Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

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Data Veiculação: 24/03/2021 às 16h36

Marcelo Queiroga, nomeado ontem Ministro da Saúde, só conseguirá avançar se tiver autonomia e fizer radicalmente diferente do que fez Pazuello; “nós teríamos que fazer uma profunda reformulação na cúpula do Ministério da Saúde, que está ocupado por um monte de gente sem a menor qualificação. Quando o Pazuello entrou, ele militarizou o Ministério da Saúde”. O que você faria agora, já neste momento agudo da crise pandêmica, se acaso fosse o Ministro da Saúde? Assista à entrevista: https://youtu.be/Mi0VIHaRXXA Esta foi a pergunta que ocorreu-me de fazer a José Gomes Temporão, médico sanitarista, pesquisador da Fiocruz, que participou da criação do SUS, pelos idos de 98, e ocupou a pasta da Saúde entre 2007 e 2011, no governo Lula, tendo durante sua gestão quebrado a patente de um importante medicamento contra o vírus HIV. E a conversa não poderia ter sido mais oportuna. No preciso momento da entrevista, tomava posse o novo Ministro Marcelo Queiroga, em uma cerimônia discreta em Brasília. Primeiramente, gostaria de te perguntar o que dá para ser feito a esta altura do campeonato. Antes de mais nada é preciso lembrar que este é um momento crítico, infelizmente uma expressão dramática do que nós, sanitaristas, epidemiologistas, cientistas, estamos falando há um ano. Um quarto Ministro foi empossado e ainda não falou quais são suas visões sobre o problema [pandemia]. Nós estamos em um momento em que toda e qualquer correção de rumo é muito mais complexa, mais delicada e mais difícil do que se tivéssemos corrigido o rumo há 6 meses, 8 meses atrás. Como nós estamos navegando em um mar revoltoso sem Ministério da Saúde, já vai fazer 1 ano ou menos de 1 ano, de abril até agora, o Brasil perdeu uma capacidade central no enfrentamento de uma doença como essa. Era preciso liderar o esforço nacional de enfrentamento no combate à doença. A gente se perdeu. Junto com isso você perde a credibilidade e a capacidade de inteligência epidemiológica – de cientistas e especialistas desenvolvendo estudos junto às universidades sobre o padrão da circulação do vírus, padrão de mortalidade, para a partir daí você antecipar medidas restritivas, educacionais, comunicacionais, de infraestrutura, de entrega de serviços. Isso tem que ser feito de mãos dadas com os munícipios, e nós perdemos tudo isso. Nós passamos um ano delirando em Ivermectina, Hidroxocloroquina e as pessoas morrendo sem oxigênio; então criou-se uma guerra cultural permeada por fake news e a boa ciência e medicina foram colocadas de lado. Nós saímos de cena, ficamos criticando e chamando a atenção. Então nesse momento, onde você tem cepas mutantes circulando – com uma capacidade de transmissão em princípio maior do que as originais -, uma saturação do sistema hospitalar e em vários estados já no limite, gente morrendo sem ter condições de ser internado e intubado, de insuficiência respiratória, e você tem uma vacinação a conta-gotas. Nós deveríamos estar vacinando 1 a 2 milhões de pessoas por dia e o PNI (Plano Nacional de Imunização) pode fazer isso, ele fez isso a vida inteira durante 50 anos. Eu só acreditaria neste Ministro se houvesse uma mudança radical, se tivesse uma mudança de postura completamente adversa ao que o governo federal vem assumindo. Uma ONG australiana, em uma classificação em janeiro, nos colocou em último lugar no ranking combate à pandemia, no 95º lugar. O novo Ministro ainda não falou, temos que esperar ele falar alguma coisa, mas com toda franqueza estou vendo um cenário, não sou eu que estou projetando isso, o próprio Miguel Nicolelis projeta isso, de 500 mil mortes até o meio do ano. Estudos da USP muito interessantes mostraram que se nós tivéssemos vacinados de 1 a 2 milhões de pessoas por dia desde janeiro, em um ritmo que o PNI pode vacinar, nós pouparíamos 175 mil vidas até o final de 2021. Olhando para frente, o que dá para ser feito efetivamente? Um Ministro para atuar em uma situação como esta, ele tem que ter ampla e total autonomia para montar a sua equipe. Então nós