Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

G1/NACIONAL
Data Veiculação: 29/10/2021 às 15h31

Circula nas redes sociais uma mensagem que mostra uma imagem extraída de um microscópio e descreve a cena como a observação de um novo modo de criatura com tentáculos feita de carbono e alumínio e colocada dentro das vacinas. O texto diz ainda que é possível observar na imagem linhas de montagem com nano robôs e partículas magnéticas. É #FAKE. A mensagem, que também cita esferas metálicas, chips e tripomastigotas do Trypanossoma cruzi, é disseminada por grupos antivacina no Telegram e em posts no Facebook e no Twitter. O boato é um combo de várias teorias da conspiração, algumas delas já desmentidas pelo Fato ou Fake. Ana Paula Herrmann, professora do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz que a mensagem é "absurda". "São afirmações tão bizarras e sem fundamento que é difícil ter o que dizer. Me parece que esse tipo de fake news tem evoluído ultimamente para um lado que não tem como contrapor com argumentos racionais. Porque simplesmente não tem um raciocínio, uma interpretação que possa ser contra-argumentada", diz. Sobre o carbono e o alumínio, ela diz: "Vacinas contra a Covid19 têm carbono, sim, e os seres humanos também têm carbono, os seres vivos têm carbono, as plantas têm carbono. Os seres vivos são feitos basicamente de moléculas que contêm carbono em sua estrutura. Carbono, hidrogênio, nitrogênio, fósforo. Os lipídios, os carboidratos, as proteínas, os ácidos nucleicos, todos eles têm carbono. Então, as vacinas também têm carbono. E algumas têm, sim, alumínio. O alumínio é usado como adjuvante para potencializar a resposta imune. O que não tem nada a ver com criaturas feitas de carbono e alumínio. As vacinas não são seres vivos. Nem os próprios vírus são considerados seres vivos. Então não há seres vivos dentro das vacinas". Sobre nano robôs e partículas magnéticas, a especialista afirma: "Também não há nano robôs nem partículas magnéticas. Não há nenhum fundamento nisso, nenhuma lógica. Não há robôs sendo vistos na análise do sangue. Esferas metálicas magnetizadas também não. Nem chips ou tripomastigotas do Trypanossoma cruzi. Não tem nada vivo dentro da vacina. Elas, em geral, são feitas de mRNA, que é o foco desta postagem, e outras são feitas com vírus atenuado ou vírus inativado. Enfim, não é nenhuma nanotecnologia. Isso é uma teoria da conspiração. Acho que nem a própria pessoa que lançou essa bobagem sequer acredita nisso". A professora destaca que as vacinas são seguras. "O que pode eventualmente acontecer é a contaminação com algum ser vivo, alguma bactéria ou algum fungo, porque eles estão por todos os lugares. De qualquer forma são seres vivos já conhecidos e contaminantes esperados. Só que para isso a gente tem controle de qualidade. Existem protocolos que são seguidos para evitar que uma solução aquosa seja contaminada com bactérias ou fungos. Isso não tem nada a ver com robôs ou chips ou Trypanossoma cruzi, que é um protozoário. Não existe nem uma coisa nem outra." "Os seres vivos, de forma geral, são feitos de elementos químicos e um dos elementos é carbono. Nós também temos alumínio no nosso organismo, que é proveniente da dieta. A gente acaba ingerindo através da comida e da água alguma quantidade pequena de alumínio. A maior parte disso é excretada pelos rins, pela urina ou nem sequer é absorvida", diz Ana Paula Herrmann. A doutora em hematologia pela Escola Paulista de Medicina, professora do Uniceplac e médica do Hospital Sírio-Libanês Martha Mariana Arruda, que já esclareceu para o Fato ou Fake uma mensagem que usava imagens de microscópio para alegar que vacinas contra Covid-19 alteram células sanguíneas, deixa claro que os formuladores da mensagem falsa apenas repetiram o truque. "Nano não é possível ver em microscopia óptica. Isso aí são hemácias normais em microscopia