Síndrome das pernas inquietas: causas, sintomas e como aliviar
Quem tem síndrome das pernas inquietas conhece bem a sensação: você se deita, tenta descansar, e uma espécie de desconforto insuportável toma conta das pernas. Peso, sensação de falta de posição ou a impressão de que algo se move sob a pele. O alívio só vem quando você movimenta as pernas ou até mesmo se levanta e começa a andar, mas ao voltar para a cama, tudo recomeça.
Trata-se de uma condição neurológica que provoca uma necessidade irresistível de mover as pernas, com piora característica em repouso e à noite, justamente quando o organismo deveria estar descansando.
Os sintomas costumam ser subestimados ou confundidos com ansiedade e cansaço, mas têm origem bem documentada e afetam entre 5% e 10% da população adulta, segundo dados da Academia Brasileira do Sono.
Neste artigo, você vai entender o que é a síndrome das pernas inquietas, os sintomas mais comuns, por que eles se intensificam à noite, quais são as causas mais frequentes e quais opções de tratamento para essa condição.
Se os sintomas já comprometem sua qualidade de sono, continue a leitura e saiba quando buscar um especialista.
O que é a síndrome das pernas inquietas?
A síndrome das pernas inquietas (SPI), também chamada de doença de Willis-Ekbom, é uma condição neurológica crônica caracterizada por sensações desconfortáveis nos membros inferiores associadas à necessidade intensa de movimentá-los.
A relação com o sistema nervoso central envolve, principalmente, alterações nas vias dopaminérgicas, que regulam o movimento e a percepção de sensações nos membros. Quando essa sinalização é deficiente, o sistema nervoso interpreta o repouso como um estado de desconforto, gerando o impulso de se mover.
O alívio ocorre com o movimento, mas os sintomas podem retornar assim que a pessoa volta ao repouso.
Do ponto de vista clínico, a SPI é classificada como um distúrbio sensório-motor que compromete tanto a qualidade do sono quanto o bem-estar geral. Ela pode se manifestar em qualquer faixa etária, mas é mais prevalente em adultos acima de 40 anos e em mulheres, especialmente durante a gestação.

Quais são os principais sintomas?
Os sintomas da síndrome das pernas inquietas têm características bastante específicas que ajudam no diagnóstico. As principais manifestações incluem:
Sensações desconfortáveis nas pernas, especialmente à noite
A maioria das pessoas descreve peso, coceira profunda, tensão ou a sensação de que algo rasteja sob a pele. Essas sensações ocorrem predominantemente nas panturrilhas, mas podem se estender para as coxas e, em alguns casos, para os braços ou até todo o corpo.Os sintomas da síndrome das pernas inquietas se intensificam durante períodos de inatividade, como assistir a uma reunião, uma viagem de avião ou ao tentar dormir. A piora noturna é uma característica central da condição e está diretamente relacionada ao ritmo biológico do organismo.
Necessidade irresistível de mover as pernas
A vontade de mover os membros não é opcional: ela surge como uma resposta ao desconforto e pode ser tão intensa que impede a pessoa de permanecer sentada ou deitada por longos períodos.
Alívio temporário com o movimento
Ao caminhar, agitar as pernas ou se levantar, os sintomas cedem. Esse alívio é característico da síndrome das pernas inquietas e é um dos critérios diagnósticos mais importantes. O problema é que, ao retomar o repouso, as sensações retornam.
Por que os sintomas pioram à noite?
Essa é uma das perguntas mais frequentes de quem tem pernas inquietas à noite: por que as sensações ficam mais intensas exatamente na hora de dormir?
Nas horas que antecedem o sono, alguns processos fisiológicos se desaceleram, e a sensibilidade do sistema nervoso periférico pode aumentar. Para pessoas com síndrome das pernas inquietas, esse estado de "alerta reduzido" coincide com a janela em que os sintomas se tornam mais pronunciados.
Além disso a dopamina, que é o neurotransmissor mais diretamente envolvido na fisiopatologia da SPI, sofre uma queda mais acentuada no período noturno. Essa queda natural amplifica o desconforto e a necessidade de movimento, tornando as pernas inquietas à noite o principal gatilho de insônia nesses pacientes.