teríamos que fazer uma profunda reformulação na cúpula do Ministério da Saúde, que está ocupado por um monte de gente sem a menor qualificação. Quando o Pazuello entrou, ele militarizou o Ministério da Saúde; você tem que levar sanitaristas, planejadores para essas posições. A primeira coisa que ele tem que fazer, se ele pretende manter a cabeça no lugar e o respeito da sociedade brasileira, é fazer tudo radicalmente diferente do que o Pazuello fez. Em segundo lugar, o Ministro tem que ter autonomia para desenvolver uma política, ele não pode ficar com uma adaga sobre o pescoço, no caso o Presidente da República, dizendo o que pode e o que não pode, o que deve ou o que não deve. Terceiro, ele teria que chamar imediatamente os estados e municípios e refazer o pacto federativo que foi rompido pelo governo federal. O que está acontecendo hoje são governadores e prefeitos agindo sem nenhuma lógica, coordenação. O quarto ponto é: nós temos que começar uma campanha de comunicação de massa para a população brasileira, tem gente nesse momento morrendo porque está tomando kit covid – Ivermectina, Hidroxocloroquina – inclusive causando insuficiência hepática e precisando de transplante de fígado. Hoje a Associação Médica Brasileira soltou um manifesto muito importante repudiando essas falsas drogas miraculosas. Sem essas mudanças, sem esses pontos, o Ministro não terá sucesso. A desigualdade no acesso às vacinas é um problema global. 60% delas estão nas mãos de 16 países. A culpa talvez não seja só desse governo. Há uma profunda inequidade no acesso às vacinas hoje, mas o Brasil tem uma posição completamente distinta dos demais países. Primeiro porque o Brasil construiu ao longo de quatro décadas uma base industrial e tecnológica de vacinas. Nós temos dois grandes produtores de vacinas no Brasil, o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz, mas hoje só vacinamos 12 milhões de pessoas com a primeira dose. Se não fosse pelo Butantan e a Fiocruz, teríamos vacinado zero pessoas. Então não podemos desprezar essa situação, só que a quantidades de vacinas que o Butantan e a Fiocruz têm capacidade de entregar neste momento – porque elas ainda dependem do princípio ativo produzido na China – é insuficiente para que tenhamos uma vacinação que impacte. E qual é a crítica ao governo federal? A crítica é a seguinte, em fevereiro do ano passado, nós já sabíamos que só sairíamos dessa situação com uma ou mais vacinas que funcionassem. Quando eu me refiro a “nós sabíamos” é nós, a ciência. O governo apostou todas as fichas que era uma gripezinha, que ia desaparecer em 4/5 meses e o próprio presidente da República declaradamente sabotou as vacinas, ele fez uma guerra contra o Butantan e ele teve que engolir o Butantan, a vacina que “transformaria as pessoas em jacaré”. Ao invés do governo como um todo sentar-se com os produtores que estavam fazendo as novas vacinas naquele momento, Pfizer, Moderna, Johnson & Johnson, Sputnik e outras, e fazer acordos de pré-compra, que é o que qualquer país inteligente faria, simplesmente não fez, jogou fora e agora estamos desesperadamente correndo atrás e acabamos de fechar contratos que só vão ser entregues no segundo semestre. Isso e nada neste momento são a mesma coisa, nada, porque vão morrer 500 mil brasileiros até julho se nós continuarmos vacinando nesse ritmo. Não é criticar pela crítica, é criticar pelo conjunto da obra do governo federal, que é um governo criminoso, não é à toa que ele está sendo denunciado no Tribunal de Haia e que tem dezenas de pedidos de impedimentos na gaveta do Presidente da Câmara dos Deputados. Essa postura reiterada, anti-ciência, negacionista, arrogante de não usar máscara, isso não pode ser esquecido e não será esquecido. Se nós conseguíssemos o afastamento do Presidente, que é o principal obstáculo nesse momento, e a constituição de um governo de salvação nacional nós poderíamos avançar, mas pelo que eu estou vendo as probabilidades de que isso aconteça são pequenas. Voltando às vacinas… Hoje a indústria de vacina é totalmente dominada pelas grandes empresas multinacionais que produzem medicamentos. O que está acontecendo hoje é mesma repetição do acesso a medicação pelo mundo em termos gerais. 