Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

BLOGS DO ESTADÃO
Data Veiculação: 25/02/2021 às 11h30

Carlos Alberto de Nóbrega e sua esposa, Renata Foto: Instagram / @calbertonobrega O humorista Carlos Alberto de Nóbrega, 84, foi internado no sábado, 20, após testar positivo para covid-19. Sua mulher, a médica Renata Domingues de Nóbrega, 42, já estava no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, desde quinta-feira, 18. O casal já havia tomado a primeira dose da vacina Coronavac e passa bem. Leia também: Carlos Alberto de Nóbrega posta homenagem à esposa em aniversário Carlos Alberto de Nóbrega grava primeira participação de ‘A Praça É Nossa’ com Alexandre Porpetone 'A Praça é Nossa' terá Carlos Alberto de Nóbrega direto de casa Renato Aragão diz que gostaria de participar de 'A Praça É Nossa' Na terça-feira, 22, o apresentador do programa A Praça é Nossa, do SBT, postou em seu Instagram contando que está em tratamento e se sente bem. “Meus queridos e fiéis amigos: estou ótimo. Já comecei o tratamento, estou sem dor, mal-estar, nada. Pude até ir no quarto da Renata, que está́ bem melhor, sem ter mais dores”, escreveu Carlos Alberto, acrescentando que o filho caçula do casal, João Victor, 20, está em isolamento e assintomático. Em setembro, o humorista já havia recomeçado a filmar novos quadros para o programa em sua casa e disse que espera estar curado e de volta às gravações em março. “Deus vai me permitir estar gravando a praça dia 24/3. Com novidades e novos personagens. O SBT aprovou todos meus pedidos e sugestões feitos na semana passada. Eu sentado no novo banco, os comediantes consagrados e os novos convidados”. O apresentador concluiu agradecendo o carinho dos fãs. “Muito obrigado pelas mensagens (centenas) que tem chegado”. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Carlos Alberto De Nobrega (@calbertonobrega) Sem previsão de alta Nesta quarta-feira, 24, Carlos Alberto de Nóbrega conversou com a Revista Quem e disse que está bem, mas ficará no hospital por tempo indefinido. “Ainda não temos previsão de alta. Mas estamos muito bem, graças a Deus”, contou. “Estou tomando um batalhão de remédio. Tive febre e dor de garganta, mas estou com uma tranquilidade impressionante. Tenho certeza de que vai ser uma coisa bem simples. Estou muito mais tranquilo do que se estivesse em casa”, esclareceu Carlos Alberto. “Acho que a Renata sai antes de mim. Mas ainda não sei quando vou ter alta”.

O GLOBO ONLINE/RIO DE JANEIRO
Data Veiculação: 25/02/2021 às 04h30

RIO — A dimensão simbólica da tragédia da Covid-19, cujo primeiro diagnóstico no Brasil completa hoje um ano, com 250 mil vidas perdidas, também se revela nos momentos mais íntimos dos que enfrentaram despedidas de pessoas queridas. Por meio de áudios, vídeos e mensagens de texto compartilhados com O GLOBO, famílias revelaram desejos de esperança, desabafos desesperados no adeus que precedeu a intubação ou a celebração do que caracterizam como renascimentos graças ao avanço da ciência. Memoriais de despedidas, como definiu Denise Cruz, viúva do cirurgião Ricardo, que morreu no dia 8 de dezembro. Ela guarda como joias a troca de mensagens dos dois, que inclui momentos doídos e respostas difíceis, mas repletas de carinho, a questões inevitáveis. Um ano depois: Recuperado e sem sequelas, primeiro paciente com Covid-19 no Brasil quer seguir anônimo A médica Roberta Carvalho, por sua vez, teve pouco tempo para avisar aos mais próximos que, em suas palavras, “iria para o tubo”. A um amigo, foi direta: pediu para ele, em momento tão incerto, dar apoio à mãe e à irmã. Quando voltou a si e foi checar o celular, a primeira mensagem era um convite para ela trabalhar em uma UTI Covid de um dos principais hospitais do Rio. Justamente aquela em que estava internada. Nem sempre as despedidas foram anunciadas. Quando o pesquisador Matheus Pereira trocou com o pai, Sergio, uma mensagem amorosa celebrando estar na casa de praia que o patriarca da família sempre sonhou em erguer, ele não sabia que aquela seria a derradeira conversa dos dois. Sergio preferiu não revelar que seria intubado. Horas depois, morreu. Pasternak e Dalcolmo: ‘O Brasil mostrou a receita do que não fazer’, dizem especialistas Eliomar Nóbrega chegou a ouvir dos médicos que não sobreviveria, mas ganhou do hospital a possibilidade de se comunicar com a mãe, Jussara: lhe emprestaram um celular. Trocaram mensagens de carinho e pedidos de benção. Ele teve alta no meio de fevereiro, em uma terça-feira de quieto carnaval. Todos contam que as mensagens de despedida estarão para sempre ligadas a momentos de escuridão e angústia. Mas também se revelaram relíquias digitais, parte central do ritual do luto. 'Prepara tudo que a médica me disse que vou receber alta. Espero te dar um abraço bem forte' Jussara de Farias Nóbrega, de 39 anos, acompanhou pelo celular as notícias do filho com Covid-19 Desde que o filho, Eliomar de Farias Nóbrega, 22 anos, morador do Parque União, no Complexo da Maré, começou a passar mal, no dia 27 de janeiro, foi pelo celular que Jussara de Farias Nóbrega, de 39 anos, recebeu as notícias mais importantes de sua vida. Eliomar avisou à mãe quando fez o teste de Covid na clínica da Família, mas não deu tempo de esperar o resultado. Em menos de dois dias, estava internado em um hospital perto de sua casa, para logo em seguida ser transferido para o Hospital de Anchieta, no Caju. O resultado da tomografia não era bom: 75% do pulmão estava tomado pelo aspecto de “vidro fosco”. Era também pelo celular que a mãe recebia do hospital boletins diários do filho. Obeso, com cerca de 120 quilos, ele ficou no respirador. — Um dia, estava no supermercado, e recebi um áudio dele, a voz fraca, falando “A benção, mãe”. Me emocionei muito. Ao fundo, o som dos apitos da UTI — conta Jussara, empregada doméstica. O serviço de psicologia do hospital ofereceu a Eliomar, considerado paciente grave, um celular para falar com a família. Os dois áudios mais marcantes foram o que indicou, pelo tom e conteúdo, a gravidade do estado do filho e o que, menos de dez dias depois, trouxe a notícia da alta, anunciada com a voz potente e saudável da juventude. Eliomar teve festa de aniversário em videoconferência, recebeu mensagem de amigos, conversou com a mãe. — Estou com saudade de tudo, mãe — dizia ele, em seu primeiro áudio. No segundo, pedia a benção: —Prepara tudo direitinho que a médica me disse que vou receber alta. Espero te dar um abraço bem forte. No último dia 16, Eliomar deixou o hospital. Está quarentenado em casa, sozinho. E o abraço prometido tem data marcada: — Vai ser domingo. Sonhando com isso — diz Jussara. 