Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus

FOLHA DE S.PAULO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 27/09/2020 às 23h15

Paulo Chapchap Diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês (São Paulo) O sistema de saúde público e universal no Brasil, o SUS, é a instituição mais importante do país para o combate à pandemia de Covid-19. Ele tem a capilaridade necessária para alcançar a maior parte dos brasileiros, tendo o programa de saúde da família e a atenção primária como portas de entrada para a assistência certa no momento certo. Os processos da vigilância em saúde dão celeridade à detecção dos agravos coletivos, possibilitando respostas rápidas para necessidades mais urgentes. Muito se discute sobre o SUS. Alguns consideram seus problemas de gestão tão graves que diminuem drasticamente os seus benefícios. Outros apontam as claras limitações do seu financiamento como a causa primordial de todas as suas insuficiências. Entretanto, não há o que disputar quanto às evidências do enorme benefício do conceito igualitário do modelo desenhado para o SUS, sua equidade, universalidade (acesso a um bem coletivo fundamental, independentemente do poder aquisitivo) e integralidade. A consagração do conceito, se ainda não estivesse evidente, ocorre agora com o extraordinário serviço prestado à sociedade brasileira no enfrentamento da pandemia. Agora é a hora de apoiar a governança do sistema público, de forma a diminuir os riscos de transmissão do vírus Sars-CoV-2 e garantir os cuidados para os pacientes que necessitam de acompanhamento médico-hospitalar. Agora é a hora de sermos todos a favor. Temos que fortalecer os fundamentos da assistência à saúde, e esses fundamentos já existem no SUS. No entanto, hoje estamos acompanhando um processo de enfraquecimento das instituições brasileiras nas principais instâncias democráticas do país, e isso só fomenta insegurança na base de assistência à saúde no Brasil. O SUS é um sistema gerido por uma comissão tripartite formada por representantes do Ministério da Saúde, do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) e Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems). O Ministério da Saúde precisa ter sua liderança fortalecida pela análise de dados e pela consequente transparência das decisões que orientam a formulação de suas políticas nacionais, transmitindo a segurança necessária para o enfrentamento da pandemia. Os estados estão sendo duramente criticados pelas suas iniciativas regionais, o que também gera questionamentos da população sobre a efetividade das suas ações. O sistema de provisão de recursos e de direcionamento da demanda, a regulação baseada em dados, deveria ser centralizada nas secretarias estaduais de Saúde. Os municípios precisam acionar suas redes de atenção primária e apontar claramente suas necessidades. Na prática, temos os três principais pilares da gestão do SUS sob ataque, e isso impede a ausculta mais qualificada das instituições que dão suporte ao sistema, como as universidades públicas, os institutos de pesquisa e a rede de hospitais universitários federais e estaduais. Isso enfraquece o coração da assistência à saúde do Brasil. Mas os ataques não se limitam ao desgaste circunstancial dos sistemas de saúde. Nosso arcabouço jurídico e institucional também acaba sendo enfraquecido. Numa tentativa de desvincular dentro do possível a política partidária da saúde, especialistas estão se posicionando a favor de normas públicas baseadas em evidências. Somos técnicos na arte da ciência, conhecedores de moléstias e especialistas em saúde do Brasil. Temos que unificar nossas vozes para desencadear um mecanismo de pressão que crie um movimento propositivo de combate à Covid-19. Instituições enfraquecidas só beneficiam os que almejam se locupletar. Vamos institucionalizar novamente o sistema público de saúde para que seja possível criar as políticas públicas que ofereçam a segurança necessária para que o país consiga sair o mais rápido possível da crise provocada pela Covid-19. Monopólio de informações, violência nos discursos e disputas ideológicas precisam dar espaço à transparência, agilidade e coordenação centralizada baseada em competências diversificadas e na prontidão e fluidez dos dados. Para que isso seja possível, precisamos ser os agentes desse movimento de transformação, favorecer o debate, e não o ataque. Precisamos apoiar as instituições que formam os pilares dos nossos sistemas de saúde e que são responsáveis pela governança da assistência médica no Brasil. O SUS salva vidas. Vale a pena salvar o SUS. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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Data Veiculação: 27/09/2020 às 03h00

