Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

METRÓPOLES/BRASÍLIA
Data Veiculação: 24/01/2021 às 09h17

O ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PP), recebeu alta nesse sábado (23/1) após 11 dias internado para tratamento da Covid-19. O tratamento médico foi feito no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 24/01/2021 às 03h00

Efeitos graves são relatados por adeptos de ‘kit Covid19’ Médicos têm registrado alta de casos em que pessoas buscam assistência com sintomas geralmente causados por uso de medicamento sem prescrição. Muitas vezes, os pacientes aderiram à “terapia precoce” contra Covid19, com remédios como cloroquina e azitromicina, sem eficácia comprovada. O “kit Covid19” é estimulado por Jair Bolsonaro. Saúde B2 Médicos relatam efeitos graves da ‘terapia precoce’ para Covid-19 Everton Lope e Phillippe Watanabe são paulo Quando Edson José da Rocha, 51, recebeu o diagnóstico de Covid-19, veio junto a indicação do chamado tratamento precoce, com drogas como azitromicina e ivermectina. Quando foi internado com a doença, foi a vez da eloroquina e, logo em seguida, passou a sentir uma sensação estranha no peito. Logo depois vieram a piora e, menos de um mês após a entrada no hospital, a morte. Quem conta a história de Edson é sua irmã, Ivone Meneguella, médica intensivista de Campinas (SP). Segundo ela, o aparecimento de uma arritmia cardíaca a piora do quadro clínico ficaram claros após o terceiro comprimido de cloroquina que o irmão tomou, apesar do apelo que ela tinha feito aos médicos para não dar a droga por causa do histórico familiar cardíaco. Após o início da medicação, Edson desenvolveu grande cansaço, dores na barriga, diarréia e desidratação. “Eu sinto o me u coração bater na boca”, dizia Edson, segundo conta Ivone. O policial morreu em •26 de agosto do ano passado. Os medicamentos do "kit” do tratamento precoce da Covid-19 estimulado pelo Ministério da Saúde e pelo presidente Jair Bolsonaro podem causar arritmia cardíaca, sangramentos e inflamação no fígado, segundo especialistas. Após um ano de pandemia e dezenas de estudos, a cloroquina, a hidroxidoro quina e a azitromicina não mostraram efeito benéfico no tratamento da doença, e não há estudo convincente sobre a eficácia antiviral da ivermectina. Em nota conjunta, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Associação Médica Brasileira (AMB) afirmam que as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no tratamento precoce para a Covid-19 até o presente momento. Como escreveu Esper Kallás em sua mais recente coluna da Folha: "É compreensível que, no início, fossem adotados medicamentos sem benefício comprovado. Afinal, muitos pacientes estavam morrendo. Entretanto, há meses, temos dados suficientes para abandonar o uso dessas medicações, por provas contundentes de que não ajudam no tratamento e também podem estar implicadas em riscos adicionais não desprezíveis”. O cardiologista Bruno Caramelli, professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da USP (Universidade de São Paulo), afirma que, ainda no início da pandemia no Brasil, chegou a receber no Hospital das Clínicas da USP três pacientes com Covid-19 que estavam tomando cloroquina e tiveram arritmias graves. Segundo ele, esse tipo de arritmia é raríssimo, mas tem forte conexão com o aso do remédio. Em quase 30 anos de profissão, o cardiologista havia recebido, antes da pandemia, apenas três casos semelhantes, de pacientes que usavam eloroquina ouhidroxiclo roquina —osremédios são oficialmente indicados para doenças como lúpus e malária. “A Covid-19 pode gerar alteração cardíaca, e as pessoas ainda tomam um remédio que, além de não funcionar contra a doença, pode causar arritmia. Se tivermos o uso em larga escala da cloroquina, vamos ver dezenas de pessoas com arritmias graves", diz Caramelli. O caso de Edson não foi o ú nico que Ivone acompanhou. Trabalhando com pacientes com Covid-19, a intensivista conta que já viu um caso de encefalite (com presença de confasão mental) e outro de hepatite medicamentosa por causa do uso de ivermectina. Ainda que reações graves a remédios como a eloroquina, ivermectina e azitromicina □ Principais efeitos esperados do‘kit Covid19’ Reações são raras, mas chance aumenta com uso contínuo e/ou associado a outros remédios SULFATO DE HIDROXICLO ROQUINA ■ Lesão na retina • Hipoglicemia • Insuficiência cardíaca • Arritmias • Morte súbita CLOROQUINA ■ Cegueira • Lesão na retina • Perda auditiva ■ Insuficiência cardíaca ■ Arritmias • Distúrbios neurológicos IVERMECTINA ■ Tontura • Sonolência ■ Lesões na pele • Diminuiçãoda pressão arterial • Aumento da frequência cardíaca AZITROMICINA • Distúrbios de paladar e olfato • Disfunções auditivas ■ Arritmias • Inflamação no pâncreas • Dor abdominal • Insuficiência hepática Efeitos que podem ser produzidos por qualquer remédio em automedicação • Irritação gastrintestinal ■ Inflamação do fígado (hepatite) • Diarréia • Náuseas Fontes: EMS, Cristália, Abbott e Eurofarma Ueslei Marcelino 5.jun.2020/Reuters Profissional de saúde segura caixa de hidroxidoroquina em Portei, no Pará sejam raras, o médico Christian Morinaga, gerente-médieo do pronto-atendimento do Hospital Sírio-Libanês, afirma que desde março de 2020 houve aumento no número de pacientes que procuraram o hospital com sintomas leves e graves após tomarem medicamentos sem orientação médica. A principal causa para a automedicação é o medo da Covid-19. “Chegamos a atender pacientes com arritmia e sangramento, provavelmente causado pelo uso de medicamento sem prescrição médica”, diz. De acordo com Morinaga, há registros de manifestações mais leves também, como diarréia, náusea e alergias. “Com a população mais angustiada e a circulação de notícias falsas, ficou mais comum ver pacientes chegarem ao hospital com o efeito colateral de alguma medicação. Recebemos até pessoas assintomáticas que usam esses remédios como forma de prevenção. Não tem sido incomum observar casos mais graves, que precisam de hospitalização”, diz o médico. Raquel Stuechi, pesquisadora da Unieamp e membro da SBI (Sociedade Brasileira de Infeetologia), também afirma estar ouvindo relatos sobre hepatites medicamentosas relacionadas ao "tratamento precoce”. "Todos estão desesperados, mas temos de continuar lutando para que as pessoas não caiam no conto do vigário, que é pior. Há pessoas, médicos e autoridades veiculando uma mensagem extremamente perigosa sobre esses remédios”, afirma Caramelli. Segundo Stuechi, além de estudos não apontarem eficácia das drogas, quem as toma pode acabar achando que vai melhorar e demorar para procurar ajuda se piorar. “O risco de ter complicações com os medicamentos é baixo, mas o grande crime é desviar o foco, dizer para as pessoas que, usando os remédios, elas vão estar protegidas, podem ir para a rua, aproveitar abalada e relaxar o isolamento social”, afirma Caramelli. Segundo Morinaga, do SírioLibanês, mesmo os pacientes reumatológicos que fazem uso contínuo de hidroxidoroquina ou eloroquina precisam visitar o médico com frequência para avaliar o risco do uso prolongado das substâncias. E até remédios que têm comprovação científica de melhora da Covid-19, caso de eorticoides como a dexametasona, necessitam de muita atenção. Esse medicamento é indicado apenas para casos graves da Covid-19, precisa de monitoramento e pode fazer mal nos casos mais leves, como prejudicar as defesas do corpo, abrir caminho para alguma infecção microbiana e agravar o quadro clínico. Marcos Machado, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), diz que o aumento da automedicação nos últimos meses é perceptível, principalmente com o uso do antiparasitário ivermectina e do vermífugo nitazoxanida (Annita), ambos sem efeito contra o coronavírus Sars-CoV-2, segundo as evidências científicas mais robustas. “Em mais de2oanosdeprofissão, nunca vi incentivo oficial do governo para consumo de medicamentos dessa forma. Na história da saúde pública brasileira, sempre houve a preocupação de desestimular a automedicação. Ele diz que esse discurso gera pressões por parte da população sobre médicos e farmácias para que o remédio seja prescrito e vendido, mesmo que exija receita médica “Não é como o presidente diz, que se não fizer bem também não fará mal. Não sabemos que consequências o aso desses remédios pode ter porque nunca foram tão usados como agora. Depois é que veremos o custo para a saúde pública.”