'Piorei muito. O pulmão não responde. Prepare-se para o pior, ok?' No dia que avisou sobre a intubação, Ricardo orientou a esposa sobre o que fazer com o consultório e com as fichas dos 60 mil pacientes; ele morreu em 8 de dezembro O amor entre Denise e Ricardo parece vivo em cada detalhe do espaçoso apartamento no Flamengo, Zona Sul do Rio. Mas há um lugar em que está guardado o memorial de uma vida feliz a dois, que resultou em filhos gêmeos de 18 anos: nas mensagens trocadas pelo celular. Referência em cirurgia crânio maxilo-facial, diretor científico do Hospital Samaritano e também professor, Ricardo Cruz não optou por áudios, pois já não tinha fôlego. Mas escreveu à mulher sobre cada um dos dias em que se manteve internado, vitimado pela Covid: — Vai ser um dia atrás do outro. Se houver piora, vou te dar umas orientações por aqui — escreveu ele, no seu pragmatismo de médico. Relatava preocupação com a baixa saturação e “um quadro de evolução imprevisível”. Denise devolvia com o otimismo, dizia que tudo ia ficar bem e perguntava detalhes: “Não sou médica, mas convivo com médicos há mais de vinte anos, queria números, resultados de exames”. Ele a poupou. — Não quero entrar em detalhes, querida. No início do diálogo, ele ainda estava no quarto. Mas o quadro foi piorando, e ele avisou quando foi para a UTI semi-intensiva. Trocaram fotos do que comiam no jantar. No décimo dia dos primeiros sintomas, ele alertou a mulher que ainda havia “um longo caminho a percorrer”. Ela mantinha a confiança, mandava músicas para ele. Até o dia em que ele avisou a ela da intubação. Orientou com detalhes o que ela precisaria fazer com o consultório, com as fichas dos 60 mil pacientes. Deixou uma mensagem privada para ela e para os filhos. — Prepare-se para o pior — disse ele. — Não pense assim! Mas não deixe de entregar sua vida nas mãos de Jesus — ela se despediu, com muitos “amo você” entre as mensagens. Ricardo morreu em 8 de dezembro. — Perco qualquer objeto. Menos meu celular, o memorial de como fomos felizes. 'Pedi para ser intubada logo, porque estava muito cansada e não queria chegar a uma situação crítica' Médica Roberta, de 33 anos, perguntou se estava viva a um colega de trabalho após acordar da intubação Após passar pouco mais de uma semana intubada e, depois, conectada a um ECMO (máquina de oxigenação por membrana extracorpórea), a médica Roberta Carvalho acordou, olhou para o lado e viu o colega Raphael Mandarino, que foi seu professor na faculdade. Perguntou se estava viva. Ela mesma tinha indicado à equipe médica que deveria ser intubada, em 24 de abril do ano passado. Antes do procedimento, enviou uma mensagem ao amigo e também colega Thiago Barcellos, avisando que estava “indo pro tubo” e pedindo a ele que rezasse e cuidasse de sua mãe e irmã. Aos 33 anos, Roberta Carvalho, que até ser diagnosticada estava dormindo no carro para não expor seus familiares ao vírus, esteve entre a vida e a morte. Nas palavras da chefe de enfermagem Theia Forny, mais perto da morte do que da vida. — Pedi para ser intubada logo, porque estava muito cansada e não queria chegar a uma situação crítica. Mandei essa mensagem a um amigo pois não queria chocar minha família. Minha mãe e irmã estavam desesperadas — afirma Roberta. Ela foi intubada por André Soluri, que, cerca de um mês e meio depois, ficou petrificado ao ver trabalhando ao seu lado a mesma médica que tinha ajudado a superar a doença. Eles faziam juntos um procedimento quando André percebeu que a médica que o auxiliava tinha no pescoço a cicatriz deixada pelo ECMO. Perguntou se era a mesma que tinha estado internada naquele CTI. A resposta foi ainda mais surpreendente. Enquanto estava intubada, Roberta recebeu uma mensagem do chefe do CTI do Hospital Américas, na Barra, que, sem saber de sua condição, a convidava para trabalhar em sua equipe. Foi a primeira mensagem que respondeu quando acordou. Desde meados de 2020, a médica é parte da equipe que salvou sua vida. 'Valeu meu filho querido. Estou seguindo à risca. Fazendo tudo certinho' Sergio, de 61 anos, preferiu não contar para a esposa e o filho Matheus que seria intubado; ele morreu em 28 de dezembro, após passar o Natal no hospital Ele estava prestes a ser intubado, mas decidiu não avisar à família para não preocupar sua mulher e seu único filho, com quem trocou uma última mensagem antes de falecer. Foi o adeus, mas, naquele momento, o pesquisador e doutorando em Comunicação Matheus Pereira não sabia que estava se despedindo de seu pai, Sergio. O filho contou que tinha acabado de chegar à casa que o pai conseguira construir com enorme esforço em Itaipuaçu, Maricá, há menos de dois anos. Pediu que o pai ficasse tranquilo e pensasse que tudo era para o seu bem. Em suas palavras finais ao filho, o pai reclamou da comida do hospital, mas assegurou que estava fazendo tudo certinho: “Se é para o meu bem, faço qualquer sacrifício”. Sergio tinha 61 anos, trabalhava em manutenção industrial e pretendia se aposentar em 2021. Morreu em 28 de dezembro do ano passado, depois de passar o Natal no hospital, acompanhando o jantar da família por mensagens de WhatsApp. No dia em que morreu, conta Matheus, ambos trocaram várias mensagens. — Ele nos dizia que estava tudo bem, cuidou da gente até o final. Disse a um primo meu que talvez fosse intubado, mas para nós não disse nada — lembra Matheus. Hoje, tudo na casa de Itaipuaçu lembra o pai. O lugar é um sonho feito realidade para a família, sobretudo para Sergio. Matheus gosta de pensar que ele ficou feliz quando leu, na última troca de mensagens, que ele e sua companheira estavam na casa. — Essa doença é muito solitária, as mensagens foram fundamentais para saber como nossos familiares estavam. Sabíamos as coisas primeiro por ele e depois pelos médicos. Foi fundamental para estar perto num momento tão difícil — diz Matheus. 