Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus

VOCÊ S/A ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 28/08/2020 às 07h55

Quais as principais mudanças e os novos hábitos adotados nos escritórios com o retorno às atividades presenciais no último mês, governos como os de São Paulo e Rio de Janeiro anunciaram o fim gradual da quarentena imposta para controlar a pandemia da covid-19. Os escritórios já podem voltar a funcionar, e as empresas têm mais um desafio nesta crise: retomar o trabalho físico com segurança. Mas elas estão indo com calma. De acordo com uma pesquisa da consultoria KPMG feita com 722 executivos, 35% preveem que o retorno acontecerá entre setembro e dezembro; 21% planejam a volta ainda em agosto; e 9% só querem regressar em 2021. “Ninguém sabe o que vai acontecer. Todos estão estudando os cenários possíveis e fazendo planos em cima disso”, diz André Coutinho, sócio líder de clientes e mercados da KPMG. Ainda segundo o levantamento da consultoria, a maior parte das companhias fará a retomada de maneira gradual, sem deixar que todos os funcionários estejam ao mesmo tempo no escritório. O período será de experimentação, inclusive quanto aos protocolos de segurança. “Não existe legislação específica, apenas recomendações de diversos órgãos oficiais”, diz Denise Moraes, diretora de projetos do AKMX, escritório de arquitetura corporativa. Mas já existem alguns consensos sobre quais estratégias as organizações terão que aplicar em cada momento da jornada de trabalho. A seguir, mapeamos as principais mudanças. Chegando ao trabalho quem usa transporte público deve seguir trabalhando de casa — assim como aqueles que são de grupos de risco. Pelo menos esse é o protocolo que empresas como a Unilever, que tem um plano de retomada gradual, estão preferindo adotar. Nos casos em que é imprescindível a presença no escritório ou na fábrica, a multinacional de bens de consumo está pagando táxi para garantir o deslocamento com menor risco — o benefício também é acessível a quem depende de ônibus, trem ou metrô para acessar o fretado da companhia. E a recepção aos funcionários é diferente: conta com medição de temperatura de todos. “Quem estiver febril será direcionado para o serviço de saúde”, diz Luciana Paganato, diretora de RH da Unilever. Além dessas medidas, especialistas aconselham que exista flexibilização dos horários de entrada, almoço e saída. “A ideia é evitar aqueles picos de recepção lotada, filas para entrar e sair, e elevadores cheios”, diz a arquiteta Denise. Na Roche Diagnóstica, divisão da farmacêutica suíça voltada para análises laboratoriais, tablets de leitura facial foram instalados e verificam tanto a temperatura dos empregados quanto se eles estão usando máscara. A empresa também decidiu fazer uma testagem em massa: os cerca de 2.000 empregados e terceiros terão a opção de se submeter a um teste para detectar a covid-19 em um sistema drive-thru. Os familiares também poderão fazer o teste a um preço acessível. “Isso é importante porque você consegue monitorar se as ações de prevenção estão funcionando ou não”, diz Henrique Vailati, diretor de RH da Roche Diagnóstica. “Acreditamos que a testagem seja primordial para entender como a pandemia está evoluindo.” Assim como na Unilever, na farmacêutica quem é do grupo de risco deve continuar em casa, e os que apresentam qualquer sintoma da covid-19 são orientados a não se deslocar até o trabalho. “As empresas precisam criar políticas que permitam às pessoas informar seus sintomas sem ser discriminadas nem prejudicadas”, diz Maura Salaroli, infectologista e gerente médica da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Sírio-Libanês. (Arte/VOCÊ S/A) Kit de boas-vindas Em vez de bloquinho ou caneca, há grandes chances de que seu próximo brinde corporativo seja um kit de higiene. Afinal, máscara e álcool em gel têm sido os grandes aliados para se defender da covid-19, e muitas empresas têm distribuído esses itens para os funcionários. Totens de álcool em gel e produtos de limpeza para higienizar mesas e computadores também ganham espaço. E, claro, a máscara passa a fazer parte do dress code. “O distanciamento social e a máscara são muito importantes para evitar o contágio”, diz Marcos Loreto, diretor médico técnico da Omint, que fornece planos de saúde para empresas. Uma dificuldade, no entanto, é garantir que