Quais são as causas mais comuns da síndrome das pernas inquietas?
Identificar as causas das pernas inquietas é fundamental para definir o tratamento mais adequado. A condição pode ter origem primária (sem causa identificável, com componente genético) ou secundária (associada a outras condições clínicas).
Deficiência de ferro
A deficiência ferro pernas inquietas é uma das associações mais bem estabelecidas na literatura médica. O ferro é essencial para a síntese de dopamina no cérebro, e quando seus níveis estão baixos, a função dopaminérgica é prejudicada. Isso explica por que a síndrome das pernas inquietas é comum em gestantes, pessoas com anemia ferropriva e pacientes em hemodiálise.
Fatores genéticos
Estudos indicam que até 60% dos casos de SPI primária têm componente familiar. Variantes em genes como BTBD9, MEIS1 e MAP2K5 foram associadas a maior risco de desenvolver a condição.
Quando há histórico familiar, os sintomas tendem a surgir mais cedo e a ter apresentação mais grave.
Doenças associadas
Além da deficiência de ferro, outras condições podem desencadear ou agravar a síndrome das pernas inquietas, entre elas:
- Insuficiência renal crônica e hemodiálise;
- Neuropatia periférica (inclusive associada ao diabetes);
- Doença de Parkinson;
- Hipotireoidismo;
- Uso de certos medicamentos, como antidepressivos, antipsicóticos e anti-histamínicos.
Como é feito o diagnóstico da síndrome das pernas inquietas?
Não existe um exame laboratorial ou de imagem que confirme isoladamente a síndrome das pernas inquietas. O diagnóstico é essencialmente clínico e se baseia em quatro critérios estabelecidos pelo International Restless Legs Syndrome Study Group (IRLSSG):
- Necessidade de mover as pernas acompanhada de sensações desagradáveis;
- Início ou piora dos sintomas em repouso;
- Alívio parcial ou total com o movimento;
- Piora dos sintomas à noite ou no início da madrugada.
Durante a consulta, o médico também investiga o histórico clínico completo, uso de medicamentos e possíveis condições associadas. Exames laboratoriais, especialmente dosagem de ferritina e ferro sérico, são solicitados para afastar causas secundárias e orientar o tratamento.
A exclusão de outras condições que cursam com desconforto nos membros inferiores, como cãibras, neuropatia periférica e insuficiência venosa, faz parte do processo diagnóstico.
Como aliviar os sintomas?
O tratamento para pernas inquietas é individualizado e depende da causa identificada, da gravidade dos sintomas e do impacto sobre o sono. As principais abordagens incluem:
1. Mudanças de hábito
Algumas mudanças no dia a dia podem reduzir significativamente a frequência e a intensidade dos episódios:
- Manter uma rotina regular de sono;
- Evitar cafeína, álcool e tabaco, especialmente à noite;
- Praticar atividade física moderada (exercícios intensos próximos ao horário de dormir podem piorar os sintomas);
- Massagem nas pernas e banhos mornos antes de deitar-se;
- Técnicas de relaxamento e higiene do sono.

2. Suplementação de ferro (quando indicada)
Quando a deficiência ferro é confirmada por exames, a reposição de ferro pode melhorar substancialmente os sintomas da síndrome das pernas inquietas. A suplementação oral é a primeira linha, mas em casos de má absorção ou ferritina muito baixa, a reposição intravenosa pode ser necessária. O acompanhamento médico é imprescindível para definir dose e duração do tratamento.
3. Medicamentos
Nos casos moderados a graves, o neurologista pode indicar medicamentos específicos, como:
- Gabapentinoides (gabapentina, pregabalina): indicados especialmente quando há dor associada ou neuropatia concomitante;
- Agonistas dopaminérgicos (pramipexol, rotigotina): aumentam a disponibilidade de dopamina e são os mais utilizados no tratamento das pernas inquietas; Seu uso deve ser bem avaliado pois pode levar a uma piora paradoxal dos sintomas.
- Opioides de baixa dose: reservados a casos refratários, sob supervisão rigorosa;
Nenhum medicamento deve ser iniciado sem avaliação médica, pois o uso inadequado pode causar fenômeno de augmentação, uma piora paradoxal dos sintomas das pernas inquietas.
Quando procurar um especialista?
Nem todo desconforto nas pernas exige investigação imediata, mas alguns sinais indicam que é hora de buscar avaliação médica especializada.
Se as sensações nas pernas ocorrem mais de duas vezes por semana e persistem há mais de um mês, a síndrome das pernas inquietas deve ser investigada por um neurologista. Ignorar o quadro não elimina a causa subjacente e pode agravar a condição.
Além disso, quando as pernas inquietas à noite impedem o adormecimento, provocam despertares frequentes ou resultam em sonolência excessiva durante o dia, há impacto direto na saúde física e mental do paciente, justificando a busca por um especialista.
Importância do acompanhamento especializado
A síndrome das pernas inquietas é uma condição que exige mais do que autodiagnóstico: ela demanda avaliação cuidadosa para distinguir a forma primária das formas secundárias, identificar causas tratáveis e definir o melhor plano terapêutico para cada paciente.
O diagnóstico diferencial é especialmente importante porque outras condições, como cãibras noturnas, síndrome das pernas dolorosas, neuropatias periféricas e movimentos periódicos dos membros, apresentam sintomas semelhantes, mas requerem abordagens distintas.
Com acompanhamento adequado, a maioria das pessoas com síndrome das pernas inquietas consegue reduzir significativamente o impacto da condição na qualidade de vida e no sono.
Se você sente formigamento, queimação ou necessidade de mover as pernas que piora à noite e interfere no seu sono, não normalize esses sintomas. A síndrome das pernas inquietas tem tratamento e o diagnóstico precoce faz toda a diferença. Procure um especialista para uma avaliação completa.
O Núcleo de Medicina do Sono do Hospital Sírio-Libanês reúne profissionais altamente qualificados e especializados na área de Medicina do Sono, que oferecem um atendimento completo, multidisciplinar e multiprofissional, voltado ao diagnóstico e tratamento das doenças do sono, com abordagem integrada entre diferentes especialidades.
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Texto validado por Dr. Lucio Huebra Pimentel Filho, CRM 171037