'Não é uma despedida. Mas sabemos o quanto tudo é imprevisível' Em último áudio antes de ser intubado, Jorge Carlos de Assis, de 71 anos, disse estar bem e que amava a filha, Alessandra Teixeira; ela aguarda a recuperação do pai Alessandra Teixeira, de 47 anos, guarda o último áudio do pai, Jorge Carlos de Assis, de 71 anos, antes da intubação, na quarta-feira de cinzas de um carnaval que este ano não existiu. — Bom dia, filha. Graças a Deus estou bem. Tomei agora um lanchinho, um desjejum. À noite foram só exames. Já fiz a tomografia e é aguardar o médico para ver. Fiz aquele exame de nariz. Tá tudo bem. Obrigada, beijo te amo. A situação do pai, no entanto, se agravou. Internado na segunda-feira de carnaval, dois dias depois, Alessandra foi chamada pelo hospital com o irmão para participar de uma chamada coletiva com o pai. Ele se recusava a ser intubado, porque perdera a mulher e o irmão no final de novembro, depois de ambos terem sido intubados. O propósito era convencê-lo de que, sem o recurso médico, ele morreria em 48 horas. Conversaram a família e a médica, no hospital Quinta D'Or. Enquanto a chefe da UTI do Hospital Quinta D'Or, Juliana Gurgel, explicava os riscos da decisão do pai, Alessandra ouvia ao fundo a voz de Jorge: “Não adianta, não vou ser intubado”. Esta é uma decisão que o paciente, se consciente, tem que aceitar. Por quarenta minutos a família ficou sozinha na conversa virtual, e convenceram Jorge a aceitar o tratamento. Como argumento, Alessandra falou com o pai, em ligação virtual, que, para os filhos, seria como assinar uma sentença de morte para ele, caso não o convencessem a ser intubado. — É tudo muito rápido. O quadro se agravou. Hoje está igual a ontem, com a diferença de que não podemos mais falar com ele — diz Alessandra, vivendo a angústia de milhões de brasileiros que enfrentaram, cada uma à sua maneira, a solidão de não poder mais segurar a mão ou acompanhar a dor de quem ama. — Saí de lá com isso na minha cabeça: não é uma despedida. Mas sabemos o quanto tudo é imprevisível. 'Dói saber que nada mudou. As pessoas seguem morrendo da mesma doença que levou meu pai' Vinícius viu o pai pela última vez na comemoração de 60 anos do progenitor, em festa virtual, dentro do hospital; o pai morreu em abril, em Belém (PA) Foi no dia do aniversário de 60 anos do pai, Vinícius Riebisch Figueiredo, que o filho, homônimo, viu o pai pela última vez. Era uma festa virtual. Com direito a adereços dos médicos, presença de outros familiares e sorriso do aniversariante. Empresário, Riebisch gravara, no dia 18 de março, pouco tempo antes de adoecer com a Covid-19, vídeos para familiares e amigos defendendo o isolamento. Era o começo da pandemia. A família é de Belém, e no Pará nunca chegou a haver de fato regras explícitas sobre o funcionamento do comércio. Até mesmo a orientação sobre o uso de máscaras era difusa no estado. De longe, Vinícius, o filho arquiteto que mora em São Paulo, nunca imaginaria que seria a última vez que ouviria a voz do pai. Ou o veria. No dia de seu aniversário, Vinícius, o pai, fora intubado. — Na chamada de vídeo ele estava totalmente consciente. Não deixou de ser uma despedida. Foi uma grande montanha-russa. Ele chegou a 80% do pulmão comprometido. Enquanto ainda estava sedado, ele ligava para ouvir a voz da gente, minha, da minha mãe. Se a imagem dele servir para abrir os olho das pessoas de que a pandemia continua grave, será um legado importante deixado por ele — disse Vinicius, que ontem teve notícia de um primo e um tio (pai e filho) internados pelo Covid. Vinícius fez questão de acompanhar o funeral do pai em uma live, gravada por um dos primos em Belém. Achou arriscado pegar um voo no 29 de abril do ano passado, quando havia um pico de casos no estado. A situação segue grave. — Ter tido a chance de assistir de comemorar o último aniversário e mesmo de assistir o funeral do meu pai por vias digitais ajuda a processar o luto. Mas o que dói é saber que nada mudou. As pessoas seguem morrendo da mesma doença que o levou, e grande parte da população parece ter esquecido da pandemia. É como reviver a dor todos os dias. 'Nasci de novo, só tenho a agradecer a Deus. Sei que muitos nunca voltaram' Por mensagem, Fabiana pediu à mãe e irmã que cuidassem de sua filha antes de ser intubada; ela continua internada e segue em processo de recuperação A professora Fabiana Oliveira estava muito assustada e, quando o médico lhe perguntou se gostaria de enviar uma mensagem para a família, não duvidou. Mesmo muito enfraquecida, pediu a sua mãe e irmã que cuidassem de sua filha, Gabrielle, de nove anos. Foram várias dias de intubação. Fabiana disse ter atravessado o maior medo de sua vida: — Eu nasci de novo, só tenho a agradecer a Deus. Sei que muitos nunca voltaram. Ainda mobilizada por emoções e incertezas (Fabiana continua internada e tem um longo processo de recuperação pela frente), a professora se diz otimista e pronta para dar um passinho de cada vez, como os médicos lhe indicaram. Fabiana, que mora na comunidade São Remo, em São Paulo, ainda não consegue caminhar, mas logo começará os tratamentos de reabilitação. Quando lembra dos momentos prévios à intubação, fica emocionada. — Não estava conseguindo entrar em contato com minha família, esse médico foi maravilhoso, ele enviou a mensagem para mim — contou. Para ela, que ensina adultos a ler e escrever, a vida é um aprendizado. Neste caso, um renascimento. Quando estiver melhor, pretende retomar a faculdade de Pedagogia e as aulas na ONG de sua comunidade. Quando a vacina chegar até sua mãe, que mora na Bahia, o sonho é reencontrá-la e matar as saudades. O áudio que poderia ter sido uma despedida foi enviado ao celular da mãe, que agora continua acompanhando a recuperação da filha através de mensagens. 'Durante a intubação fiquei muito grave, quase morri. Quando me contaram fiquei chocado, nunca imaginei isso' Enquanto esteve intubado, o cardiologista Carlos Rassi recebia mensagens de sua irmã, a ginecologista Thalita Rassi, que explicava como seu quadro evoluía durante todo o período em que esteve intubado, em estado crítico, o cardiologista Carlos Rassi, de 38 anos, recebeu mensagens de sua irmã, a ginecologista Thalita Rassi. Nos textos, ela lhe explicava como seu quadro evoluía. Foram dias de extrema angústia para a família. A mulher de Carlos, a também médica Fabrícia, fazia ligações de vídeo para ter notícias. O casal tem duas filhas, de 6 e 4 anos. — Quando minha situação estava no limite, falei com minha mulher por vídeo. Mesmo intubado, baixaram minha sedação e ela me viu por vídeo também, consegui fazer alguns gestos — disse Carlos, Quando conseguiu ser extubado e digitar, respondeu às diversas mensagens de sua irmã, agradecendo por tudo o que ela e todos estavam fazendo para acompanhá-lo. Era o final de março de 2020, a pandemia estava alcançando picos em todo o Brasil, e Carlos, como todos os médicos, encarava a doença com profundo desconhecimento. — Todos os dias atendo pacientes com Covid, é uma doença que faz homens jovens ficarem muito grave. No momento da intubação não achei que fosse morrer, mas é lógico que tive medo — contou. Ele, de fato, esteve à beira da morte. Agradece à toda a equipe do Sírio Libanês de Brasília, onde trabalha, pela atenção que recebeu. Alguns dos que cuidaram de seu caso foram a cardiologista Ludhmila Hajjar e o Matheus Mourão, intensivista e cardiologista. — Durante a intubação fiquei muito grave, quase morri. Quando me contaram fiquei chocado, nunca imaginei isso — assegura Carlos. Foram oito dias em coma, até acordar e ver a enxurrada de mensagens em seu celular. Quando teve forças novamente, começou a responder, acarinhado por tantas demonstrações de afeto. 