Febre oropouche, ainda pouco conhecida no Brasil, requer cuidados para que não se alastre pelo País

 
Fonte: Dra. Mirian de Freitas Dal Ben Corradi, infectologista e médica da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Sírio-Libanês
Publicado em 13/12/2017

Febre, dor de cabeça, dor no corpo e nas articulações. Em alguns casos, o paciente pode apresentar vômitos e o quadro pode evoluir para meningite. Embora esses sintomas sejam muito semelhantes aos da dengue, estamos falando de outra doença, ainda pouco conhecida no Brasil, mas que vem preocupando especialistas. Trata-se da febre oropouche.

Assim como a dengue, a zika e a chikungunya, a febre oropouche também é transmitida por um mosquito, o Culicoides paraensis, conhecido como borrachudo, maruim ou pólvora, que antes era encontrado em pequenos vilarejos da Amazônia. Porém mais recentemente o Departamento de Virologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto alertou para a circulação do vírus em algumas cidades brasileiras.

O vírus causador dessa doença, o oropouche, foi detectado no Brasil em 1960. De lá para cá, já foram notificados alguns surtos isolados, especialmente na região Norte. “Já tivemos surtos no Pará, Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Minas Gerais. Outros países, como Peru e Panamá, também já tiveram o vírus detectado”, informa Dra. Mirian de Freitas Dal Ben Corradi, infectologista e médica da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Sírio-Libanês.

Dados apontam que há mais de 500 mil casos relatados da doença no País nas últimas décadas. O vírus já foi isolado em aves no Rio Grande do Sul, em um macaco sagui em Minas Gerais e foi detectada a presença de anticorpos neutralizantes (que se ligam ao vírus e sinalizam ao sistema imune para destruir o corpo estranho) em macacos em Goiânia (GO).

Em 2002, os pesquisadores da USP diagnosticaram 128 pessoas infectadas pelo vírus oropouche em Manaus (AM), e recentemente uma pessoa foi diagnosticada em Ilhéus (BA). Há suspeita de que alguns casos da febre oropouche possam ter sido diagnosticados erroneamente como dengue.

Segundo Dra. Mirian, alguns estudos sugerem que o vírus se mantém na natureza, no chamado ciclo silvestre. Macacos e outros animais típicos de matas são seus principais hospedeiros. “A doença é transmitida quando a pessoa é picada por um mosquito contaminado. O risco de surto ocorre porque o mosquito já não está mais restrito aos pequenos vilarejos da Amazônia”, comenta. A resposta para isso pode estar no desmatamento ocorrido nas regiões onde há maior concentração do Culicoides paraensis.

Diagnóstico e tratamento da febre oropouche

O diagnóstico é feito por meio de um exame de sangue específico para identificação do vírus, chamado PCR (reação em cadeia de polimerase). As pessoas em maior risco de contrair a doença são as que vivem em regiões ribeirinhas, de mangues ou alagadas, e aquelas que viajam para essas regiões.

A médica explica que na maioria dos casos a febre oropouche é uma doença autolimitada, com um ciclo que dura de cinco a sete dias, sendo indicado apenas o uso de medicações orais para aliviar os sintomas. “A evolução para manifestações mais graves, como meningite, não é comum”, esclarece Dra. Mirian.

Em alguns casos, os sintomas da febre oropouche podem retornar após 7 a 14 dias a partir do final da primeira manifestação, embora não torne a doença mais grave.

Como se prevenir da febre oropouche?

As principais formas de prevenção são o controle dos criadouros de mosquitos e a adoção de medidas que evitem picadas, como o uso de repelentes e roupas de mangas compridas, quando em áreas de risco, e de telas bem finas nas janelas e portas. Não existe nenhuma vacina, até o momento, que possa proteger contra a doença.

O serviço de Pronto Atendimento do Hospital Sírio-Libanês e a equipe de infectologistas que compõe o quadro clínico estão preparados para avaliar os casos suspeitos de febre oropouche e encaminhá-los, caso seja necessário, para uma instituição que realize o exame específico para diagnosticar a doença.