80% do consumo de medicamentos no mundo se dá nos EUA, Canadá, Europa e Japão. Então tem um padrão de desigualdade brutal, de concentração de medicamentos. Enquanto os países da África, da América Latina e alguns da Ásia têm grandes dificuldades de acesso, há um hiperconsumo nos países desenvolvidos. E o que estamos vendo agora em vacinas repete exatamente esse mesmo padrão, tanto do ponto de vista de proteção das patentes quanto do ponto de vista de preços, quanto do ponto de vista de acesso. Não é à toa que a Índia e África do Sul estão liderando um movimento por mais acesso às vacinas, por exemplo através de licenciamentos compulsórios, mas o Brasil tem se mantido numa posição um pouco hostil e agora em cima do muro. Seria necessário um grande pacto global, liderado pelos países ricos. Porque ninguém está seguro enquanto todos os cidadãos do mundo não estiverem vacinados, e para isso você teria que aumentar muito a capacidade produtiva das vacinas e oferecê-las a preço muito baixo ou realmente subsidiar pelos países mais ricos. E quebrar a patente, que tal? Quebrar patente de medicamento, como eu fiz na minha gestão, e quebrar patente de vacina é bem diferente, porque quando você quebra a patente do medicamento você pressupõe que terá acesso ao genérico enquanto você desenvolve sua própria capacidade interna. Foi o que nós fizemos, o Brasil quebrou a patente, importou o genérico da Índia, a Fiocruz desenvolveu o princípio ativo e um ano depois a gente já produzia totalmente no Brasil. Qual o problema com a vacina? Nenhum produtor no mundo consegue produzir a AstraZeneca, não existe uma vacina genérica da AstraZeneca, ou da Pfizer, ou da Moderna, ou da Johnson & Johnson. Mas a vacina do Butantan que usa uma plataforma tecnológica de vírus atenuado, essa vacina poderia ser produzida em um número muito maior de países. Então se o Brasil tivesse procurado negociar as vacinas com esta antecedência que você menciona, estaríamos em outra situação. A vacina se tornou o bem mais escasso no mundo, todo mundo está desesperado atrás de vacina. Não fomos atrás, sabotamos, o próprio Ministério dizia que era muito perigoso, o próprio Presidente disse, “a vacina é um negócio experimental, muito cuidado com isso”, e não se vacinou até agora. Então, lamento, a realidade hoje é dramática e neste momento o governo está de mãos atadas. O que nós podemos fazer? Buscar desesperadamente apoio com outros produtores para que antecipem suas entregas e sentar com Biomanguinhos e Butantan e falar, “olha, vocês vão ter que trabalhar 24 horas por dia; o que vocês precisam para queimar etapas e antecipar entregas?”. Além disso uma ação diplomática junto a países como os da Europa e dos EUA, que estão com vacinas sobrando, para que nos vendam uma parte, porque o Brasil hoje é uma ameaça global. O problema é que temos um Ministro das Relações Exteriores terraplanista e que é motivo de chacota nos corredores do Itamaraty. O Brasil perdeu completamente o diálogo como um ator no cenário global, nós somos hoje um pária internacional. Então são essas três alternativas, buscar vacinas em países europeus e nos EUA. Dois, renegociar cronograma de entrega mesmo pagando mais caro aos atuais fornecedores, e três, mobilizando Biomanguinhos e Butantan e antecipando suas entregas”. A vacina da AstraZeneca tem sido alvo de restrições nos países europeus. Que acha disso? Essa vacina foi aplicada em 20 milhões de ingleses e não há relato de nenhum problema. É complicado também porque a gente vive além da pandemia uma “infodemia”, uma avalanche de informações e notícias. Então veja, suspenderam as restrições na Europa e aí a AstraZeneca divulgou ontem os resultados dos testes em fase 3 nos EUA, e hoje já tem uma notícia de que esses resultados têm que ser reapresentados porque tiveram problemas. As informações que temos até o momento é que é uma vacina tão boa quanto a do Butantan, quanto a da Pfizer, quanto da Moderna. E quanto ao lockdown, o que recomenda que seja feito? Com uma associação de fechamento das atividades, de maneira organizada onde a sociedade