todos usem o aparato o tempo todo e o troquem a cada duas horas. É comum que muitos vistam a máscara por algum tempo e depois a retirem ou fiquem com ela sem cobrir o nariz e a boca. As companhias terão que criar políticas de educação para explicar aos empregados a importância de usá-la continuamente. (Arte/VOCÊ S/A) Usou, limpou no caso de equipamentos compartilhados, como impressoras, bebedouros e mesas compartilhadas, é provável que cada um seja responsável por limpá-los antes e depois do uso — e fica a necessidade de higienizar bem as mãos depois da atividade. Essa medida também exigirá a presença mais frequente de equipes de limpeza, que deverão higienizar os espaços comuns mais vezes ao dia. “As pessoas terão que ter esse cuidado em superfícies altamente tocadas, como botões de elevadores, maçanetas e impressoras”, diz Marcos, da Omint. No caso das estações de trabalho, os profissionais também devem ser responsáveis por mantê-las sem sujeira. “A ideia é dar autonomia para o próprio usuário limpar sua mesa na frequência que achar mais recomendada”, diz a arquiteta Denise. Na estação de trabalho com pessoas dividindo o mesmo espaço, o desafio é manter a segurança nos ambientes fechados e, normalmente, sem muita circulação de ar dos escritórios. “No começo falavam em colocar divisórias de acrílico em todos os lugares, nos escritórios e até nas praias”, diz Enrico Benedetti, sócio da Arealis, escritório de arquitetura. Mas, ele aponta, isso teria impacto negativo, por tornar o ambiente menos agradável. Soluções como distanciar as mesas, aproveitando espaços como salas de reunião e de colaboração, têm ganhado a preferência. Além disso, quando possível, as janelas e portas devem ficar abertas, mesmo com ar-condicionado. “Ter o máximo de ventilação ajuda a evitar que partículas com o vírus se depositem por muito tempo”, explica a infectologista Maura. Por essas razões as empresas estão adotando sistemas de rodízio de trabalho para diminuir a ocupação do prédio. “A gente deve ter 30% das pessoas trabalhando no escritório, de maneira rotativa”, diz Henrique, da Roche. Na Unilever, a previsão é que, por enquanto, apenas 15% dos empregados voltem à sede da companhia — de forma voluntária e alternada. Para isso, a empresa desenvolveu um sistema que funciona como uma passagem de avião: o funcionário acessa um aplicativo e “compra” sua passagem para estar na empresa. “Ele responde a um questionário de saúde, diz se usa transporte público para chegar ou não e se apresenta algum risco”, diz Luciana. Na hora do “check-in”, o sistema aponta qual mesa deverá ser ocupada pelo profissional. E as estações de trabalho terão distância de 2 metros em relação à mesa da frente e de 1,67 metro em relação à mesa ao lado. Além de facilitar o controle do contágio, a medida serve para ir testando as novas possibilidades. “A ideia é treinar todo mundo nos protocolos de distanciamento e em relação aos fluxos de movimento”, diz Luciana. Exemplos são as escadarias e os corredores, que terão rotas determinadas para evitar aglomeração. (Arte/VOCÊ S/A) Almoço da firma na hora do almoço, esqueça aquelas mesas cheias de gente, conversando alto e dividindo sobremesas. Para evitar o contágio, as palavras de ordem agora são precaução e distância. “O refeitório é uma área de alto risco, porque você tira a máscara”, diz Marcos, da Omint. Por isso, as mesas devem ser espaçadas e ocupadas por pessoas longe umas das outras. Segundo Marcos, o ideal seria que cada um levasse os próprios talheres ou usasse descartáveis, para evitar o compartilhamento de materiais. “Deve-se evitar também o serviço de bufê”, diz. Afinal, os utensílios usados para se servir e a própria comida ficam expostos a todos. Outra medida envolve, mais uma vez, alternar os grupos. “Se for um número muito grande de pessoas para almoçar, o melhor é escalonar os horários”, diz Maura, do Sírio-Libanês. A famosa pausa para tomar um café e puxar conversa com os colegas também deve ser menos animada — pelo menos por enquanto. Na Unilever, por exemplo, que não tem refeitório, a quantidade de pessoas por vez nas copas será limitada. Um micro-ondas ficará disponível, mas deve ser higienizado antes e depois de cada uso. Até o uso dos banheiros mudará. Na Roche, a indicação será de ocupá-los com no máximo duas pessoas — mesmo os sanitários tendo capacidade para muito mais. Uma luz de