Muito se falo em manter o calendário de vacinação das crianças em dia, mas adolescentes e adultos também precisam ficar atentos POR MANUELA FERRAZ*As vacinas são poderosas aliadas no combate a doenças e epidemias, e essenciais em todas as fases da vida. Da mesma forma que a imunização em crianças diminui as chances de elas desenvolverem patologias graves, em adolescentes, jovens e adultos continua essencial. Segundo Sheila Homsani, diretora médica da SanofiPasteur no Brasil, a vacinação desempenha um papel vital na construção de comunidades saudáveis e produtivas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS)mostram que de 2 a 3 milhões de mortes são evitadas anualmente no mundo com a imunização. "Nesse cenário de pandemia, as pessoas têm se esquecido que, além do novo coronavírus, há uma série de agentes infecciosos causadores de outras doenças graves preveníveis. É por meio da imunização que conseguimos controlar e até erradicar algumas dessas doenças. "Algumas vacinas fundamentais e comumente tomadas na infância, como a antitetânica, precisam ser refeitas periodicamente na adolescência, vida adulta idade mais avançada para que mantenham a proteção. Então, por que é comum encontrar carteiras de vacinação desatualizadas nesses públicos? Para Mirian Dal Ben, médica infectologista do Hospital Sírio-Libanês, as mães são supercuidadosas com os filhos e, como crianças pequenas vão frequentemente ao pediatra, não esquecem das vacinas. "Quando chega à vida adulta, ou até a adolescência, acabam descuidando. É frequente vermos jovens e adultos que não têm a carteirinha de vacinação porque perder amou, quando têm, as doses são restritas às da infância. "Apesar de o Programa Nacional de Imunização (PNI) brasileiro ser referência, recentes levantamentos mostram queda dos índices de vacinação no Brasil— ficando, em média, em 60% da cobertura —, o que pode trazer problemas de saúde coletiva. *Estagiária sob a supervisão de Sibele NegromonteTríplice viral■ Tem como objetivo proteger o organismo do sarampo, da caxumba e da rubéola. "Estamos vivendo um surto de sarampo e precisamos de cobertura alta para voltar a eliminar essa doença no país. A caxumba, não raramente, é motivo de surtos, e a rubéola é uma doença que, antes da vacinação, era causa de doença congênita, em que o bebê nasce com malformações graves", explica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Até os 12 anos deve-se considerara aplicação de vacina combinada quádrupla viral, que inclui,varicela/SCRV. Para indivíduos com caderneta de vacinação completa, não há evidências que justifiquem uma terceira dose. No entanto, podem ser consideradas situações e risco epidemiológico, como surtos de axumba e/ou sarampo. Contraindicada para gestantes, e o uso em imunodeprimidos deve ser avaliado pelo médico. A tríplice viral SCR está disponível nas UBSs para adolescentes e para algumas faixas etárias da vida adulta. VACINAS PARA ADOLESCENTES (11 a 19 anos) e adultos (20 a 59 anos)Influenza — gripe■ Pode manifestar quadros mais graves em adultos e idosos, mas a imunização é importante para todas as faixas etárias. Deve ser tomada anualmente, uma vez que o vírus da influenza sofre mutações frequentemente. Quando disponível, a vacina influenza 4Vé preferível à influenza 3V, por conferir maior cobertura. A vacina 3V é disponibilizada nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs)para maiores de 55 anos e grupos de risco de qualquer idade. Dupla adulto (dT) e Tríplice BacterianaAcelular do tipo adulto (dTpa ou dTpa-VIP)■ A dT protege da difteria e do tétano, enquanto a dTpa, também, da coqueluche. Mesmo para indivíduos com esquema de vacinação completo, é recomendada dose de reforço, preferencialmente da dTpa, a cada 10 anos. Para não vacinados ou com caderneta básica incompleto são indicadas doses de dTe dTpa. Deve-se considerar antecipar reforço da dT pacontendo o componente pertussis para adolescentes que têm contato com lactentes. A vacina indicada mesmo para quem teve coqueluche, já que a proteção conferida pela infecção não é permanente. Para indivíduos que pretendem viajar para países nos quais a poliomielite é endêmica, recomenda-se a vacina dTpa combinada apoio inativada (dTpa-VIP). Nas UBSs, é possível encontrar dT,disponível para todos, e dTpa,para gestante: puérperas até45 dias após parto. 