apoia e participa, com uma alta velocidade da campanha de vacinação como aconteceu em Israel, está acontecendo em Portugal, nos EUA e outros países, você começa a ter um resultado bastante perceptível de que é possível reduzir drasticamente internações e óbitos. Fechar o país todo ao mesmo tempo, como algumas pessoas advogam? Acho que chegamos em um momento do ponto de vista político de tanto esgarçamento institucional e de nível de tensão, que seria extremamente difícil, você tem um conflito entre governadores e aliados do Presidente, infelizmente 2022 acabou se tornando um ingrediente muito negativo nessa questão toda. Mas evidente que você tem que fazer [um lockdown]. Que tem achado da atuação da OMS A OMS sofreu muito no ano passado, vamos lembrar que os EUA, que eram o principal financiador, saiu da OMS na gestão Trump. Então houve uma fragilização, mas ela vem cumprindo um papel insubstituível, nós temos que na verdade fortalecer a OMS. Que seria lhe dar mais capacidade, muitos cientistas acham que o que nós estamos vivendo agora pode ser repetido no futuro, de maneira até mais dramática, considerando tudo que nós estamos fazendo pelo planeta. Nós tivemos a mutação de um vírus que circulava em uma outra espécie que adquiriu uma característica que lhe permitiu infectar humanos, por questões ambientais, de padrão de consumo. Então como é que você prepara o mundo para uma situação como essa? Essa foi uma das coisas que nós aprendemos, o mundo não estava preparado para enfrentar essa situação, nem do ponto de vista da organização do sistema de saúde, nem do ponto de vista da organização e harmonia entre os países para construírem de maneira conjunta uma saída. A única coisa que funcionou, e surpreendeu a todos, foi a ciência. A ciência conseguiu colocar várias vacinas em menos de 1 ano, isso é mais importante do que ter ido à Lua. A vacina que tinha sido desenvolvida mais rapidamente até então foi a da caxumba, que demorou quatro anos até chegar no mercado. Que futuro a curto prazo você enxerga para o Brasil? Nós estamos chegando em 3 mil óbitos diários [ontem (23/03) foram 3.251 óbitos], vamos ultrapassar essa semana 300 mil óbitos e essa época do ano é complicada porque nós sabemos que tem um potencial para circulação de outros vírus respiratórios sazonais, então você tem uma total pressão sob o sistema de saúde que não dá conta. Ninguém enfrenta uma situação como essa abrindo leitos, você enfrenta reduzindo a velocidade de disseminação do vírus, e nós apostamos todas as fichas em abrir leitos, hospitais de campanha. Um estudo realizado agora pela Fiocruz, mostrou que 80% das pessoas que ano passado foram intubadas nas UTIs de covid-19 morreram. A média internacional é 50%. E talvez, nos hospitais de referência de São Paulo, como o Einstein ou o Sírio-Libanês, seja uma taxa mais baixa, de 30%, 40%. Nós temos um risco do colapso da assistência, as pessoas vão morrer sem assistência na UPA. Vão morrer num centro de saúde, em casa, na porta do hospital, como resultado dessa tragédia. O Brasil vive hoje uma crise humanitária, precisa de ajuda internacional. E o presidente responde dizendo que nós estamos indo muito bem, inclusive o líder do governo na Câmara deu uma entrevista outro dia dizendo que tá tudo tranquilo, que as coisas estão ótimas. É inacreditável. É alienação, é perversão? Não sei, acho que você teria que chamar alguns psicanalistas para desvendar. Nós sempre, durante o ano inteiro [2020], se você for fazer um levantamento das lives são várias pessoas, Gonçalo Vecina, Margareth Dalcomo, Natalia Pasternak, enfim, tem muita gente boa, você vai perceber o tempo todo que é um diário de uma crônica anunciada, o diário de uma catástrofe antecipada, nós soubemos o tempo todo do grande risco. A gente sente uma grande impotência porque o Brasil teria todas as condições de ter feito diferente, nós temos um Sistema Universal de Saúde, muito mais avançado do que em países como os EUA, nós temos um sistema privado com uma boa capacidade, nós temos uma boa ciência, grandes especialistas, nós poderíamos ter conduzido o enfrentamento da pandemia de uma maneira radicalmente distinta.