led do lado de fora irá indicar a lotação. “Medidas assim são mais para educar quanto aos cuidados”, diz Henrique. Henrique Vailati, diretor de RH da Roche Diagnóstica: tablets na recepção verificarão a temperatura e se os empregados estão de máscara Henrique Vailati, diretor de RH da Roche Diagnóstica: tablets na recepção verificarão a temperatura e se os empregados estão de máscara (Leandro Fonseca/VOCÊ S/A) Viagens e eventos A Associação Médica do Texas, nos Estados Unidos, criou uma escala das atividades e locais com mais e menos risco de contágio pelo coronavírus. No topo estão viajar de avião e frequentar grandes eventos. Por isso, prepare-se para continuar fazendo reuniões virtuais, participando de celebrações online e conversando com colegas que trabalham em outras localidades pelo computador, em vez de embarcar numa aeronave. Embora esses encontros virtuais cortem os custos com viagens corporativas, as companhias precisam investir dinheiro para garantir que os funcionários tenham acesso a boas tecnologias de acesso remoto. “Se você trabalhar com ferramentas que não são eficientes, as pessoas vão querer voltar ao modelo anterior”, diz André, da KPMG. “Serão necessárias plataformas, sistemas e processos automatizados para não ter perda de produtividade.” Os treinamentos também devem seguir virtualmente, o que, na avaliação de Lucas Nogueira, diretor de recrutamento da Robert Half, consultoria de recrutamento em São Paulo, é um desafio para as empresas. “Uma coisa é treinar o profissional dentro do escritório e ter mais controle sobre o que ele faz. Outra são as ferramentas e mecanismos que existem para treinar alguém de forma remota, especialmente um profissional que acaba de entrar na empresa”, explica. Tudo isso mostra uma mudança de comportamento: a ideia de que talvez o contato físico não seja sempre necessário para fechar negócios. Práticas como visitas para prospecção de clientes e viagens de negócio estão sendo repensadas, mesmo para depois da pandemia. (Arte/VOCÊ S/A) O novo escritório essas transformações indicam que os escritórios deverão ser menores, com pessoas se revezando no uso. Esses ambientes serão vistos como pontos de encontro, e haverá tendência a pulverizar os locais de trabalho, deixando de existir apenas uma sede que abrigue muita gente. De acordo com Mariana Lima, sócia arquiteta da Arealis, clientes estão mapeando as cidades para oferecer espaços mais próximos às casas dos funcionários, o que possibilitaria a ida ao escritório com menor tempo de deslocamento. Isso é importante porque, para muitos profissionais, trabalhar de casa pode ser inviável e desgastante, seja por falta de espaço ou de estrutura, seja por questões familiares ou particulares e as companhias deve ficar atentas a esses fatores. Na tentativa de minimizar esses pontos, a Roche Diagnóstica deu alguns benefícios aos funcionários em home office, como uma verba de até 1.000 reais para que quem estivesse em casa pudesse comprar material de escritório, como monitor ou cadeira. “Queríamos fornecer boas ferramentas de trabalho para todos, mesmo em casa”, explica Henrique.

CARAS/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 28/08/2020 às 03h00

Covid-19: máscara e distanciamento são essenciais à prática esportiva Atividades individuais, ao ar livre ou em academia, são melhores do que aquelas em grupo, contraindicadas para o momento. De qualquer forma, existem orientações que devem ser seguidas para evitar o contágio e a disseminação do Sars-CoV-2, ou coronavírus, como limpeza de equipamentos, uso de máscara e agendamento de uso de espaços físicos para exercícios. Praticar atividade física com regularidade faz bem ao corpo, significa o menor desenvolvimento de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, demência e alguns tipos de câncer, segundo estudo realizado pela OMS, Organização Mundial da Saúde, e publicado no The Lancet Global Health. Contribui ainda para a saúde mental, minimizando o estresse, melhora a autoestima e a concentração, e equilibra a imunidade, esta última um fator importante para a prevenção de doenças infecciosas. Durante o período de isolamento, muitos tiveram de se adaptar e passaram a se exercitar em casa, enquanto outros se tomaram sedentários. No Brasil, na pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, em parceria com o Ministério do Esporte, de 2015, 