Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

FOLHA DE S.PAULO ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 24/10/2020 às 23h15

Falta menos de um mês para as eleições municipais. Em nome do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), venho prestar conta de tudo o que está sendo feito para enfrentar dois vírus ameaçadores: o coronavírus e as notícias fraudulentas. No que diz respeito à pandemia, tudo o que era razoavelmente possível fazer para proporcionar segurança para eleitores, mesários, candidatos e servidores da Justiça Eleitoral foi providenciado. Se todas as recomendações que estamos divulgando forem seguidas, o risco de contaminação será mínimo. Mais seguro, só se não houvesse eleições. Mas essa não é uma opção. A primeira providência foi o adiamento das eleições, passando o primeiro turno do dia 4 de outubro para 15 de novembro. Essa foi a recomendação da comissão médica formada pelo TSE, baseada na previsão —que vem se confirmando— de que a curva da Covid-19 começaria a cair em final de setembro. Com grande capacidade de liderança, os presidente do Senado e da Câmara aprovaram, em tempo recorde, a emenda constitucional necessária. O passo seguinte foi constituir uma consultoria sanitária, composta por Fiocruz, Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein, para elaborar o plano de segurança para as eleições, tendo em conta a pandemia. Foi elaborado um passo a passo de protocolos e procedimentos. A biometria foi suprimida para evitar aglomerações, e o percurso do eleitor dentro do local de votação foi alterado, minimizando a interação entre ele e os mesários. A consultoria recomendou a compra de 9 milhões de máscaras, 2 milhões de “face shields” e 2 milhões de frascos pequenos de álcool em gel, tudo para a proteção dos mesários. E 1 milhão de litros de álcool em gel para os eleitores higienizarem as mãos na entrada e na saída da seção eleitoral. Também foi indicada a aquisição de marcadores de chão, para distanciamento social, e canetas. Em razão da crise fiscal e da necessidade de canalizar recursos para o enfrentamento da pandemia, o TSE fez a opção de ir buscar tais materiais e equipamentos de segurança na iniciativa privada, mediante doação. Como extraordinário sinal da mudança dos tempos e do avanço civilizatório do país, cerca de 30 empresas e entidades de classe se apresentaram para doar tudo o que se fez necessário. Sob a supervisão do TSE, também cuidaram da complexa logística de distribuição por 26 estados da Federação. Uma parceria público-privada que deve orgulhar o Brasil. Dezenas de milhões de reais economizados. Já o outro vírus, o da desinformação, da mentira e do ódio não afeta a saúde pública, mas debilita a democracia. Para combatê-lo, o TSE fez parcerias com as principais mídias sociais e empresas de tecnologia, incluindo WhatsApp, Twitter, Facebook, Instagram, Google e TikTok. Todas se comprometeram a reprimir os chamados comportamentos coordenados inautênticos que incluem perfis falsos, uso abusivo de robôs e disparos em massa ilegais. Na primeira parceria com uma autoridade eleitoral do mundo, o WhatsApp permitiu a criação de um “chatbot”, completamente gratuito para a Justiça Eleitoral, para disseminar informações verdadeiras. Além da possibilidade de enviar notícias e dados relevantes para eleitores que se cadastrarem. Formamos, também, uma coalizão com as agências checadoras de notícias para a apuração imediata de rumores sobre a confiabilidade do processo eleitoral. Foi criada uma página no site da Justiça Eleitoral chamada “Fato ou Boato” para o esclarecimento da verdade, onde são consolidadas as checagens. E firmamos parceria com todas as operadoras de telefonia celular para acesso gratuito a essa página, sem gasto para o pacote de dados do usuário. Democracia significa eleições livres, limpas e seguras, com participação popular ampla. O voto tem poder, e cada cidadão pode fazer diferença. O TSE convoca todos os eleitores a comparecer às urnas e ajudar a fazer um país melhor e maior. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 24/10/2020 às 03h00

