Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

FOLHA DE S.PAULO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 29/02/2020 às 12h00

A advogada Joana, 29, beijou um italiano em um bloco carnavalesco em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, na terça (25). No dia seguinte, mesmo sem sintomas de gripe, foi ao pronto-socorro de um hospital privado da capital querendo fazer o teste diagnóstico para o coronavírus. O caso pode parecer bizarro, mas com o crescente pânico em torno da infecção, têm aumentado os casos de pessoas que viajaram ao exterior ou que tiveram contato com estrangeiros —ou acham que tiveram— buscando serviços médicos para se certificarem de que estão livres da doença, a chamada covid 19. Em comum, eles têm o fato de não apresentarem sintomas da gripe. “Todos têm uma história para contar. É o amigo do filho que veio da Itália, pessoas com medo querendo se assegurar de que está tudo bem diante de tanta notícia”, afirma o infectologista Luiz Fernando Camargo, do Hospital Israelita Albert Einstein. 

Segundo ele, muitas pessoas sem sintomas buscam o hospital pedindo para serem testadas. “É aquela ideia: ‘deixa eu ver se eu estou negativo mesmo’, muita gente querendo excluir um diagnóstico mesmo sem ter sintomas”, diz ele. No Hospital Sírio-Libanês, a situação é a mesma: pessoas assintomáticas querendo fazer exames. “A pessoa acha que o resultado do exame vai dar segurança de que ela não tenha a doença. Isso não é verdade. Sem sintomas ou como prevenção, o exame não ajuda”, explica Christian Valle Morinaga, gerente médico do pronto-atendimento. 

Camargo explica que, para as pessoas assintomáticas, fazer o teste é muito discutível. “A gente recomenda não fazer.” Mesmo que um exame nessa situação assintomática venha a dar positivo, não há o que ser feito, além da observação e das orientações para se evitar a transmissão para outras pessoas. Não há medicamentos que curem a doença respiratória causada pelo vírus —apenas remédios para os sintomas, como febre, coriza e tosse. Em entrevista à Folha, o infectologista David Uip disse que os testes diagnósticos são importantes apenas em dois momentos: para confirmar a chegada do coronavírus ao Brasil e para checar se está havendo contaminação entre pessoas que não viajaram para o exterior. “A testagem é importante em termos epidemiológicos, mas individualmente, não. Não muda nada a assistência a esse paciente.” Por que então tanto medo e esse desejo pelos testes? “A gente detesta o desconhecido, aquilo que não domina. As pessoas estão tensas. Querem saber o que fazer no dia a dia, se vão para o trabalho, se pegam o metrô, se podem viajar. Isso está afetando muito o dia a dia”, diz Camargo, do Einstein. Outras situações que têm gerado aumento na procura pelos prontos-socorros da capital paulista e a busca pelos testes diagnósticos são as gripes por influenza e outras viroses respiratórias, que estão mais mais frequentes nesses últimos dias, com a queda da temperatura. É um fenômeno que já tinha acontecido no ano passado. “Os sintomas são justamente de febre, dor no corpo, febre, nariz escorrendo. Isso tem preocupado muito as pessoas que pensam se tratar de coronavírus, mas, na verdade, é o influenza já circulando em São Paulo”, diz Morinaga. 

Segundo o infectologista Esper Kallás, há aumento de casos de gripe por influenza B e H1N1 também nos consultórios. “Tem alguma coisa diferente acontecendo com o influenza. O motivo de ele estar circulando nesta época do ano está totalmente em aberto. Condição climática? Diversidade do vírus? Mais pessoas suscetíveis? Tem que fazer uma conta muito grande.”

Para Mirian Dal Ben, infectologista do Sírio-Libanês, uma outra hipótese que poderia explicar em parte esse fenômeno é o vírus estar sendo trazido por pessoas que viajaram a países do hemisfério norte, que estão no inverno e registram epidemias de influenza. “Estamos diagnosticando mais casos de influenza nesta época do ano do que diagnosticávamos três anos atrás.” O aumento ocorreu especialmente nas últimas semanas e ainda não há números oficiais consolidados. Nos EUA, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) estima que até 24 fevereiro o influenza tenha infectado 29 milhões de pessoas. Dessas, pelo menos 13 milhões passaram por consultas médicas, 280 mil foram hospitalizadas e 16 mil morreram. No mesmo período, houve 14 casos de covid-19, com nenhuma morte. “O influenza mata milhares por anos e as pessoas e estão preocupadas com o coronavírus que não chega a nenhuma fração das mortes por vírus da gripe”, diz Kallás. Na última quinta (27), o Ministério da Saúde anunciou que vai antecipar a campanha de vacinação contra gripe para 23 de março. 

A imunização protege contra cepas do influenza, mas uma vez que a pessoa esteja vacinada, fica mais fácil para profissionais de saúde diagnosticarem qual vírus paciente pode ter contraído. Na paranoia do coronavírus, até resfriados comuns têm levado as pessoas aos pronto-socorros. “No meu último plantão, tinha muita gente com queixas leves de resfriados, dor de garganta que normalmente não fariam nada mas, em razão do medo do coronavírus, acabam indo buscar uma coisa, não sabem muito bem o quê, como se fosse uma mágica para não pegar”, diz otorrrinolaringologista Marcos Roberto Nogueira, plantonista no Hospital Ruben Berta (SP). Segundo ele, entre os atendidos havia uma família de quatro pessoas, dois adultos e duas crianças. “Nenhum deles precisava de atendimento emergencial em um PS. Não deveriam entrar num hospital e correr riscos óbvios deste tipo de ambiente, com pessoas doentes, e aumentar a chance de adoecer de fato.” Para Nogueira, muita gente vai para o hospital em busca de informações. 

“Não é o fórum ideal. Só se arrisquem a entrar num hospital se estiverem com sintomas realmente importantes e levem um mínimo de acompanhantes.” Mirian Dal Ben reforça que a ida desnecessária aos serviços de saúde não faz bem para ninguém. “Não é bom para o paciente, que não vai ter benefício, não é bom para o serviço de saúde, que vai ficar com o pront0-atendimento lotado sem poder dar atenção para quem realmente precisa, e também não é bom para o sistema de saúde, que tem limitação de recursos.” Kallás vê o ano de 2009 como o início da cultura da gripe no Brasil. “Naquela época, nem se fazia diagnóstico de gripe. Depois da gripe suína, ganhou-se o conhecimento sobre aquilo e todo o mundo começou a se preocupar em fazer teste para gripe.” Para ele, com o coronavírus, o país vai acordar para a cultura dos vírus respiratórios.

“Na hora que você pede um monte de testes num caso suspeito de coronavírus, você vai descobrir um monte de vírus respiratórios, metapneumovírus, influenza A e B, H1N1 e outros coronavírus.” Kallás conta que dias atrás um colega pediu um painel viral para um paciente e diagnosticou coronavírus 229E, que já circula há muito tempo. “Ele causa resfriado, nariz escorrendo. 

O paciente ficou em pânico, a família inteira queria fazer teste. A gente vai passar por essa fase de aprendizado e mostrar que esses vírus são muito mais comuns do que a gente imagina.” Os coronavírus são uma grande família viral, conhecidos desde meados dos anos 1960, que, em geral, causam sintomas semelhantes a um resfriado comum. Os mais comuns são alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.