24% das pessoas — 38,8 milhões — com 15 anos ou mais de idade praticavam esporte enquanto a atividade física ficou com 17,4% — 28,1 milhões. A caminhada foi a atividade preferida por 49,1% dessas pessoas que se exercitaram, seguida pela academia — 16,8% — e a musculação — 6,1%. No momento, existem dois cenários para praticar esportes/atividades individuais, mas é preciso cautela e precauções para evitar o contágio pelo Sars-CoV'2. Ao ar livre, sozinho, saindo de casa com máscara e abaixada quando for correr, mas manter distância de, pelo menos, 10 metros de outra pessoa. Um estudo publicado em conjunto pela Universidade Tecnológica de Eindhoven, da Holanda, e pela Universidade Católica de Leuven, da Bélgica, explica que é possível contrair coronavírus ao ar livre e com um distanciamento menor: pelo aerossol, quando as minúsculas partículas contaminadas são eliminadas pela tosse, espirro e fala. A academia é outro cenário favorável. Mas deve ser com dia e horário agendados, usando máscara, com distanciamento de 2 metros entre as pessoas e aparelhos totalmente esterilizados com álcool 70% ao término de cada atividade. Além disso, professor e personal também devem usar a máscara. Vale lembrar que a OMS não recomenda a prática de exercícios, ao ar livre ou em academia, em caso de febre, tosse e dificuldade em respirar. Em ambos cenários, há uma questão importante: a máscara, que deve ser usada em exercícios de baixa intensidade/carga, inclusive para quem precisa da fisioterapia em ambiente fechado, mas sem aglomeração. Já para os atletas de elite que realizam atividades com altas cargas/intensidade, não é indicado o uso de máscara, pois algumas funções do organismo são prejudicadas, com riscos graves para a saúde. Sobre os esportes em grupo, faço parte do time de especialistas que elaborou o guia médico de sugestões protetivas para retorno das atividades do futebol brasileiro, em parceria com a Comissão Nacional de Médicos da Confederação Brasileira de Futebol, CBF. Os processos são rigorosos, como os testes semanais para detectar o coronavírus; o jogador deve ir pronto para o treino; a alimentação é servida em pratos prontos, em vez do serviço de bufê; e a aferição de temperatura e preenchimento de questionário assim que o atleta chega à concentração são imprescindíveis. Neste momento, apenas os times profissionais que se enquadrarem nessas exigências podem treinar e jogar. * Nemi Sabeh Júnior é expert em medicina esportiva, ortopedia e médico da Sei. Bros. de Futebol Feminino há mais de dez anos. Atua no núcleo de especialidades do Hospital Sírio-libanês (SP).

ÉPOCA ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 28/08/2020 às 07h00

No dia 26 de fevereiro, o Brasil registrava seu primeiro caso oficial de Covid-19: um morador de São Paulo, de 61 anos, que havia visitado a Itália pouco antes. Ao longo destes seis meses, cientistas e médicos avançaram muito no conhecimento da doença. “Neste período, mudou praticamente tudo. Quem morreu em março provavelmente não morreria hoje, porque havia total desconhecimento da doença. Não que a gente conheça muito, mas temos mais noção”, afirmou o intensivista Antonino Eduardo Neto, gerente médico do Hospital Badim, no Rio de Janeiro. “No início tratávamos a Covid-19 como uma doença só, agora dividimos em fases, cada uma com medicamentos diferentes. Tudo foi descoberto neste período à medida que os estudos avançavam e batiam com aquilo que víamos na beira do leito.” Para entender melhor a evolução da compreensão da Covid-19 nestes seis meses, ÉPOCA colheu o depoimento de dois médicos infectologistas que, além de estarem na frente da batalha, tiveram a doença em momentos diferentes: um nos primeiros dias da pandemia, e o outro poucos dias atrás. Conheça suas histórias pessoais e os tratamentos. DAVID UIP 68 anos, infectologista, ex-coordenador do Centro de Contingência contra o Coronavírus do governo de São Paulo Meu diagnóstico foi no dia 23 de março. Eu me senti mal na noite anterior. Os sintomas foram muito característicos. Fui ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, fiz o exame RT-PCR e tomografia. Foi confirmado, e fiquei isolado. Oito dias depois fiz uma nova tomografia e deu pneumonia viral. Foram 14 dias de doença. O problema dessa doença é não saber se o jeito que você dorme será o jeito que você vai acordar. Eu já sabia que a fase de