Lesões ligamentares são as mais comuns no futebol

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Dr Tiago Lazzaretti Fernandes

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O futebol é o esporte mais popular do mundo. Estima-se que aproximadamente de 265 milhões de pessoas praticam o esporte com regularidade, representando 4% da população. Além disso, a FIFA representa 209 nações associadas em todo o mundo. Ou seja, mais do que a própria organização das Nações Unidas.

Atualmente, os campeonatos de futebol exigem um preparo físico maior do que no passado. Os jogadores deslocam-se de dez a 12 quilômetros por partida e quanto mais alto o nível, maior a intensidade do jogo. O futebol envolve uma grande variedade de movimentos, incluindo contato físico, mudança de direção, acelerações bruscas, chutes, saltos e cabeçadas. Por isso, é classificado como um esporte intermitente e com predomínio aeróbico.

A incidência de lesões é maior nos membros inferiores, principalmente no tornozelo e joelho. Entretanto, lesões na cabeça e coluna cervical também são comuns, representando aproximadamente 10% das lesões. Trinta a 40% das lesões são ligamentares. As contusões são responsáveis por 20 a 25% da casuística e as lesões musculares ou de tendão são responsáveis por 15 a 20% do número total de lesões.

Diversos são os avanços realizados quanto à prevenção de lesões e, hoje, um dos assuntos mais estudados é a realização da avaliação pré-atividade física (3). Esta avaliação tem por objetivo identificar doenças cardiovasculares congênitas ou adquiridas, além de doenças clínicas que possam vir a diminuir o rendimento dos atletas. O sistema musculoesquelético também é avaliado neste momento, a fim de se diagnosticar lesões prévias ou condições clínicas que possam ocasionar lesões.

Principais lesões no futebol

Músculos e tendões

Cargas repetitivas e prolongadas são fatores responsáveis pelo desenvolvimento da tendinopatia. Outros fatores que aumentam a tensão local do tendão são o encurtamento ou desbalanço muscular, a restrição da amplitude de movimento como um todo e o mau alinhamento do membro inferior.

As lesões musculares são comuns nos membros inferiores e em mais de 90% ocorrem por estiramento excessivo das fibras ou contusão durante o treino ou competição. As lesões mais comuns são representadas pelos: músculo quadríceps, 32%; músculos isquiotibiais, 28%; músculos adutores, 19%; gastrocnêmios, 12%.

Apesar da frequência elevada destas lesões, ainda há poucos estudos sobre os eventos envolvidos e o conhecimento da fisiologia muscular é necessário para o tratamento.

Lesão ligamentar do joelho

A lesão relacionada ao joelho mais comum diz respeito ao ligamento colateral medial e aos meniscos. Contudo, a lesão de maior gravidade do joelho está relacionada ao ligamento cruzado anterior. Embora grave, considerando-se o tempo de afastamento, dor, disfunção e custos com o tratamento, a lesão do ligamento cruzado anterior não é “epidêmica”. A incidência de lesão mensurada pela NCAA varia de 0.02 a 0.33 por 1000 atletas-expostos.

O mecanismo de lesão mais frequente é o trauma torcional. O quadro clínico na lesão aguda é caracterizado por dor e derrame articular. A instabilidade, referida pelo paciente como um "falseio", é quase sempre incompatível com a prática da maioria dos esportes.

Entorse do tornozelo

Lesões ligamentares do tornozelo são descritas pela literatura como as lesões mais comuns, independente do tipo de exposição (treinamento ou competição)

As entorses do tornozelo representam aproximadamente 80% das lesões que atingem o tornozelo e o pé, sendo que as entorses em inversão correspondem a 85% deste total.

O ligamento mais frequentemente lesionado na torção do tornozelo é o fíbulo-talar anterior. Este ligamento é o principal estabilizador lateral do tornozelo. As entorses laterais do tornozelo geralmente ocorrem pelo movimento de supinação exagerado, geralmente durante a aterrissagem do atleta após um salto sobre o pé de outro jogador, ou em uma superfície irregular.

Princípios de Tratamento

Os atuais princípios de tratamento das lesões musculoesqueléticas são carentes de bases cientificas sólidas.

Têm-se mostrado que a mobilização precoce induz a um crescimento capilar mais rápido e intenso na área da lesão, melhor regeneração das fibras musculares e melhor paralelismo entre a orientação das miofibrilas regeneradas em comparação à imobilização.

O tratamento imediato para a lesão do musculoesquelético ou qualquer tecido de partes moles é conhecido como princípio PRICE (Proteção, Repouso, “Ice”, Compressão e Elevação). A justificativa do uso do princípio PRICE é muito prático, visto que as cinco medidas clamam por minimizar o sangramento do sítio da lesão. Atualmente, existem centros de medicina esportiva que preconizam a adoção do POLICE, ou seja, em vez de “rest”, utiliza-se “optimal loading” movimentação da articulação nos limites da dor para otimizar o tratamento.

Considerações finais

A compreensão dos mecanismos fisiológicos da lesão musculoesquelética é essencial para o profissional que se propõe a tratar dos atletas. É a base para o desenvolvimento dos meios de prevenção de lesões e para o tratamento adequado das lesões instaladas.

Referências

  1. F-Marc FIFA Football Medicine Manual 2nd Edition 2009

  2. 36th Bethesda Conference, 2005 Journal of the American College of Cardiology

  3. Performance Characteristics According to Playing Position in Elite Soccer. Di Salvo V et al. International Journal of Sports Medicine 2007

  4. UEFA Elite Club Injury Study Season 2012/2013 Report

  5. PRICE needs updating, should we call the POLICE? Bleakley CM, Glasgow P, MacAuley DC. British Journal of Sports Medicine 2012

  6. Hootman JM, Dick R, Agel J. Epidemiology of collegiate injuries for 15 sports: summary and recommendations for injury prevention initiatives. J Athl Train. 2007 Apr-Jun;42(2):311-9.

  7. Fernandes TL, Pedrinelli A, Hernandez AJ. Dor na Coxa e na Perna. pag. 139-140. In: Nobrega ACL. Manual de Medicina do Esporte – do Problema ao Diagnóstico. São Paulo: Editora Atheneu, 2009.

  8. Pedrinelli A, Fernandes TL, Thiele E, Teixeira WJ. Lesão Muscular – Ciências Básicas, Fisiopatologia, Diagnóstico e Tratamento. pag. 9. In: Junior WMA, Fernandes TD. Programa de Atualização em Traumatologia e ortopedia (PROATO).Porto Alegre: Artmed/Panamericana Editora, 2006.

  9. Järvinen M, Lehto MUK. The effect of early mobilization and immobilization on the healing process following muscle injuries. Sports Med. 1993;15:78-89.

  10. Mandelbaum BR, Silvers HJ, Watanabe DS, et al. Effectiveness of a neuromuscular and proprioceptive training program in preventing anterior cruciate ligament injuries in female athletes. Am J Sports Med. 2005;33:7,1003-1010

  11. van Mechelen W, Hlobil H, Kemper HC. Incidence, severity, aetiology and prevention of sports injuries: a review of concepts. Sports Med. 1992;14:82–99