'A pressão dele ainda não está estabilizada, a parte emocional fica muito afetada. Ele está bem, mas não é fácil' Tânia, esposa de Jorge, gravou um longo aúdio para o marido quando eles completaram 30 anos de casados; não se sabe se o paciente ouviu, mas médicos relatam que quanto reproduziram o áudio ele virou a cabeça pro lado onde estava o celular Eles começaram a namorar quando ela tinha 11 anos e ele, 13. Quando completaram 30 anos de casados, em maio de 2020, Tânia, por recomendação dos psicólogos do hospital, enviou um longo áudio a Jorge, que estava entubado, dizendo o quanto sentia sua falta. Eles não sabem se ele ouviu, mas os médicos comentaram que no momento em que reproduziram o áudio ele virou a cabeça pro lado onde estava o celular. São três décadas de parceria e três filhos que cuidaram de Tânia durante mais de um mês de internação de seu marido. Aos 54 anos, Jorge Elias Nascimento da Costa, um gerente de supermercado que foi afastado do trabalho por pertencer ao grupo de risco da pandemia, viveu momentos de profunda tensão e pavor. Acostumado a estar sempre grudado na mulher, Jorge sobreviveu à Covid-19 e, dez meses depois, ainda lida com suas sequelas. — A pressão dele ainda não está estabilizada, a parte emocional fica muito afetada. As pernas inchadas, enfim, ele está bem, mas não é fácil — comentou Tânia. O casal mora em Anchieta, zona norte do Rio. Durante a internação de Jorge, um dos filhos acolheu Tânia. — Quando se aproximavam os 30 anos (de casamento), senti a necessidade de falar com ele, dizer que nossos filhos estavam cuidando bem de mim. Os psicólogos sugeriram e foi muito bom mandar o áudio — disse Tânia, ainda comovida pela experiência que viveram. Eles costumam comemorar todos os aniversários de casamento, e os 30 anos serão, definitivamente, inesquecíveis. Jorge não lembra nada sobre o áudio, mas Tânia tem certeza que ele ouviu. E ficou muito feliz.

O GLOBO ONLINE/RIO DE JANEIRO
Data Veiculação: 25/02/2021 às 04h30

RIO — A dimensão simbólica da tragédia da Covid-19, cujo primeiro diagnóstico no Brasil completa hoje um ano, com 250 mil vidas perdidas, também se revela nos momentos mais íntimos dos que enfrentaram despedidas de pessoas queridas. Por meio de áudios, vídeos e mensagens de texto compartilhados com O GLOBO, famílias revelaram desejos de esperança, desabafos desesperados no adeus que precedeu a intubação ou a celebração do que caracterizam como renascimentos graças ao avanço da ciência. Memoriais de despedidas, como definiu Denise Cruz, viúva do cirurgião Ricardo, que morreu no dia 8 de dezembro. Ela guarda como joias a troca de mensagens dos dois, que inclui momentos doídos e respostas difíceis, mas repletas de carinho, a questões inevitáveis. Um ano depois: Recuperado e sem sequelas, primeiro paciente com Covid-19 no Brasil quer seguir anônimo A médica Roberta Carvalho, por sua vez, teve pouco tempo para avisar aos mais próximos que, em suas palavras, “iria para o tubo”. A um amigo, foi direta: pediu para ele, em momento tão incerto, dar apoio à mãe e à irmã. Quando voltou a si e foi checar o celular, a primeira mensagem era um convite para ela trabalhar em uma UTI Covid de um dos principais hospitais do Rio. Justamente aquela em que estava internada. Nem sempre as despedidas foram anunciadas. Quando o pesquisador Matheus Pereira trocou com o pai, Sergio, uma mensagem amorosa celebrando estar na casa de praia que o patriarca da família sempre sonhou em erguer, ele não sabia que aquela seria a derradeira conversa dos dois. Sergio preferiu não revelar que seria intubado. Horas depois, morreu. Pasternak e Dalcolmo: ‘O Brasil mostrou a receita do que não fazer’, dizem especialistas Eliomar Nóbrega chegou a ouvir dos médicos que não sobreviveria, mas ganhou do hospital a possibilidade de se comunicar com a mãe, Jussara: lhe emprestaram um celular. Trocaram mensagens de carinho e pedidos de benção. Ele teve alta no meio de fevereiro, em uma terça-feira de quieto carnaval. Todos contam que as mensagens de despedida estarão para sempre ligadas a momentos de escuridão e angústia. Mas também se revelaram relíquias digitais, parte central do ritual do luto. 'Prepara tudo que a médica me disse que vou receber alta. Espero te dar um abraço bem forte' Jussara de Farias Nóbrega, de 39 anos, acompanhou pelo celular as notícias do filho com Covid-19 Desde que o filho, Eliomar de Farias Nóbrega, 22 anos, morador do Parque União, no Complexo da Maré, começou a passar mal, no dia 27 de janeiro, foi pelo celular que Jussara de Farias Nóbrega, de 39 anos, recebeu as notícias mais importantes de sua vida. Eliomar avisou à mãe quando fez o teste de Covid na clínica da Família, mas não deu tempo de esperar o resultado. Em menos de dois dias, estava internado em um hospital perto de sua casa, para logo em seguida ser transferido para o Hospital de Anchieta, no Caju. O resultado da tomografia não era bom: 75% do pulmão estava tomado pelo aspecto de “vidro fosco”. Era também pelo celular que a mãe recebia do hospital boletins diários do filho. Obeso, com cerca de 120 quilos, ele ficou no respirador. — Um dia, estava no supermercado, e recebi um áudio dele, a voz fraca, falando “A benção, mãe”. Me emocionei muito. Ao fundo, o som dos apitos da UTI — conta Jussara, empregada doméstica. O serviço de psicologia do hospital ofereceu a Eliomar, considerado paciente grave, um celular para falar com a família. Os dois áudios mais marcantes foram o que indicou, pelo tom e conteúdo, a gravidade do estado do filho e o que, menos de dez dias depois, trouxe a notícia da alta, anunciada com a voz potente e saudável da juventude. Eliomar teve festa de aniversário em videoconferência, recebeu mensagem de amigos, conversou com a mãe. — Estou com saudade de tudo, mãe — dizia ele, em seu primeiro áudio. No segundo, pedia a benção: —Prepara tudo direitinho que a médica me disse que vou receber alta. Espero te dar um abraço bem forte. No último dia 16, Eliomar deixou o hospital. Está quarentenado em casa, sozinho. E o abraço prometido tem data marcada: — Vai ser domingo. Sonhando com isso — diz Jussara. 