complicação estaria mais entre o sétimo e o décimo dia. Felizmente, não precisei ser internado, fiquei em casa. Fui tratado pelos médicos que trabalham comigo e deu certo. Mas foi angustiante. No final do ano, faço 45 anos de formado. Sei como funciona uma doença viral. Ela vai do assintomático ao pouco sintomático, que são 80%, ao caso que necessita hospital e aos 5% que vão para a UTI. E não deu para me excluir dos 5%. A cabeça foi longe. Não sou diferente de ninguém. Tive medo, você faz contas. Mas sou muito religioso, e isso me deu paz. Recebi milhares de mensagens de apoio. Isso renovou meu sentido de solidariedade. Mas também houve uma situação em que quebraram minha privacidade divulgando uma receita, com prescrição de cloroquina. Foi uma receita do dia 8 de março. Fiquei doente 15 dias depois. Fica claro que essa receita não era para mim. Era para a clínica. Mas o vazamento trouxe insegurança a meus pacientes, a despeito do sigilo que sempre respeitamos. Minha família foi ameaçada. Foi muito grave. Naquele momento eu coordenava o Centro de Contingência do estado. Quando as pessoas perguntavam do meu protocolo, não era para mim a pergunta. Era para o coordenador do Centro de Contingência. Se eu falasse, muitos tomariam o medicamento sem controle. E, se eu falasse que não, seria uma desesperança. Naquele momento, a cloroquina era uma esperança. Não falei para proteger a população. Minha área exige privacidade. Hoje ainda me cobram que previ o pico de casos em maio. Pergunto: é boa ou má notícia? Tudo que fizemos foi arrastar o pico e abaixar a curva. Isso possibilitou que todo o estado se preparasse. A estrutura de saúde não sucumbiu. Não dá para dizer que teríamos salvado mais vidas se soubéssemos mais na época. As pessoas me perguntam quais foram os erros. Não vejo erros, vejo aprendizados. Pandemia é isso. Tem novidade todos os dias. Nossa obrigação é nos atualizarmos. Mas nem a previsão mais sombria pensava nos 100 mil mortos. Não aprendi a conviver com a morte de pacientes. RALCYON TEIXEIRA 39 anos, infectologista, diretor da Divisão Médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas Eu tive uma forma leve da Covid-19 há duas semanas. Neste momento, a gente tem mais segurança para entender o que é forma leve, moderada ou grave da doença. Não precisei ir para o hospital, fazer exames ou tomar remédio. Se fosse em março ou abril, teria feito tomografia, exame de sangue para ver a gravidade. Tive dor de cabeça num dia, achei que era da tensão pela sobrecarga de trabalho e no dia seguinte acordei com coriza e dor no corpo. Como uma médica próxima do hospital estava positiva, por via das dúvidas e até pela proteção das outras pessoas, resolvi fazer o exame para provar que não era nada. Tinha só aquela sensação de que teria um resfriado, mas aí veio o positivo. Foi o segundo exame que fiz desde o começo da pandemia. Na primeira noite, eu fiquei preocupado. Ainda é algo que não conseguimos entender. Apesar de seis meses trabalhando nisso e vendo muito paciente, é uma caixinha de surpresas descobrir qual paciente vai evoluir com complicação. Geralmente, é a partir do quinto dia que começa a haver piora progressiva dos sintomas. Comecei a pensar um monte de coisas, até em deixar as senhas para parentes antes de ir para o hospital e ser entubado. É muito ruim essa angústia de estar contaminado, você não sabe para que lado vai a infecção e vemos uma quantidade grande de casos graves. A partir da segunda noite vi que, retrospectivamente, já estaria no quinto dia da infecção, não tinha febre e me sentia muito bem. Mas a tensão continuou mais um pouco porque pode haver piora do sétimo ao décimo dia. Mas era a forma leve mesmo. O Emílio Ribas é um hospital de retaguarda para casos de Covid-19 de São Paulo, Grande São Paulo e até do resto do estado. Seremos um dos últimos hospitais a serem desmobilizados do combate à doença. Os casos do pronto-socorro diminuíram bastante, especialmente neste último mês, mas as transferências continuam ocorrendo. As equipes já estiveram mais cansadas, agora têm uma segurança e expertise maior, mas ao mesmo tempo continuamos sem perspectiva de término, o que cansa também. Em meu caso pessoal, sinto agora um alívio muito grande. Com os meses fui ficando meio ansioso, todo dia acordava com uma dor nas costas e já pensava se aquele seria o dia D da Covid-19 porque nossa exposição diária é muito grande no hospital. Ter tido a doença e ter sido a forma leve me dá tranquilidade porque vemos muitos casos graves que caminham para a morte. Leia a reportagem completa, exclusiva para assinantes: Seis meses de Covid-19 no Brasil: um panorama por médicos da linha de frente.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 28/08/2020 às 03h00

