Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus

CRESCER ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 18/10/2020 às 10h13

Saúde das crianças: cuidados no retorno à rotina (Foto: Getty) Depois de mais de 6 meses em casa por causa das restrições da pandemia de coronavírus, milhares de crianças estão retomando, aos poucos, suas rotinas e escolas de todo o país já estão reabrindo presencialmente. No entanto, depois de tanto tempo sem contato regular com o ambiente externo e com os agentes, como as bactérias, especialistas alertam que o sistema imunológico pode sofrer alterações na defesa natural. Por conta disso, é importante que essa retomada seja acompanhada de perto por pais e responsáveis. “Uma criança que está há quase seis meses sem contato regular com o ambiente externo e o convívio social reduziu o seu contato com agentes, como bactérias, por exemplo, que movimentam a defesa natural do sistema imunológico. Por isso, o retorno a essas atividades pode ser uma porta de entrada para cargas virais”, explica o pediatra Marcello Pedreira, Coordenador do Núcleo de Especialidades Pediátricas no Hospital Sírio-Libanês (SP). De acordo com o Ministério da Saúde (MS), febre, coriza e diarreia são os sintomas de quadros virais iniciais mais relatados pelos pais e comuns após o contágio por doenças como o rotavírus, um dos agentes virais mais incidentes em grupos com menos de 5 anos no mundo, particularmente nos países em desenvolvimento. “É comum que a família chegue ao consultório relatando que a criança está mais quieta, com dores na barriga e febre, sintomas clássicos de episódio virais ainda no início”, afirma o pediatra. Já para o pediatra e neonatologista Nelson Douglas Ejzenbaum, membro da Academia Americana de Pediatria, a falta de uma alimentação balanceada nesse período em casa também pode causar prejuízos à saúde. "O sistema imune é prejudicado quando a criança passa a ter uma alimentação mais pobre, com menos zinco, vitamina c e quando ingere menos coisas necessárias", alerta. PREPARAÇÃO PARA O RETORNO, Porém, Geraldo lembra que alimentação adequada e saudável pode reverter, gradativamente, essa situação. "Alimentos balanceados, com todas as vitaminas e zinco, que é encontrado em nozes e carne, por exemplo, ajuda muito", completa. O especialista também alerta quanto a falta de vitamina D. "Acredito também em um prejuízo para a perda de massa óssea, pois, as crianças não tomaram ou tomaram pouco sol nesse período e não conseguiram produzir vitamina D suficiente. Portanto, minha sugestão é que todas as crianças tomem vitamina D nesse momento de pandemia, independentemente da idade", finalizou. Já segundo Marcello Pedreira, quadros virais, como gripes ou viroses gastrointestinais, não costumam ser graves, no entanto, eles podem reduzir a imunidade e facilitar a chegada de infecções bacterianas, principalmente quando o organismo está previamente debilitado ou suscetível. Por isso, é importante que os pais realizem uma preparação para a retomada. “Um longo período em casa pode trazer algumas mudanças de hábitos que influenciam diretamente no sistema imunológico dos pequenos. É importante, neste momento, promover uma mudança de hábitos na rotina para garantir um retorno mais seguro das crianças ao ambiente escolar ou atividades externas. Recomendo que os pais levem em consideração alguns passos” relata o especialista. Veja abaixo! + ESPECIAL | Volta às aulas no “novo normal”: tudo o que você precisa saber Dieta equilibrada É importante reforçar o sistema imunológico por meio da alimentação. Isso porque o consumo excessivo de alimentos processados pode gerar uma deficiência de nutrientes, acarretando falta de disposição e enfraquecimento do sistema de defesa, além de elevar a suscetibilidade a diarreias e infecções e comprometer a maturação dos sistemas nervoso, visual, mental e intelectual. Uso de probióticos Alimentação deficiente, novos hábitos e a falta de exposição à bactérias da natureza podem provocar a mudança da microbiota intestinal — o conjunto de microrganismos e bactérias benéficas que povoam o trato gastrointestinal e colaboram para a saúde do sistema digestivo. E isso pode acarretar o desbalanceamento de toda a rotina intestinal, com episódios frequentes de diarreia ou constipação. Nessa situação, a suplementação com probióticos é uma aliada no equilíbrio da flora intestinal, fortalecendo sua defesa e de todo o organismo. No entanto, ela deve ser realizada com orientação de um pediatra. Exercícios físicos regulares muitas horas em frente à televisão e o computador trazem impactos para a saúde. De acordo com o Barômetro COVID-19, a principal pesquisa da Kantar11, desde o início do isolamento consumo de televisão pelos brasileiros permanece em patamares acima dos anteriores à crise. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças de um a quatro anos de idade devem estar ativas por pelo menos 180 minutos ao longo do dia12. A retomada de caminhadas e pedaladas são essenciais para o retorno à rotina e o controle do peso. Vitamina D A vitamina D deve estar presente na rotina das crianças para promover a fixação do cálcio, solidificando a estrutura óssea e contribuindo para o crescimento e regulação dos sistemas imunológico, cardiovascular e musculoesquelético. Portanto, banhos de sol de no mínimo 15 minutos — antes das 10h e após às 16h — são importantes para o fortalecimento da saúde e bem estar. Reforço na higiene orientar os pequenos para a higienização frequente das mãos com água e sabão é um dos pilares essenciais na prevenção de infecções decorrentes da transmissão cruzada de microrganismos multirresistentes e fundamental para o retorno ao mundo externo. Essa atitude pode reduzir em até 30% a contaminação por vírus e bactérias causadoras de viroses, que provocam o desiquilíbrio da microbiota intestinal, levando aos quadros de diarreia. + Volta às aulas presenciais: como ficam as crianças com deficiência? FILHO DOENTE, E AGORA? Se a criança apresentar sintomas como febre, diarreia e vômito, a orientação é mantê-la em casa e observar. “Isso evita a propagação do vírus e a piora de um quadro que, na maior parte das vezes, é simples. Caso não perceba uma melhora efetiva na criança em dois ou três dias, procure prontamente o médico ou serviço de saúde”, diz o pediatra. Os pais também podem fazer, sob orientação do pediatra, o controle de quadros virais simples com o uso de medicamentos analgésico e antitérmico em casa, aliado à dieta controlada e descanso.

O GLOBO ONLINE/RIO DE JANEIRO
Data Veiculação: 18/10/2020 às 04h30

RIo — Em pouco mais de sete meses, o Brasil viu os casos de Covid-19 passarem dos 5 milhões e o número de vidas perdidas alcançar a triste marca de 150 mil. O país experimenta agora uma lenta desaceleração da pandemia, tendo no horizonte as incertezas de uma possível segunda onda, do prazo para uma vacina eficaz e de como ficarão nossas rotinas em meio a esse “novo normal”. Mas uma coisa é certa: as taxas de infecção e mortalidade seriam muito maiores caso não houvesse profissionais na linha de frente da maior pandemia do século. No Dia do Médico, celebrado hoje, O GLOBO traz depoimentos de quatro deles, que vêm atendendo pacientes da Covid19 em diferentes frentes: a pneumologista Elnara Márcia Negri, pioneira ao documentar a associação do coronavírus a tromboses; o intensivista André Miguel Japiassú, que ainda se emociona com os aplausos na alta dos pacientes; o infectologista José Pozza, que não se esquece do choque ao comunicar a morte a uma família que já havia perdido cinco membros em um mês; e Yashmin Borges, que teve a formatura antecipada justamente para atuar no enfrentamento à pandemia. ‘2020 está sendo um rito de transição na minha carreira’ Médico diz ficar emocionado com a prontidão de colegas na crise: “Num tempo recorde, muitos profissionais se apresentaram espontaneamente” André Miguel Japiassú, 47 anos, intensivista e professor da Fiocruz ‘Embora eu já tenha 22 anos de profissão, 2020 está sendo um rito de transição na minha carreira, sem dúvida. Às vezes, vejo a noite cair e não percebo, porque estou atendendo ou fazendo pesquisa. Aí lembro que tenho que ir para casa. Minha esposa repete: ‘Não sei como você faz caber tudo isso num dia’. Mas é a urgência da hora. Se eu não fizer agora, não haverá outro momento. Muitas coisas me emocionam. Ver um paciente ganhando alta, por exemplo. Sabe que até hoje a despedida dos pacientes do hospital é com aplausos? Aquelas cenas que víamos no início da pandemia continuam acontecendo. Volta e meia estou passando no corredor quando ouço aplausos. Quando dou por mim, estou batendo palma também, mesmo se é um paciente que nem acompanhei. Antes (da pandemia) é que nós comemorávamos pouco. O que também me emociona é a prontidão dos profissionais de saúde, em geral. Tivemos que afastar muitos no início da pandemia, porque vários eram do grupo de risco ou então tinham ficado doentes. Mas rapidamente, num tempo recorde, muitos