IG/SÃO PAULO
Data Veiculação: 24/03/2021 às 00h00

"As vidas não esperam a morosidade de algumas decisões." É essa a lição que a enfermeira Juliana Almeida Nunes, especialista em controle de infecções do Hospital Sírio-Libanês, acha que o Brasil tem a aprender sobre a demora na vacinação no dia em que o número de mortes para Covid-19 ultrapassou a marca de 300 mil . "A gente achou que estaríamos em uma situação melhor um ano depois, mas agora parece que as pessoas relaxaram. As coisas foram se normalizando com 300 mortes, 400, 500, até nos chegarmos onde estamos. Nós já tivemos mais de 3 mil pessoas morrendo em um dia e parece que ninguém se importa", afirma Nunes. De acordo com o Conselho Nacional se Secretários de Saúde (Conass), o Brasil registrou 1.999 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas, fazendo o total subir para 300.675. Em casos confirmados, a quantidade foi de 89.414, somando 12,2 milhões de contaminações. Vale destacar, que os números não incluem as ocorrências no Amapá e no Ceará, que não atualizaram os dados por problemas técnicos. Na análise da média móvel de óbitos dos últimos sete dias no país, a quantidade desta quarta-feira (24) é 2.271. O valor é menor que o registrado ontem, que era de 2.436. Antes dessa redução, o Brasil vinha batendo sucessivos recordes que chegaram a quase um mês. "As pessoas não se sensibilizam mais. Eu já pensei muito sobre isso, se as pessoas precisam de mais informações. Só que mais informações que o que nós já estamos dando é impossível", lamenta a especialista. Apesar do cenário já crítico, a enfermeira do Sírio, lembra que a situação ainda pode piorar. Isso porque o Brasil se aproxima da época do ano em que o tempo fica mais frio e seco, período em que doenças relacionadas a síndromes respiratórias se tornam mais comuns. "Com a queda das temperaturas, as pessoas tendem a se aglomerar dentro de casa. Isso é o que a gente fala que não pode fazer, ficar em lugares fechados e pouco ventilados", diz. Pessoas que conscientizaram são insuficientes pelo que observa em seu trabalho no Sírio-Libanês, Nunes conta que existem pessoas que tomaram consciência da gravidade da situação da pandemia, mas também afirma que existem aquelas que continuam menosprezando a Covid-19. Esses pacientes, segundo a profissional da saúde, são aqueles que não tiveram pessoas próximas que passaram por situações graves ou que elas mesmas não passaram por isso. "Muita gente começou a se preocupar mais, mudar o comportamento, usar máscara e fazer o distanciamento, mas essas pessoas são muito poucas. Elas sozinhas não adianta quase nada", afirma.

METRÓPOLES/BRASÍLIA
Data Veiculação: 24/03/2021 às 15h11

O ex-deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), 64 anos, e a esposa, Mirta Fraga, 54 anos, estão internados no Hospital Santa Helena, em Brasília, após uma evolução do quadro sintomático da Covid-19. Eles receberam o diagnóstico positivo para a doença no dia 13 de março. O coronel da reserva da Polícia Militar (PMDF) deu entrada no hospital particular na última segunda-feira (22/3), dois dias após a mulher precisar ser transferida para um leito de UTI na mesma unidade onde já estava internada. Ao contrário da esposa, Fraga permanece num quarto do Santa Helena e com acompanhamento médico. Antes da internação, ele relatou um quadro de desconforto respiratório. O ex-deputado começou a sentir os primeiros sintomas no dia 11 de março, quando decidiu realizar o exame de PCR. Fraga e a esposa apresentaram tosse leve, mal-estar, fizeram exames no Hospital Sírio-Libanês e seguiram o tratamento em casa até a evolução dos quadros clínicos. Além de ter integrado o Congresso Nacional, Alberto Fraga foi candidato ao Palácio do Buriti nas últimas eleições, mas acabou derrotado. No ano passado, pela proximidade com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ele chegou a ter o nome ventilado como possível ministro da Justiça e Segurança Pública após a saída do ex-juiz Sergio Moro. O fato, contudo, não foi concretizado.