16/17 — Correio Braziliense Brasília, domingo, 27 de setembro de 2020 para todosHPV■ Vírus comum, de ampla circulação entre população. Nos quadros graves, pode causar câncer de boca, de cólon do útero, pênis, vulva ou ânus. Se o esquema de vacinação não foi iniciado, aplicar a vacina o mais rápido possível. Dois tipos estão disponíveis no Brasil: HPV4, para meninas e mulheres de 9 a 45 anos e meninos e homens de 9 a 26 anos, eHPV2, a partir dos 9 anos, para ambos os sexos. Segundo a SBIm, sempre que possível, prefira HPV4 para ampliara proteção. Indivíduos mesmo que previamente expostos podem ser vacinados. Nas UBSs, está disponível a vacina HPV4para meninas de 9 a 14 anos meninos de11 a 14 anos. Febre amarelos. : todas as vacinas estão disponíveis na rede privada. Disponível nas UBSs. Meningocócicas conjugadas ACWY/C■ Existem diferentes tipos de meningite, que levam à inflamação das membranas que revestem cérebro e medula espinhal. Uma das manifestações mais graves éa meningite meningocócica, infecção bacteriana rara e perigosa. Sua principal forma de prevenção é pela vacinação. "Metade dos casos entre 2015 e 2019ocorreu em indivíduos maiores de 15anos. Doses de reforço no adolescente são essenciais" explica Sheila Homsani,diretora médica da Sanofi Pasteurno Brasil — que, recentemente,lançou a campanha Antes depegar, melhor vacinar, sobre a importância da vacinação de adolescentes para a prevençãoda meningite. Vacinados na infânciadevem tomar o reforço aos 11 anosou cinco anos após a última dose. Adolescentes não vacinados: recomendação de duas doses com intervalo de cinco anos. Paraadultos, a indicação, assim como anecessidade de reforços, dependeráda situação epidemiológica. MenACWY está disponível nas UBSs para vacinação de adolescentes de11 e 12 anos. Hepatites A, B ou A e B■ Em grande parte dos casos silenciosa, a infecção atingo fígado, causando alterações leves, moderadas ou graves. Indivíduos não imunizados anteriormente para as hepatitesA e B devem fazê-lo o mais rápido possível. A vacinacombinada para as hepatites A e B é uma opção epode substituir a vacinação isolada. Nas UBSs, está disponível apenas a vacina para hepatite B. ■ Doença infecciosa febril aguda, causada por umvírus transmitido por mosquitos vetores, possui dois ciclos de transmissão: silvestre e urbano. "Hoje,sabemos que a pessoa tem de ter pelo menosma dose da vacina. O risco está presenteno Brasil inteiro e em todas as faixasetárias", afirma a infectologista MirianDal Ben. De acordo com o risco epidemiológico, uma segundadose pode ser considerada, emespecial para aqueles vacinados antes dos 2 anos. Contraindicada para quem está ornamentando bebês menores de 6 meses. O uso em imunodeprimidos gestantes deve seravaliado pelo médico. Palavra doespecialistaMuito se fala sobre aimportância da imunização debebês e crianças. É importante que adolescentes, jovens eadultos se vacinem?A vacinação não deve se limitaràs crianças, mas é normal que aspessoas entendam dessa forma,porque foi assim que começou,sempre foi essa a prioridade. Noentanto, hoje, temos várias vacinas disponíveis no SUS, recomendadas ela SBIm para adolescentes,jovens, adultos e idosos. Especialmente jovens e adolescentes aindatêm um índice alto de doenças infecciosas e, geralmente, durante ossurtos, são os que mais transmiteme adoecem. A vacinação é menos frequente entre essespúblicos?Certamente a prática da vacinação da criança é mais conhecida etem uma adesão maior que entreadolescentes e adultos. Por exemplo, em relação a vacina Meningocócica C conjugada, que está disponível na rede pública, a coberturavacinai em adolescentes fica entre30% e 40%, por falta de informação. A maioria das famílias brasileiras não sabe que existe um calendário específico. Por que vacinas são oferecidasem intervalos de idades?Cada vacina têm um público-alvo. Apesar de a maioria das doenças infecciosas poder acontecer em___q. ua. l. q. ue_r. idade, em termos de saúde,pública, existe uma priorização daqueles grupos que mais adoecem,ou daqueles que, além de adoecer,são importantes transmissores. Alémdisso, crianças, normalmente, precisam de esquemas com mais dosespara uma mesma doença, por teremum sistema imune imaturo. Isabella Ballalai é vice-presidenteda Sociedade Brasileira deImunizações (SBIm)