Assembléia do PI paga deputado que tratar Covid19 fora do estado Recife.Em meio à crise fiscal que assola os estados brasileiros, deputados estaduais do Piauí ganharam o direito de ressarcimento por despesas hospitalares com Covid-19. Nos casos tratados fora do estado, os parlamentares são autorizados a receber diárias, hospedagem e passagens aéreas para até dois acompanhantes. Os benefícios constam em ato da mesa diretora da Assembléia Legislativa do Piauí publicado em 17 de junho. “Excepcionalmente, por conta da pandemia, fica assegurado o ressarcimento das despesas efetuadas no tratamento do parlamentar que venha a ser acometido pela doença”, diz trecho da norma. Para receber o que gastou, basta ao deputado comprovar os custos por meio de nota fiscal correspondente. Enquanto estiverem se tratando fora do Piauí, os políticos terão direito a diárias que podem chegar a R$ 6.000 por cada período de 30 dias de hospedagem. Também fica assegurada “a concessão de passagens aéreas destinadas a até dois acompanhantes do parlamentar, requeridas antecipadamente ao setor competente de administração da Casa”. A norma tem efeito retroativo: quem pagou despesas antes do dia 17 de junho pode solicitar o ressarcimento. Pelo menos um dos deputados da Assembléia Legislativa do Piauí buscou atendimento hospitalar em São Paulo após ser contaminado pelo novo e o coronavírus. No dia 12 de julho, Georgiano Neto (PSD) foi internado no hospital Sírio-Libanês. Cinco dias depois, ele precisou ir para a UTI. Ele já recebeu alta médica. Procurado pela Folha, o parlamentar, por meio de sua assessoria, afirmou que até o momento não solicitou o ressarcimento dos gastos. O presidente da Assembléia Legislativa do Piauí, deputado Themístodes Filho (MDB), disse que o ato foi reeditado e existe na assembléia há mais de 30 anos para casos de risco de morte ao parlamentar. A assessoria da Casa informou que a comissão que analisa os processos ainda não recebeu solicitações de ressarcimento. João Valadares Assembléia do PI paga deputado que tratar Covid fora do estado Recife Em meio à crise fiscal que assola os estados brasileiros, deputados estaduais do Piauí ganharam o direito de ressarcimento por despesas hospitalares com Covid-19. Nos casos tratados fora do estado, os parlamentares são autorizados a receber diárias, hospedagem e passagens aéreas para até dois acompanhantes. Os benefícios constam em ato da mesa diretora da Assembleia Legislativa do Piauí publicado em 17 de junho. “Excepcionalmente, por conta da pandemia, fica assegurado o ressarcimento das despesas efetuadas no tratamento do parlamentar que venha a ser acometido pela doença”, diz trecho da norma. Para receber o que gastou, basta ao deputado comprovar os custos por meio de nota fiscal correspondente. Enquanto estiverem se tratando fora do Piauí, os políticos terão direito a diárias que podem chegar a R$ 6.000 por cada período de 30 dias de hospedagem. Também fica assegurada “a concessão de passagens aéreas destinadas a até dois acompanhantes do parlamentar, requeridas antecipadamente ao setor competente de administração da Casa”. A norma tem efeito retroativo: quem pagou despesas antes do dia 17 de junho pode solicitar o ressarcimento. Pelo menos um dos deputados da Assembléia Legislativa do Piauí buscou atendimento hospitalar em São Paulo após ser contaminado pelo novo e o coronavírus. No dia 12 de julho, Georgiano Neto (PSD) foi internado no hospital Sírio-Libanês. Cinco dias depois, ele precisou ir para a UTI. Ele já recebeu alta médica. Procurado pela Folha, o parlamentar, por meio de sua assessoria, afirmou que até o momento não solicitou o ressarcimento dos gastos. O presidente da Assembléia Legislativa do Piauí, deputado Themístodes Filho (MDB), disse que o ato foi reeditado e existe na assembleia há mais de 30 anos para casos de risco de morte ao parlamentar. A assessoria da Casa informou que a comissão que analisa os processos ainda não recebeu solicitações de ressarcimento. João Valadares