0 ministro da Ciência, Marcos Pontes, no evento em que falou sobre ação de vermífugo contra Covid19 Evar&osái9.oul2o/afp Vermífugo não reduz sintomas de Covid19, diz estudo do governo Presidente e ministro da Ciência afirmaram em evento que droga salvaria vidas Acima, gráfico usado em vídeo do governo para afirmar que a nitazoxanida é eficaz contra o coronavírus, porque seria capaz de diminuir a carga viral; abaixo, imagem de vídeo encontrado no banco de imagens Shutterstock Divulgaçãoeshutterstoci Phillippe Watanabe são paulo Segundo estudo financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, o uso do antiparasitário nitazoxanida (de comercial Annita) contra a Covid-19 teve resultado similar ao do placebo. Mesmo assim, a pesquisa foi motivo de cerimônia com presença do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) —no evento, um gráfico genérico dizia que a droga era eficaz e poderia ajudar no combate à pandemia. “Em resumo, nós temos agora uma ferramenta que o Ministério da Saúde pode utilizar para ajudar a salvar vidas”, disse Pontes, no evento no último dia 19. “Dá para ter uma noção do que estamos anunciando aqui hoje, né? Nós estamos anunciando algo que vai começar a mudar a história da pandemia.” Os resultados do estudo, disponibilizado empié-print (ou seja, ainda não publicado e revisado por outros pesquisadores), são significativamente mais modestos do que os citados por Pontes. Segundo médicos e pesquisadores ouvidos pela Folha, a conclusão da pesquisa não muda o cenário atual e não deve significar uma guinada no combate ao novo coronavírus. Os próprios autores da pesquisa foram mais cuidadosos que o ministro ao apresentar o resultado observado. “Em pacientes com Covid-19 moderada, não houve diferença na resolução dos sintomas, após cinco dias, entre os grupos que usaram nitazoxanida e os que tomaram placebo”, escreveram. Mas, também segundo a pesquisa, a droga é segura para pacientes com Covid-19 e leva à redução da carga viral, o que era considerado um resultado secundário, de acordo com o desenho do estudo. Essa diminuição foi um dos únicos detalhes destacados na cerimônia da qual participaram Pontes e Bolsonaro. O problema é que a redução da carga viral não significa muita coisa sozinha. Como o próprio estudo concluiu, isso não se traduziu em abreviação dos sintomas da doença. A pesquisa, financiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia via CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), foi feita com 475 pacientes adultos com Covid-19 e tinha como objetivo verificar se a nitazoxanida ajudava na diminuição de tosse, febre e fadiga. Não ajuda, diz a pesquisa. Apesar de randomizado, multicêntrico e duplo-cego (ou seja, que divide os pacientes em grupos aleatórios, que não sabem se estão tomando o remédio ou placebo, todas características que aumentam a sua qualidade metodológica), o estudo apresenta uma série de limitações, reconhecidas pelos próprios autores. Para começar, não foi feita uma análise mais ampla dos efeitos da droga, mas apenas de três sintomas da Covid-19. Os pacientes foram acompanhados por apenas cinco dias. Além disso, somente os participantes que continuaram com sintomas (49 dos que tomavam o vermífugo e 46 do grupo controle) foram acompanhados por mais tempo. Por último, não é possível saber se a medicação foi adequadamente tomada. “O resultado principal é que não teve diferença entre os dois grupos no desfecho primário”, diz Natália Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, que aponta outros problemas metodológicos, como exclusões de participantes do estudo depois da randomização, o que poderia enviesar os resultados. Os autores da pesquisa excluíram pacientes que, por exemplo, apresentaram efeitos adversos e foram hospitalizados. “O único desfecho positivo que eles tiveram foi carga viral, que não tem relevância clínica e epidemiológica.” “Nos casos mais leves, acho que todos nós gostaríamos de resultados mais expressivos e impactantes em termos de evolução, de evitar hospitalização, o que não aconteceu”, diz Raquel Stucehi, pesquisadora da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). A pesquisa, porém, levanta questões para pesquisas futuras, como a possibilidade de que a diminuição da carga viral vista a partir do sétimo dia talvez possa reduzir o risco de transmissão entre pessoas que moram na mesma casa, afirma Stucchi. Mas nada que mude as abordagens de prevenção, como distanciamento social e uso de máscara. Outro ponto que poderia ser interessante de ser analisado é o efeito da medicação nos sintomas pós-Covid, o que necessitaria um acompanhamento mais longo, afirma a pesquisadora da Unicamp. Stucchi diz que as pessoas não devem tomar a droga imaginando que vão evitar a doença ou a piora dela. “Os resultados não modificam a prática clínica”, afirma Luciano Azevedo, professor de terapia intensiva da USP e pesquisador do Hospital Sírio-Libanês. “O impacto clínico de você identificar carga viral é discutível, é muito limitado se você não tem um efeito positivo em um desfecho clínico mais significativo, como tempo da piora clínica, ventilação mecânica, mortalidade.” O pesquisador afirma ainda que, pela carga viral se tratar de um dado laboratorial obtido através do exame PCR, há chances de falha e potencial para vieses derivados do modo de coleta, armazenamento e transporte para análise. Mesmo com o que foi apontado, Azevedo diz que o esforço científico dos autores do estudo merece elogios, considerando que se trata de uma pesquisa prospectiva, randomizado, cegada, com algumas centenas de pessoas em meio a uma pandemia. Segundo o pesquisador, pesquisas futuras sobre a droga poderiam olhar exatamente para desfechos clínicos significativos, como hospitalizações. O anúncio feito por Bolsonaro e Pontes, além de inflar os resultados da pesquisa, tinha pelo menos outro erro. “Conversei com ele [Pontes] também e ele me disse que, dessas pessoas que usaram esse medicamento [nitazoxanida], nenhuma pessoa foi sequer hospitalizada”, disse Bolsonaro. A afirmação não é verdadeira. Segundo os dados do estudo, cinco pacientes que tomavam nitazoxanida foram hospitalizados pela piora clínica e dois foram internados em UTI.