'Piorei muito. O pulmão não responde. Prepare-se para o pior, ok?' No dia que avisou sobre a intubação, Ricardo orientou a esposa sobre o que fazer com o consultório e com as fichas dos 60 mil pacientes; ele morreu em 8 de dezembro O amor entre Denise e Ricardo parece vivo em cada detalhe do espaçoso apartamento no Flamengo, Zona Sul do Rio. Mas há um lugar em que está guardado o memorial de uma vida feliz a dois, que resultou em filhos gêmeos de 18 anos: nas mensagens trocadas pelo celular. Referência em cirurgia crânio maxilo-facial, diretor científico do Hospital Samaritano e também professor, Ricardo Cruz não optou por áudios, pois já não tinha fôlego. Mas escreveu à mulher sobre cada um dos dias em que se manteve internado, vitimado pela Covid: — Vai ser um dia atrás do outro. Se houver piora, vou te dar umas orientações por aqui — escreveu ele, no seu pragmatismo de médico. Relatava preocupação com a baixa saturação e “um quadro de evolução imprevisível”. Denise devolvia com o otimismo, dizia que tudo ia ficar bem e perguntava detalhes: “Não sou médica, mas convivo com médicos há mais de vinte anos, queria números, resultados de exames”. Ele a poupou. — Não quero entrar em detalhes, querida. No início do diálogo, ele ainda estava no quarto. Mas o quadro foi piorando, e ele avisou quando foi para a UTI semi-intensiva. Trocaram fotos do que comiam no jantar. No décimo dia dos primeiros sintomas, ele alertou a mulher que ainda havia “um longo caminho a percorrer”. Ela mantinha a confiança, mandava músicas para ele. Até o dia em que ele avisou a ela da intubação. Orientou com detalhes o que ela precisaria fazer com o consultório, com as fichas dos 60 mil pacientes. Deixou uma mensagem privada para ela e para os filhos. — Prepare-se para o pior — disse ele. — Não pense assim! Mas não deixe de entregar sua vida nas mãos de Jesus — ela se despediu, com muitos “amo você” entre as mensagens. Ricardo morreu em 8 de dezembro. — Perco qualquer objeto. Menos meu celular, o memorial de como fomos felizes. 'Pedi para ser intubada logo, porque estava muito cansada e não queria chegar a uma situação crítica' Médica Roberta, de 33 anos, perguntou se estava viva a um colega de trabalho após acordar da intubação Após passar pouco mais de uma semana intubada e, depois, conectada a um ECMO (máquina de oxigenação por membrana extracorpórea), a médica Roberta Carvalho acordou, olhou para o lado e viu o colega Raphael Mandarino, que foi seu professor na faculdade. Perguntou se estava viva. Ela mesma tinha indicado à equipe médica que deveria ser intubada, em 24 de abril do ano passado. Antes do procedimento, enviou uma mensagem ao amigo e também colega Thiago Barcellos, avisando que estava “indo pro tubo” e pedindo a ele que rezasse e cuidasse de sua mãe e irmã. Aos 33 anos, Roberta Carvalho, que até ser diagnosticada estava dormindo no carro para não expor seus familiares ao vírus, esteve entre a vida e a morte. Nas palavras da chefe de enfermagem Theia Forny, mais perto da morte do que da vida. — Pedi para ser intubada logo, porque estava muito cansada e não queria chegar a uma situação crítica. Mandei essa mensagem a um amigo pois não queria chocar minha família. Minha mãe e irmã estavam desesperadas — afirma Roberta. Ela foi intubada por André Soluri, que, cerca de um mês e meio depois, ficou petrificado ao ver trabalhando ao seu lado a mesma médica que tinha ajudado a superar a doença. Eles faziam juntos um procedimento quando André percebeu que a médica que o auxiliava tinha no pescoço a cicatriz deixada pelo ECMO. Perguntou se era a mesma que tinha estado internada naquele CTI. A resposta foi ainda mais surpreendente. Enquanto estava intubada, Roberta recebeu uma mensagem do chefe do CTI do Hospital Américas, na Barra, que, sem saber de sua condição, a convidava para trabalhar em sua equipe. Foi a primeira mensagem que respondeu quando acordou. Desde meados de 2020, a médica é parte da equipe que salvou sua vida. 'Valeu meu filho querido. Estou seguindo à risca. Fazendo tudo certinho' Sergio, de 61 anos, preferiu não contar para a esposa e o filho Matheus que seria intubado; ele morreu em 28 de dezembro, após passar o Natal no hospital Ele estava prestes a ser intubado, mas decidiu não avisar à família para não preocupar sua mulher e seu único filho, com quem trocou uma última mensagem antes de falecer. Foi o adeus, mas, naquele momento, o pesquisador e doutorando em Comunicação Matheus Pereira não sabia que estava se despedindo de seu pai, Sergio. O filho contou que tinha acabado de chegar à casa que o pai conseguira construir com enorme esforço em Itaipuaçu, Maricá, há menos de dois anos. Pediu que o pai ficasse tranquilo e pensasse que tudo era para o seu bem. Em suas palavras finais ao filho, o pai reclamou da comida do hospital, mas assegurou que estava fazendo tudo certinho: “Se é para o meu bem, faço qualquer sacrifício”. Sergio tinha 61 anos, trabalhava em manutenção industrial e pretendia se aposentar em 2021. Morreu em 28 de dezembro do ano passado, depois de passar o Natal no hospital, acompanhando o jantar da família por mensagens de WhatsApp. No dia em que morreu, conta Matheus, ambos trocaram várias mensagens. — Ele nos dizia que estava tudo bem, cuidou da gente até o final. Disse a um primo meu que talvez fosse intubado, mas para nós não disse nada — lembra Matheus. Hoje, tudo na casa de Itaipuaçu lembra o pai. O lugar é um sonho feito realidade para a família, sobretudo para Sergio. Matheus gosta de pensar que ele ficou feliz quando leu, na última troca de mensagens, que ele e sua companheira estavam na casa. — Essa doença é muito solitária, as mensagens foram fundamentais para saber como nossos familiares estavam. Sabíamos as coisas primeiro por ele e depois pelos médicos. Foi fundamental para estar perto num momento tão difícil — diz Matheus. 'Não é uma despedida. Mas sabemos o quanto tudo é imprevisível' Em último áudio antes de ser intubado, Jorge Carlos de Assis, de 71 anos, disse estar bem e que amava a filha, Alessandra Teixeira; ela aguarda a recuperação do pai Alessandra Teixeira, de 47 anos, guarda o último áudio do pai, Jorge Carlos de Assis, de 71 anos, antes da intubação, na quarta-feira de cinzas de um carnaval que este ano não existiu. — Bom dia, filha. Graças a Deus estou bem. Tomei agora um lanchinho, um desjejum. À noite foram só exames. Já fiz a tomografia e é aguardar o médico para ver. Fiz aquele exame de nariz. Tá tudo bem. Obrigada, beijo te amo. A situação do pai, no entanto, se agravou. Internado na segunda-feira de carnaval, dois dias depois, Alessandra foi chamada pelo hospital com o irmão para participar de uma chamada coletiva com o pai. Ele se recusava a ser intubado, porque perdera a mulher e o irmão no final de novembro, depois de ambos terem sido intubados. O propósito era convencê-lo de que, sem o recurso médico, ele morreria em 48 horas. Conversaram a família e a médica, no hospital Quinta D'Or. Enquanto a chefe da UTI do Hospital Quinta D'Or, Juliana Gurgel, explicava os riscos da decisão do pai, Alessandra ouvia ao fundo a voz de Jorge: “Não adianta, não vou ser intubado”. Esta é uma decisão que o paciente, se consciente, tem que aceitar. Por quarenta minutos a família ficou sozinha na conversa virtual, e convenceram Jorge a aceitar o tratamento. Como argumento, Alessandra falou com o pai, em ligação virtual, que, para os filhos, seria como assinar uma sentença de morte para ele, caso não o convencessem a ser intubado. — É tudo muito rápido. O quadro se agravou. Hoje está igual a ontem, com a diferença de que não podemos mais falar com ele — diz Alessandra, vivendo a angústia de milhões de brasileiros que enfrentaram, cada uma à sua maneira, a solidão de não poder mais segurar a mão ou acompanhar a dor de quem ama. — Saí de lá com isso na minha cabeça: não é uma despedida. Mas sabemos o quanto tudo é imprevisível. 