de campo invertido apenas", diz a especialista. "O que está mexendo no fundo são bactérias... Pegaram uma cultura com sangue e bactérias e colocaram para avaliação por microscopia de campo invertido", esclarece. A médica explica que as estruturas grandes que aparecem no vídeo não são similares às do Trypanossoma cruzi, o protozoário que causa da doença de Chagas. Ela diz que a escala mostrada na imagem está errada. Ana Paula Duarte Souza, farmacêutica, pesquisadora e professora da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, também diz que a imagem não mostra nada do que a mensagem falsa alega. E ressalta que nem faz sentido dizer se a amostra é de um vacinado ou não. "Provavelmente são hemácias. Dá para perceber alguma contaminação com micro-organismos. Mas não são robôs. Provavelmente são artefatos, talvez um fio de algodão ou uma gaze que contaminaram aquela amostra. Não tem nada do que está sendo dito." Ana Paula Duarte acrescenta que a mensagem como um todo é completamente sem fundamento. E explica que a composição das vacinas contra a Covid19, podem ser facilmente encontrada em websites confiáveis como o FDA, dos Estados Unidos, ou a Anvisa, no caso do Brasil. "Esses sites liberam a bula da vacina e na bula da vacina está explicando qual é a sua composição", diz. A especialista também esclarece a parte que fala da vacina de RNA mensageiro: "A vacina tem o RNA mensageiro, que é o princípio ativo da vacina. Esse RNA mensageiro é uma sequência de ácidos nucleicos que vai ser traduzida em proteína para induzir a resposta imune no paciente que receber a vacina. A vacina também tem lipídios, que são muito importantes, porque eles recobrem esse RNA mensageiro para ele conseguir, então, entrar dentro das células das pessoas vacinadas. Esses lipídios são polietilenoglicol e estão na composição da vacina. E a vacina também tem estabilizantes para conservar a vacina, como sacarose, ácido acético e outros componentes que estão ali para estabilizar essa composição. Mas não tem nada do que diz na mensagem. Essa mensagem é completamente fake", diz. Ela diz que a vacina pode realmente causar miocardite em adolescentes e que esse evento adverso está descrito na bula e foi divulgado em estudos científicos. "Esse efeito adverso é raro e manejável. Então os benefícios da vacinação são muito superiores ao potencial risco desse efeito adverso. Por isso, se vacinem." As fabricantes de vacinas têm sido alvo de vários boatos sobre a composição dos imunizantes. O Fato ou Fake já desmentiu que as vacinas contenham chip ou qualquer tipo de inteligência artificial. Também já demonstrou que é falso que vacinas contenham ímãs e causem magnetismo. As empresas sempre reforçam que a bula completa de cada uma está disponível no site da Anvisa. A Organização Mundial de Saúde também esclarece que os ingredientes são seguros. Procurada pelo g1, a Pfizer afirma que desconhece a análise alegada na mensagem falsa, mas garante que seu processo de fabricação respeita regras rigorosas de vigilância sanitária, para garantir a pureza e a segurança do imunizante. Também diz que todas as etapas de fabricação do imunizante, incluindo análise de qualidade do produto, são minuciosamente avaliadas pelas agências regulatórias em todo o mundo por ocasião de aprovação de uso e seguem processos contínuos de inspeção por esses órgãos, de acordo com a legislação vigente. Afirma ainda que dedica seus maiores esforços na vigilância da qualidade, segurança e eficácia dos insumos e produtos que fabrica e comercializa, disponibilizando seus produtos de forma segura e responsável ao mercado, em conformidade com as mais rigorosas normas de qualidade e segurança. E esclarece que a bula do imunizante com todas as informações, incluindo sua composição, é acessível ao público e pode ser encontrada na internet. Vídeo: Veja como identificar se uma mensagem é falsa.