Tumor com nome e sobrenome

 
Fonte: Dr. Artur Katz, Diretor Geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês e Dr. Romualdo Barroso, oncologista do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília
Publicado em 31/05/2019

Um dos principais temas que será debatido durante o encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), que acontece em Chicago está semana, é a medicina de precisão. A ciência avançou muito nos últimos anos, permitindo maior personalização do tratamento oncológico. Mesmo surgindo num mesmo órgão, cada paciente desenvolve um tipo de um câncer único e, para tratá-lo da forma mais eficiente possível, é preciso saber o nome e sobrenome do tumor.

“A cada dia, descobre-se mais sobre as alterações moleculares responsáveis pela gênese de tumores. Essa informação nos permite criar tratamentos personalizados, pois muitas drogas vêm sendo desenvolvidas para atuar nestes defeitos das células, assim podemos tentar agir para bloquear os caminhos que operam no desenvolvimento da doença”, explica Dr. Artur Katz, Diretor Geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês.

A maior prova disso são casos em que o tratamento foi direcionado para tratar mutações específicas, que podem ser comuns a muitos tipos de tumores, independentemente do órgão ou tecido do qual se origina. “É o que se chama atualmente de tratamento ‘tumor-agnóstico’, que se baseia na existência desta alteração molecular e não em seu local de origem”, explica o Dr. Katz. Este tipo de estratégia não existia até poucos meses atrás, duas mutações específicas apresentam essa característica. A primeira é chamada de MSH1, ou instabilidade microssatélite, defeito celular que torna o DNA da célula instável, favorecendo a formação de mutações que permitem desenvolvimento de tumores. A segunda mutação, extremamente rara, é a NTRK. A partir do reconhecimento da existência destas alterações, pode-se realizar um tratamento direcionado. Para tanto, após a realização de uma biópsia, é preciso realizar exames no tecido tumoral para identificar a presença destas alterações.

O conhecimento molecular das células tumorais também trouxe outras avenidas de tratamento. A própria imunoterapia é resultado de uma maior compreensão dos mecanismos de desenvolvimento do tumor. Segundo explica o Dr. Romualdo Barroso, oncologista do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, o conceito de imunoterapia não é novidade. “Diferentes tipos de imunoterapia estão aprovados desde a década de 90. A diferença de lá para cá foi a abordagem”, informa. Antes, buscava-se estimular o sistema de defesa contra o câncer. Hoje, os tratamentos estão focados em bloquear as proteínas responsáveis por “desativar” ou “frear” o sistema imune. Ao bloquear os freios, a imunoterapia permite que o sistema de defesa seja capaz de reconhecer e atacar o tumor. “Esse é o conceito geral do mecanismo de ação dos inibidores de checkpoint imune, a imunoterapia moderna”, afirma Dr. Barroso. A imunoterapia é sem dúvida um avanço enorme na luta contra o câncer. “Precisamos agora aumentar o número de pacientes que podem se beneficiar com esse tratamento”, completa.