'Dói saber que nada mudou. As pessoas seguem morrendo da mesma doença que levou meu pai' Vinícius viu o pai pela última vez na comemoração de 60 anos do progenitor, em festa virtual, dentro do hospital; o pai morreu em abril, em Belém (PA) Foi no dia do aniversário de 60 anos do pai, Vinícius Riebisch Figueiredo, que o filho, homônimo, viu o pai pela última vez. Era uma festa virtual. Com direito a adereços dos médicos, presença de outros familiares e sorriso do aniversariante. Empresário, Riebisch gravara, no dia 18 de março, pouco tempo antes de adoecer com a Covid-19, vídeos para familiares e amigos defendendo o isolamento. Era o começo da pandemia. A família é de Belém, e no Pará nunca chegou a haver de fato regras explícitas sobre o funcionamento do comércio. Até mesmo a orientação sobre o uso de máscaras era difusa no estado. De longe, Vinícius, o filho arquiteto que mora em São Paulo, nunca imaginaria que seria a última vez que ouviria a voz do pai. Ou o veria. No dia de seu aniversário, Vinícius, o pai, fora intubado. — Na chamada de vídeo ele estava totalmente consciente. Não deixou de ser uma despedida. Foi uma grande montanha-russa. Ele chegou a 80% do pulmão comprometido. Enquanto ainda estava sedado, ele ligava para ouvir a voz da gente, minha, da minha mãe. Se a imagem dele servir para abrir os olho das pessoas de que a pandemia continua grave, será um legado importante deixado por ele — disse Vinicius, que ontem teve notícia de um primo e um tio (pai e filho) internados pelo Covid. Vinícius fez questão de acompanhar o funeral do pai em uma live, gravada por um dos primos em Belém. Achou arriscado pegar um voo no 29 de abril do ano passado, quando havia um pico de casos no estado. A situação segue grave. — Ter tido a chance de assistir de comemorar o último aniversário e mesmo de assistir o funeral do meu pai por vias digitais ajuda a processar o luto. Mas o que dói é saber que nada mudou. As pessoas seguem morrendo da mesma doença que o levou, e grande parte da população parece ter esquecido da pandemia. É como reviver a dor todos os dias. 'Nasci de novo, só tenho a agradecer a Deus. Sei que muitos nunca voltaram' Por mensagem, Fabiana pediu à mãe e irmã que cuidassem de sua filha antes de ser intubada; ela continua internada e segue em processo de recuperação A professora Fabiana Oliveira estava muito assustada e, quando o médico lhe perguntou se gostaria de enviar uma mensagem para a família, não duvidou. Mesmo muito enfraquecida, pediu a sua mãe e irmã que cuidassem de sua filha, Gabrielle, de nove anos. Foram várias dias de intubação. Fabiana disse ter atravessado o maior medo de sua vida: — Eu nasci de novo, só tenho a agradecer a Deus. Sei que muitos nunca voltaram. Ainda mobilizada por emoções e incertezas (Fabiana continua internada e tem um longo processo de recuperação pela frente), a professora se diz otimista e pronta para dar um passinho de cada vez, como os médicos lhe indicaram. Fabiana, que mora na comunidade São Remo, em São Paulo, ainda não consegue caminhar, mas logo começará os tratamentos de reabilitação. Quando lembra dos momentos prévios à intubação, fica emocionada. — Não estava conseguindo entrar em contato com minha família, esse médico foi maravilhoso, ele enviou a mensagem para mim — contou. Para ela, que ensina adultos a ler e escrever, a vida é um aprendizado. Neste caso, um renascimento. Quando estiver melhor, pretende retomar a faculdade de Pedagogia e as aulas na ONG de sua comunidade. Quando a vacina chegar até sua mãe, que mora na Bahia, o sonho é reencontrá-la e matar as saudades. O áudio que poderia ter sido uma despedida foi enviado ao celular da mãe, que agora continua acompanhando a recuperação da filha através de mensagens. 'Durante a intubação fiquei muito grave, quase morri. Quando me contaram fiquei chocado, nunca imaginei isso' Enquanto esteve intubado, o cardiologista Carlos Rassi recebia mensagens de sua irmã, a ginecologista Thalita Rassi, que explicava como seu quadro evoluía Durante todo o período em que esteve intubado, em estado crítico, o cardiologista Carlos Rassi, de 38 anos, recebeu mensagens de sua irmã, a ginecologista Thalita Rassi. Nos textos, ela lhe explicava como seu quadro evoluía. Foram dias de extrema angústia para a família. A mulher de Carlos, a também médica Fabrícia, fazia ligações de vídeo para ter notícias. O casal tem duas filhas, de 6 e 4 anos. — Quando minha situação estava no limite, falei com minha mulher por vídeo. Mesmo intubado, baixaram minha sedação e ela me viu por vídeo também, consegui fazer alguns gestos — disse Carlos, Quando conseguiu ser extubado e digitar, respondeu às diversas mensagens de sua irmã, agradecendo por tudo o que ela e todos estavam fazendo para acompanhá-lo. Era o final de março de 2020, a pandemia estava alcançando picos em todo o Brasil, e Carlos, como todos os médicos, encarava a doença com profundo desconhecimento. — Todos os dias atendo pacientes com Covid, é uma doença que faz homens jovens ficarem muito grave. No momento da intubação não achei que fosse morrer, mas é lógico que tive medo — contou. Ele, de fato, esteve à beira da morte. Agradece à toda a equipe do Sírio Libanês de Brasília, onde trabalha, pela atenção que recebeu. Alguns dos que cuidaram de seu caso foram a cardiologista Ludhmila Hajjar e o Matheus Mourão, intensivista e cardiologista. — Durante a intubação fiquei muito grave, quase morri. Quando me contaram fiquei chocado, nunca imaginei isso — assegura Carlos. Foram oito dias em coma, até acordar e ver a enxurrada de mensagens em seu celular. Quando teve forças novamente, começou a responder, acarinhado por tantas demonstrações de afeto. 