profissionais se apresentaram espontaneamente. Muitos de nossos ex-residentes e médicos afastados de hospital havia muito anos vieram nos procurar. Nunca vi isso, até me arrepio quando falo. Estamos hoje com uma equipe dez vezes maior do que tínhamos. Somos referência para o tratamento de várias doenças infecciosas, recebemos casos de ebola, por exemplo. E, em vez de as pessoas se assustarem e se afastarem, elas fazem o oposto. Isso me emociona muito. Duas coisas me atraíram para trabalhar em CTIs e UTIs como médico intensivista. A primeira foi que sempre me fascinou poder tratar de pacientes graves, ter a chance de impedir que eles morressem. A segunda é poder trabalhar sempre em equipe. Nenhum intensivista atua sozinho. Tenho ao meu lado enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, psicólogos... É como se estivéssemos em cima de uma rosa dos ventos, e no meio há o paciente. Essa coordenação entre diversos profissionais que cuidam do paciente que me move hoje. Trabalhar com terapia intensiva exige muita resiliência. A gente tem que dar a notícia de um óbito para uma família e, no minuto seguinte, voltar para o CTI porque há outras pessoas lutando pela vida. A especialidade de intensivista é relativamente nova no Brasil, tem cerca de 30 anos de reconhecimento, mas ela nunca foi tão necessária quanto na pandemia. A percepção da sociedade sobre o trabalho do intensivista cresceu. Antes, minha mãe tinha que explicar para as amigas o que eu fazia. Agora, já não precisa.” ‘Me formei já vendo ao menos duas mortes por plantão’ Médica lembra que pegou o diploma numa quinta — em uma cerimônia “drive thru” — e no domingo seguinte começaria no Hospital Albert Schweitzer Yashmin Borges, 25 anos, recém-formada ‘Comecei 2020 achando que concluiria o curso de Medicina em junho. A pandemia veio, no entanto, para mudar todos os planos. Com a disseminação da Covid-19 gerando um cenário cada vez mais grave, a minha formatura na Universidade do Grande Rio (Unigranrio) acabou sendo antecipada para abril. Não havia mesmo por que esperar. O diploma eu peguei numa cerimônia ‘drive thru’. Isso foi numa quinta-feira, e já no domingo seguinte eu dava meu primeiro plantão, no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, Zona Oeste do Rio. Fui encarregada de cuidar só de pacientes com Covid19. Em uma sala onde deveriam ter 15 pacientes, havia 27. A partir daí, fiz uma série do que chamamos de ‘plantões-coringa’, quando não se é funcionário da unidade de saúde, mas, sim, contratado apenas para o plantão, em geral para cobrir a ausência de algum médico. Isso acontecia com frequência porque, nos primeiros meses de pandemia, muitos médicos estavam adoecendo e precisando ficar de quarentena. Fiz ‘plantões-coringa’ na UPA do Complexo do Alemão, no Hospital Estadual Carlos Chagas e na rede particular. Hoje trabalho apenas na Clínica da Família Anna Nery, no Rocha, Zona Norte do Rio, para ter tempo de estudar para a prova de residência. O que acho mais desafiador em relação a esse vírus é a incerteza sobre como ele ataca o corpo. Em cada paciente, ele parece agir de maneira diferente, às vezes até oposta, o que me deu muita insegurança. Uma pneumonia bacteriana, por exemplo, você sabe que conseguirá um resultado bom do paciente se der o antibiótico certo. Com a Covid-19, a insegurança ainda é grande. Lembro que, nos meus primeiros plantões, ficava quase paranoica sem querer encostar em nada, porque tinha muito medo de levar o vírus para casa. Moro com minha mãe e minha avó de 80 anos. Além de idosa, ela é hipertensa. Tinha mais medo de contaminá-la do que de me infectar. Ainda bem que nenhuma das duas coisas aconteceu. Até hoje, quando volto do trabalho para casa, entro pela garagem, levando todos os meus pertences separados em sacolas, e vou direto para o banheiro. Nesses sete meses de pandemia no Brasil, acho que ainda estou meio anestesiada. Eu não senti exatamente a alegria de quem se forma, nem o medo de quem tem que começar a dar plantão em meio a uma pandemia. Já me formei vendo pelo menos duas mortes por plantão. Mas acho que a ficha ainda não caiu.” ‘Estamos trocando o pneu com o carro andando’ Desde março, Negri não tem fim de semana: “Trabalho 12, 14 horas por dia, às vezes varando a noite estudando para entender melhor essa doença” Elnara Márcia Negri, 53 anos, pneumologista do Sírio-Libanês ‘No dia 25 de março, uma paciente chegou até o Hospital Sírio-Libanês (em São Paulo) com síndrome respiratória, e, enquanto eu a atendia, um