Covid-19 em crianças

 
Fonte: Dr. Marcello Creado Pedreira - CRM: 65.377 - Coordenador do Núcleo Avançado de Especialidades Pediátricas do Hospital Sírio-Libanês
Publicado em 16/06/2021
COVID-19 em Crianças

Felizmente, os relatos de crianças acometidas pelo COVID-19 têm sido altamente relacionados a uma boa evolução, o que nos deixa um pouco mais tranquilos em relação a esta dura pandemia que vem afetando nossas vidas em todos os aspectos. Mas, a preocupação com nossas crianças estará sempre presente, quer seja em relação ao retorno seguro às escolas ou a possíveis notícias mais preocupantes que eventualmente possam surgir.

Diante disso, o Núcleo de Especialidades Pediátricas do Hospital Sírio-Libanês traz a avaliação de nossos especialistas sobre o que está acontecendo com as crianças infectadas pelo vírus. Nesta publicação, agradecemos muito a contribuição da Dra. Lucília Santana de Faria e da Dra. Daniela Souza, ambas da UTI Pediátrica do HSL, e da equipe da Dra. Adriana Maluf, do núcleo de Reumatologia Pediátrica do hospital. Vejam o que responderam a algumas perguntas que muitos gostariam de fazer.

A gravidade dos casos de COVID-19 em crianças aumentou de um ano para cá?

Não, a gravidade da COVID-19 em crianças não aumentou em 2021, quando comparada a 2020. Segundo uma nota da própria Sociedade Brasileira de Pediatria, baseada em dados do Ministério da Saúde até março deste ano, as crianças representaram menos de 2% das hospitalizações por COVID-19 em 2021, número menor do que os 2,5% registrados em 2020. Outra boa notícia é que a mortalidade de crianças pela COVID-19 também foi menor que em 2021, passando de 8,2% para 5,8%.

Mas os casos de COVID-19 aumentaram em crianças?

Seria mesmo esperado um aumento do número absoluto de casos em crianças, em decorrência do aumento substancial de novos casos da doença na população adulta. Contudo, as crianças representam um percentual muito pequeno das hospitalizações e mortes pela doença. O que aconteceu na verdade, e foi anunciado de forma nem sempre adequada pela mídia, foi um aumento de crianças hospitalizadas por quadros respiratórios graves (também chamados de SRAG ou síndrome respiratória aguda grave) em decorrência de infecções por outros vírus respiratórios que comumente afetam as crianças neste período do ano, como o vírus respiratório sincicial. Com a maior circulação das pessoas, inclusive das crianças - o que não ocorreu em 2020 - as infecções comuns nas crianças voltaram a aparecer.

Existe uma nova forma grave de COVID-19 que acomete só as crianças?

Não existe nada novo. Em abril de 2020, foi descrita uma forma mais grave de COVID-19 em crianças chamada de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), mas cujos mecanismos ainda não estão muito bem esclarecidos. Trata-se de uma complicação que acomete principalmente crianças infectadas pelo COVID-19 e que surge cerca de 2 a 4 semanas após o contato com um adulto infectado pelo vírus. Mas, para maior tranquilidade, ela é rara, com baixa mortalidade e que também não apresentou aumento de casos ou mortes em 2021. Nos Estados Unidos e na Europa, a mortalidade pela SIM-P é menor que 2%. No Brasil todo, até outubro de 2020, segundo o Ministério da Saúde, haviam sido notificados apenas 511 casos de SIM-P.

Quais as idades de maior risco para a SIM-P?

Apesar de a SIM-P poder ocorrer em crianças de qualquer idade, ela é mais prevalente nas crianças em idade escolar, de 7 a 10 anos, e em adolescentes.

Quando desconfiar que meu filho pode ter SIM-P?

  • A SIM-P tem esse nome por poder acometer vários órgãos e sistemas do nosso corpo (por isso, multissistêmica), como o coração e os vasos, o trato gastrointestinal e a pele. Desta forma, a SIM-P pode apresentar uma grande variedade de sinais e sintomas inespecíficos, pois são também comuns a outras doenças da infância, confundindo-se até mesmo com uma infecção bacteriana mais grave. O conselho é que os pais fiquem atentos e procurem rápido atendimento médico quando as crianças que tenham tido contato com alguém infectado pela COVID-19 apresentarem:
  • Febre alta e persistente (difícil de ceder com antitérmicos), com dor no corpo ou dor de cabeça.
  • Prostração e alteração do comportamento habitual da criança (mais sonolenta, desanimada ou até mesmo muito irritada).
  • Respiração muito rápida e batimentos cardíacos acelerados, com possível queda da pressão arterial.
  • Sintomas gastrointestinais, como dor de barriga, náuseas, vômitos e diarreia.
  • Exantemas (pele avermelhada), conjuntivite sem secreção purulenta ou lesões dentro da boca.

Ao procurar um hospital, alguns exames poderão estar comumente alterados, como os marcadores de inflamação e do trabalho do coração e a coagulação.

Existe algum tratamento específico para a SIM-P?

Não existe nenhum tratamento específico para a COVID-19 em crianças e nem para a SIM-P. O tratamento para a SIM-P é basicamente de suporte e deve ser realizado preferencialmente em unidades de terapia intensiva pediátrica. Os medicamentos recomendados, inclusive alguns de última geração, são para controlar a inflamação exacerbada e para manter o bom funcionamento dos órgãos acometidos. Ressaltamos que a ANVISA não liberou nenhum medicamento antiviral para tratar a COVID-19 em crianças.

Adultos também podem ter esse problema?

Sim, há alguns relatos de SIM-P temporalmente associada à COVID-19 em adultos, mas são raros.

Mudando um pouco de tema, se o pai ou a mãe estiverem com COVID-19 a criança também deve fazer o teste, mesmo sem sintomas?

Neste caso, a criança deve fazer o teste para COVID-19 (RT-PCR) apenas se tiver sintomas e após o terceiro dia do início dos mesmos. No caso de interesse em saber se houve ou não contato importante com o vírus, pode-se fazer a sorologia para detecção de anticorpos IgG, cerca de 30 dias após a suspeita.