'A pressão dele ainda não está estabilizada, a parte emocional fica muito afetada. Ele está bem, mas não é fácil' Tânia, esposa de Jorge, gravou um longo aúdio para o marido quando eles completaram 30 anos de casados; não se sabe se o paciente ouviu, mas médicos relatam que quanto reproduziram o áudio ele virou a cabeça pro lado onde estava o celular Eles começaram a namorar quando ela tinha 11 anos e ele, 13. Quando completaram 30 anos de casados, em maio de 2020, Tânia, por recomendação dos psicólogos do hospital, enviou um longo áudio a Jorge, que estava entubado, dizendo o quanto sentia sua falta. Eles não sabem se ele ouviu, mas os médicos comentaram que no momento em que reproduziram o áudio ele virou a cabeça pro lado onde estava o celular. São três décadas de parceria e três filhos que cuidaram de Tânia durante mais de um mês de internação de seu marido. Aos 54 anos, Jorge Elias Nascimento da Costa, um gerente de supermercado que foi afastado do trabalho por pertencer ao grupo de risco da pandemia, viveu momentos de profunda tensão e pavor. Acostumado a estar sempre grudado na mulher, Jorge sobreviveu à Covid-19 e, dez meses depois, ainda lida com suas sequelas. — A pressão dele ainda não está estabilizada, a parte emocional fica muito afetada. As pernas inchadas, enfim, ele está bem, mas não é fácil — comentou Tânia. O casal mora em Anchieta, zona norte do Rio. Durante a internação de Jorge, um dos filhos acolheu Tânia. — Quando se aproximavam os 30 anos (de casamento), senti a necessidade de falar com ele, dizer que nossos filhos estavam cuidando bem de mim. Os psicólogos sugeriram e foi muito bom mandar o áudio — disse Tânia, ainda comovida pela experiência que viveram. Eles costumam comemorar todos os aniversários de casamento, e os 30 anos serão, definitivamente, inesquecíveis. Jorge não lembra nada sobre o áudio, mas Tânia tem certeza que ele ouviu. E ficou muito feliz.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 25/02/2021 às 03h00

Turismo B17 Procura por natureza durante a crise põe em alta as rotas de cicloturismo Ciclistas fazem tour que percorre 82 km pelas cidades de Indaiatuba, Itupeva e Jundiaí, no interior paulista Divulgação Busca por natureza na pandemia põe rotas de cicloturismo em alta Operadoras veem procura aumentar e criam ou retomam passeios pelo país, inclusive para público sem experiência Marília Miragaia são paulo A vontade de retomar contato com a natureza na pandemia tem aumentado a demanda por passeios de bicicleta no país. Para atender à procura, operadoras estão criando ou customizando pacotes para famílias, reforçando destinos locais e roteiros para quem já está acostumado com a atividade fora do país. O serviço inclui, geralmente, lanches, refeições, carro de apoio, guia especializado e hospedagens. Mas, a depender da agência, há também a possibilidade de alugar bicicletas (também elétricas) —e até incluir o pet no roteiro. O cicloturismo vem crescendo no país há pelo menos cinco anos, mas a pandemia ampliou esse ritmo, diz Luiz Del Vigna, diretor-executivo da Abeta (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura). “Existem possibilidades perto de médias e grandes cidades que são ótimas para um passeio de fim de semana.’’ A operadora de cicloturismo Ybytu, até então acostumada a levar viajantes para a Europa,lançou, em setembro, dois roteiros nos arredores da cidade de São Paulo —e viu a procura triplicar no período de setembro a dezembro, em comparação ao ano anterior. Acostumada a pedalar em São Paulo, mas sem experiência em viagens, a dentista Wania Martins, 51, fez há três semanas o passeio chamado Sua Primeira Viagem de Bicicleta, cornos dois filhos, o marido e o cachorro Jack. O programa de um fim de semana custa a partir de R$ 1.390 por pessoa (inclui duas noites de hospedagem, água, frutas e lanche para o passeio e jantar) e tem um percurso de 82 km em estradas rurais pelas cidades de Indaiatuba, Itupeva e Jundiaí, no interior de São Paulo. No caminho, Wania e a família observaram cultivos de frutas, como acerola euva, conheceram a história da região e fizeram piquenique. "Tenho dois adolescentes que estavam confinados por um ano e nunca tinham visto uma plantação de café”, diz. Os filhos usaram bicicletas elétricas alugadas que eram revezadas com a família. Caso um deles não aguentasse o ritmo, também poderia descansar no carro de apoio —o que aconteceu com Jack, que seguiu parte do trajeto nacestinha e parte no veículo. Como precaução contra a Covid-19, a Ybytu oferece aos clientes álcool em gel, serve lanches individualizados no piquenique e recomenda uso de máscaras durante o trajeto. Segundo o médico Adriano Almeida, do Núcleo de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital Sírio-Libanês, máscaras sem válvula são recomendadas para quem pedala em grupo, já que é possível, mesmo ao ar livre, entrar em contato com aerossóis projetados por outros ciclistas. Outras recomendações são hidratar-se bem, alimentar se e reaplicar filtro solar a cada duas horas. Também vale usar roupas leves, ventiladas e com fator de proteção solar. “É preciso prestar atenção se o passeio requer experiência para ser feito. Se for o caso, comece com distâncias curtas em ciclovias e parques e aumente a atividade progressivamente”, diz ele. Com a procura em alta, Eliane Leite, da agência de turismo de natureza Adventure Club, criou um material para tirar dúvidas sobre viagens de bike. A agência também reativou roteiros pelo Brasil e criou alternativas mais curtas, feitas em um fim de semana. Lançada em novembro e voltada a famílias, uma delas vai de Bertioga a Juquehy, no litoral norte de São Paulo. Com preços a partir de 1*$ 1.390 por pessoa, inclui duas noites de hospedagem, água, snacks e piquenique nas pedaladas, jantar, carro de apoio e guia especializado. Outro grupo que começou a explorar mais os roteiros dentro do Brasil é o de ecoturistas experientes, acostumados a viajar para fora do país, diz Fernando Angeoletto, da Caminhos do Sertão Cicloturismo, de Florianópolis (SC). No fim do ano, a empresa conduziu um grupo de 15 amigos no roteiro do Vale da Cerveja, na região de Blumenau (com duas noites, a partir de Ií$ 1.560 por pessoa), que inclui curso de degustação e paradas em cervejarias com retorno feito por van. Um dos participantes foi Elson José Apecuitá Júnior, 53, militar e administrador, que teve de cancela ruma viagem internacional de cicloturismo por causa da Covid. “Fomos surpreendidos positivamente e, em termos de assistência, a experiência foi muito superiora do exterior", diz. A maior procura de viajantes por ambientes naturais desde o fim do ano passado elevou o número de acidentes nessas viagens, diz Luiz Del Vigna, da Abeta. Para manter a segurança, o turista deve se informar sobre o percurso e a estrutura da operadora para resolver casos de acidentes.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 25/02/2021 às 03h00

