virais.

Entre as causas secundárias, duas merecem destaque:

Doença de Chagas

No Brasil, é uma causa importante de acalasia, porque o parasita lesiona os neurônios do esôfago de forma semelhante à degeneração da forma primária, podendo evoluir para o megaesôfago chagásico.

Tumores da junção esofagogástrica: 

Certas lesões na transição entre esôfago e estômago podem mimetizar a acalasia, produzindo sintomas parecidos. Por isso, investigar a causa é parte essencial do diagnóstico.

Sintomas da acalasia

Os sintomas da acalasia tendem a surgir de forma gradual e se intensificar ao longo de meses ou anos. Dentre os principais, pode-se destacar:

  1. Disfagia progressiva: a dificuldade para engolir começa com alimentos sólidos e, de modo característico, passa a atingir também os líquidos.
  2. Regurgitação: retorno de alimentos não digeridos, muitas vezes horas após a refeição, sem o gosto ácido típico do refluxo.
  3. Tosse noturna e engasgos: episódios noturnos provocados pela regurgitação de conteúdo retido no esôfago, com risco de aspiração para as vias respiratórias.
  4. Perda de peso: consequência da dificuldade persistente de se alimentar de forma adequada.

 

fotode cima dos pés de uma moça em cima de uma balança de peso

A presença de disfagia que avança de sólidos para líquidos é um dos sinais mais sugestivos para o diagnóstico da acalasia e não deve ser ignorado.

Como o diagnóstico da acalasia é feito

diagnóstico da acalasia combina a avaliação clínica com exames específicos que confirmam a alteração motora e excluem outras causas:

Manometria esofágica de alta resolução

É o exame padrão ouro. Mede as pressões e os movimentos do esôfago, confirmando a falha de relaxamento do esfíncter esofágico inferior e a ausência de peristaltismo.

Radiografia contrastada do esôfago:

Mostra o estreitamento na parte final do esôfago, com o clássico aspecto em "bico de pássaro", e evidencia a dilatação acima desse ponto.

Endoscopia digestiva alta

Fundamental para excluir causas obstrutivas, como tumores, que podem simular o quadro.

Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor. Identificar a acalasia em fases iniciais ajuda a evitar a dilatação progressiva e irreversível do esôfago, que caracteriza o megaesôfago avançado.

Tratamentos disponíveis para acalasia

tratamento da acalasia tem como objetivo aliviar a obstrução funcional, reduzindo a pressão do esfíncter para que o alimento volte a passar. As opções variam em invasividade e durabilidade dos resultados:

  1. Dilatação pneumática endoscópica: opção não cirúrgica, feita por endoscopia, em que um balão dilata o esfíncter. Apresenta bons resultados em casos selecionados, embora possa exigir repetições ao longo do tempo.
  2. Miotomia de Heller laparoscópica: considerada o padrão cirúrgico de referência. Por videolaparoscopia, o cirurgião secciona as fibras musculares do esfíncter, com alta taxa de sucesso em longo prazo. É a principal forma de cirurgia para acalasia.
  3. POEM (miotomia endoscópica peroral): procedimento endoscópico de terceira geração, realizado por dentro do esôfago, sem cortes externos. Oferece resultados equivalentes aos da cirurgia em pacientes adequadamente selecionados.
  4. Injeção de toxina botulínica: opção temporária, indicada sobretudo a pacientes sem condições clínicas para procedimentos mais definitivos, já que o efeito tende a diminuir com o tempo.

A escolha entre essas alternativas depende do tipo de acalasia, do grau de dilatação do esôfago, da idade e das condições gerais de cada paciente, sempre definida em conjunto com o especialista.

Quando procurar o especialista

Alguns sinais indicam que a investigação não deve ser adiada:

  • Disfagia progressiva, especialmente quando passa a atingir também os líquidos, e não apenas os sólidos.
  • Perda de peso associada à dificuldade para engolir.
  • Regurgitação noturna, com engasgos ou tosse durante o sono.

Se a dificuldade para engolir vem se tornando frequente ou progressiva, agende uma avaliação com um especialista para investigar a causa. 

Núcleo de Gastroenterologia do Hospital Sírio-Libanês tem como missão o atendimento de alta qualidade nas diversas doenças benignas e malignas do trato gastrointestinal, dentre elas doenças do esôfago, estômago, pâncreas, vias biliares, fígado, intestino e cólon.

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Texto validado por Dr. Arnaldo Nacarato CRM - 24357