O ESTADO DE S.PAULO/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 24/03/2021 às 03h00

Estamos há cerca de um ano imersos numa crise sanitária de gravíssimas proporções, com mais de 295 mil mortos pela covid-19 no Brasil até agora. O novo coronavírus não poupou nenhuma região do País. Na virada do ano vimos um recrudescimento da pandemia em algumas regiões do País, especialmente na Amazônia, onde faltam equipes de saúde, insumos e leitos para lidar com a sobrecarga sanitária. Em poucos meses, contudo, essa realidade se repetiu em outros Estados e hoje temos um cenário que tanto tentamos evitar: faltam leitos para atender todos os que precisam. Temos de aprender com as experiências do que já vivemos, como a do Amazonas, para podermos responder mais rapidamente às demandas que temos hoje. As populações dos Estados da Amazônia foram acometidas de forma bastante severa. Há um conjunto de fatores que ajuda a explicar, em parte, essa difícil situação. Muitos desses fatores foram evidenciados pela experiência do Todos pela Saúde na região, que iniciou suas atividades em abril de 2020. Foram montados gabinetes de crise em todos os Estados como parte desse movimento, que permaneceram em funcionamento até outubro do mesmo ano, quando o número de casos já arrefecia. Em janeiro, com nova crise instalada, o Todos pela Saúde retornou à região, a pedido do Ministério da Saúde, para auxiliar nos esforços de preservação da vida. Dentre os fatores que explicam esse cenário na região, há um que é irremissível: a topografia local é um agravante no combate à pandemia. Municípios com mil quilômetros de distância entre si e grande dificuldade de acesso tornam muito mais demorada e complexa a distribuição de materiais, equipamentos médico hospitalares e oxigênio. Por isso uma das medidas que adotamos para que municípios tenham acesso mais rápido a equipamentos e insumos, e para terem maior autonomia, foi a instalação de cinco usinas concentradoras para produção de oxigênio na região. Outro fator é a falta de infraestrutura do sistema de saúde local diante das necessidades de populações que vivem em situação de extrema pobreza. Em termos per capita, o aporte feito pelo Todos pela Saúde ao Amazonas e a Roraima para a compra de equipamentos de proteção individual (EPIs) e equipamentos médicos, entre outros insumos, foi duas vezes maior que o destinado ao restante do País. A essas condições se soma ainda a pressão de uma crise humanitária de refugiados em Roraima, cujo hospital de campanha montado em Boa Vista também recebeu neste momento tão crítico, temos de juntar nossos esforços pelo futuro do País apoio do Todos pela Saúde para se tomar viável. A pandemia afetou mais criticamente os Estados que já tinham problemas estruturais, de forma que o estresse adicional na demanda provocado pela covid-19 levou os sistemas locais de saúde ao colapso. Já se sabia que esses sistemas não tinham ociosidade para receber a sobrecarga de uma pandemia. Diferentemente de cidades de outros Estados, o Amazonas e Roraima não foram rápidos na montagem de hospitais de campanha e na oferta de leitos extras para os hospitais já existentes. Da mesma forma, a falta de oxigênio que penalizou duramente a população doente de Manaus e suas famílias poderia ter sido evitada ou minimizada, uma vez que dados públicos sobre a curva de demanda já indicavam que a quantidade disponível desse insumo seria insuficiente para atender aos hospitais. Por outro lado, é importante ressaltar, instituições não governamentais que atuam há muito tempo na região foram e têm sido fundamentais para o enfrentamento da crise sanitária. O trabalho realizado por organizações como Médicos sem Fronteiras, Acnur (agência da ONU para refugiados) e Fundação Amazônia Sustentável, que conhecem profundamente as particularidades locais e com os quais atuamos nos últimos meses, ajudou a evitar que essa tragédia nacional se tomasse ainda mais grave. É preciso usar o conhecimento adquirido nesses enfrentamentos para sairmos da situação atual. Estamos vivendo replays de momentos críticos nos sistemas de saúde do Brasil. Temos de olhar as datas para ter a certeza de que não estamos lendo uma notícia do que aconteceu anteriormente. É inaceitável que depois de mais de 12 meses tenhamos de implorar para as pessoas não se aglomerarem. Precisamos focar esforços no que vai trazer resultados: informação para criar modelos preditivos e planos de ação para que não faltem leitos, equipes, medicamentos. Temos de melhorar a gestão e preparar contingências para evitar a falta de insumos básicos, como oxigênio. O momento agora é de fazer todos os esforços necessários para preservar a vida. Mas não podemos deixar de fazer o planejamento para sairmos desses replays. Para superar este momento crítico precisamos de políticas públicas mais restritivas e comunicação mais objetiva, reafirmando o importante papel de cada indivíduo em ajudar a evitar a transmissão. Num exemplo claro do que foi a iniciativa Todos pela Saúde, temos de juntar nossos esforços pelo futuro do nosso país.