Hospitais ofertam consultas virtuais em escolas, casas, farmácias e aeroportos Teleconsulta reúne mãe, filho e equipe médica do Hospital Sabará Daniio verpa/Foihapress são paulo um ano após o primeiro caso de Covid-19 no país, hospitais ampliaram o uso da telemedicina e já fazem consultas virtuais e exames em casa, escolas, empresas, farmácias e aeroportos. Ainda que falte uma regulação definitiva para o uso dessa ferramenta, esse é um dos legados da pandemia que deve ser incorporado à rotina das instituições mesmo quando a crise sanitária chegar ao fim. O Sabará Hospital Infantil (SP), por exemplo, está oferecendo consultas virtuais desde as mais corriqueiras (para diagnóstico de viroses, por exemplo) até as mais complexas, com a criança internada em outro hospital, e o pediatra discutindo o caso com os especialistas do Sabará. “Uma boa parte das cidades brasileiras não têm pediatra na cidade e, quando você parte para as especialidades pediátricas, é ainda pior. Com a telemedicina, aumentamos essa capilaridade”, diz o médico Rogério Carballo, gerente de negócios do Sabará. O hospital também está oferecendo atendimento médico virtual em escolas, além de programas de promoção à saúde e prevenção a doenças. “Se a criança fica doente, a escola solicita um atendimento médico, comunica os pais e eu coloco numa mesma sala virtual a criança na escola, o pai no trabalho e o pediatra no Sabará. Depois, os pais recebem no seu celular a receita, o relatório médico.” O atendimento é oferecido sete dias por semana, 24 horas, o que permite que os pais o acessem também de casa, evitando que a criança vá para escola e propague a doença. “Isso faz sentido não só durante a pandemia, mas também na época do sarampo, da bronquiolite. Não é coisa específica da Covid." O atendimento pediátrico virtual contará em breve com uma ferramenta que permitirá a realização de exames na casa da criança. Os pais vão precisar de um aparelhinho portátil (Tyto Care) acoplado a um celular, com um aplicativo de uma plataforma de telemedicina. Com o dispositivo, é possível avaliar as estruturas do ouvido, como o canal auditivo e o tímpano, possível infecção da garganta, auscultar pulmão, coração e abdômen, medir a temperatura, e fazer imagens de lesões na pele. Os dados são acessados pelo médico, subsidiando-o com informações para a consulta a distância. “O aparelho permite a captura fiel das imagens e sons. Todos os estudos clínicos realizados demonstraram a qualidade dos dados, imprescindível para o correto diagnóstico”, diz o médico Fábio Motta, do Hospital Infantil Pequeno Príncipe (PR), que teleconduzido estudos clínicos para validar o dispositivo no Brasil. O equipamento foi trazido ao país pela startup Tuinda Care, que é acelerada pelos hospitais Pequeno Príncipe, maior hospital público infantil do país, e o Sabará. No Hospital Israelita Albert Einstein, várias soluções tecnológicas foram desenvolvidas para suprimir gargalos detectados durante a pandemia. De aplicativos para pacientes e profissionais da saúde ao desenvolvimento de uma câmera de reconhecimento facial capaz de captara temperatura em multidões. Um dos pioneiros no uso da telemedicina no país, o Einstein ampliou projetos que já desenvolvia em parceria com o Ministério da Saúde, como a TeleUTI, que dá apoio a unidades de terapia intensiva no SUS, e treinamento de médicos da atenção primária à saúde. Agora, o hospital está levando o atendimento médico via telemedicina e a oferta de exames para unidades abertas em aeroportos—em Cumbica (Guarulnos) ,no mês passado, no Galeão (Rio), nesta terça (23). As clínicas estão oferecendo exame RTPCR para detecção do coronavírus e, a partir de março, consultas virtuais. Quando houver disponibilidade de vacinas, o serviço também será ofertado. “Cada vez mais essa situação da Covid se tomará endêmica] e o coronavírus. Alguns países vão exigir vacinação e comprovação da ausência a doença”, diz Sidney Klajneç presidente do Einstein. Neste mês, a BP (Beneficência Portuguesa de Sào Paulo) e a rede de farmácias Pague Menos firmaram uma parceria e está oferecendo consultas virtuais em duas unidades a pacientes com sintomas gripais febre, mal-estar, dor no corpo, dor de cabeça, tosse, coriza e dor de garganta. O atendimento é gratuito até o fim de março. Os farmacêuticos da rede fazem uma pré-avaliaçâo para triar pacientes aptos à consulta online. Medem a temperatura, pressão arterial e a saturação de oxigênio no sangue. Segundo Felipe Reis, gerente executivo de inovação e soluções médicas da BR o projeto ainda é piloto e, havendo aceitação, será ofertado numa escala maior. Para evitar eventuais conflitos de interesse, o paciente é informado de que, se o atendimento envolver prescrição de medicamento, ele tem livre escolha, nâo precisa comprar naquela farmácia. Outras iniciativas adotadas pela BPeporoutroshospitais privados de São Paulo durante a pandemia foram incorporadas à rotina da instituição, como o drive-thru para coleta de exames, agendamento online de consultas e exames, pronto atendimento digital via telemedicina e check in virtual. No âmbito das empresas, cresceu muito a possibilidade não só de consultas virtuais, mas também de programas de prevenção, por meio de aplicativos. A plataforma de saúde corporativa do Sírio-Libanês, por exemplo, oferece diversos tipos de acompanhamento, de sintomas gripais a orientação de nutrição e saúde mental. A telemedicina também possibilitou um melhor acompanhamento dos pacientes que passam pelo pronto-atendimento ou que têm alta. Segundo Fernando Ganem, diretor de governança clínica do Sírio-Libanês, a preocupação com o desfecho do atendimento tomou-se obrigatória. “Mais do que fazer um procedimento, eu preciso saber se ele melhorou a qualidade de vida do paciente”, diz. Hoje, mais de 20 mil pacientes de diversas patologias, como insuficiência respiratória, câncer de mama, de próstata, e a própria Covid, são seguidos pelo hospital, por meio de ligações telefônicas. São acompanhadas, por exemplo, sequelas emocionais, respiratórias, neurológicas e motoras. Para Pedro Mathiasi, infeetologista e superintendente de Qualidade e Segurança do HCor (Hospital do Coração), a pandemia levou a uma mudança irreversível na adesão dos protocolos de segurança dentro dos hospitais. “Eu brinco que a gente mudou de indústria. Agente saiu da indústria da saúde para a indústria da aviação. Se você não cumpre o protocolo, o avião cai e você vai junto.” Como os outros hospitais, o HCor também oferece consultas virtuais e acompanhamento de pacientes que passam pelo PS ou no pós-alta.