dedão do pé fez uma trombose bem na minha frente. Ali, entendi que a Covid-19 não era apenas uma síndrome respiratória grave, mas um fenômeno trombótico. Nesse caso, um tratamento com anticoagulantes, feito bem no início, podia ser a diferença entre viver ou morrer, entre recuperar a qualidade de vida ou ficar com sequelas. Pesquisando a doença, vi que aproximadamente 15% dos doentes desenvolvem trombose. Esse problema aparece, geralmente, no sexto dia da doença e pode surgir em qualquer órgão. Publiquei um estudo preliminar sobre o tratamento com anticoagulantes em 15 de abril, e essa pesquisa foi destacada pouco depois em uma edição da revista Science como uma das mais inovadoras sobre o coronavírus. Porém, antes de a publicação da Science sair, teve gente que chegou a me acusar de charlatanismo. Muitos pensavam que eu estava inventando o tratamento, querendo aparecer. O fato de eu afirmar que o novo coronavírus poderia provocar trombose era como mexer com um dogma. Aquilo acabou comigo, cheguei a pensar em abandonar a medicina. Mas aí, em maio, saiu a edição da Science definindo minha pesquisa como uma 'virada de jogo', e isso me deu respaldo, inclusive psicologicamente. Mais tarde, trabalhos de outros pesquisadores corroboraram minha descoberta. A pesquisa avançou e foi aceita para publicação, em breve, na revista Frontiers in Physiology. A sensação que tenho é de que estamos trocando o pneu com o carro andando. Em 30 anos de profissão, nunca passei por um momento tão desafiador. Cheguei a pensar em tirar umas férias mais longas neste ano, parar de atender por um tempo para descansar... Mal sabia o que 2020 nos aguardava! Desde março, não tenho fim de semana, trabalho 12, 14 horas por dia. Às vezes varando a noite estudando, tentando entender melhor essa doença. Mas o companheirismo de toda a equipe no hospital é enorme, o que é muito bonito. Ninguém solta a mão de ninguém. Já encontrei aquela mulher que atendi em 25 de março. Ela se recuperou bem, está ótima. A gente sempre brinca que foi o dedão dela que me iluminou. Eu sempre a agradeço.” ‘Cresceu a percepção de que o SUS é importante’ Segundo especialista, cotidiano da UTI mudou muito nos últimos meses: “Vejo pessoas mais jovens que eu morrendo mesmo sem fator de risco” José Pozza, 37 anos, infectologista da Fiocruz e do Hospital Clínica Grajaú ‘Uma das situações mais marcantes até agora nesta pandemia, para mim, foi quando, em agosto, tive que comunicar a morte de um paciente para sua família, e, quando terminei de falar, eles pareciam já resignados. Era o quinto familiar deles que morria de Covid-19 naquele mês. Isso me chocou muito. Trabalho como infectologista especificamente em UTI há oito anos, e o dia a dia da unidade intensiva mudou completamente nos últimos meses. Vejo pessoas mais jovens do que eu morrendo mesmo sem ter fator de risco. A cada novo estudo, vamos tentando acompanhar, nos aprimorar, para tratar melhor esses pacientes, mas o dia a dia é difícil. Há, ainda, questões práticas bem incômodas, como o fato de termos que trabalhar durante todo o tempo paramentados. Antes, usávamos capote, máscara, luvas só no momento em que estávamos dentro da UTI. Agora, esses equipamentos ficam conosco o tempo todo. Chegam muitas vezes a ferir a pele. Já fiz plantão de 24 horas, por exemplo, e, desse total, fiquei ao menos 22 horas paramentado. A exceção é apenas nos intervalos para refeição. Uma característica marcante dessa pandemia é que, além de aumentar o número de plantões, aumentou também o número de atividades dentro de cada plantão. Isso porque o paciente com Covid19 demanda vários atendimentos no mesmo dia: é preciso ajustar o bloqueador neuromuscular, verificar se melhorou oxigenação, aumentar a fração de oxigênio, reduzir a dieta. O quadro do paciente pode mudar muito rapidamente. Às vezes ele está bem e, de repente, tem uma súbita piora na coagulação, faz trombose. E temos que fazer o diagnóstico rápido, inclusive para evitar sequelas. É o momento mais desafiador da minha carreira. Fazia residência quando veio o (vírus) H1N1, que achávamos que tinha risco de virar uma pandemia, mas acabou não sendo tão forte. Nem se compara ao que estamos vivendo. Por causa da pandemia de Covid19, a percepção geral de que o SUS é importante cresceu. A rede privada não comportaria atendimento no ápice da pandemia. O SUS, mesmo com os hospitais sucateados, teve como dar um suporte, porque há protocolos muito eficientes, e os profissionais são muito gabaritados, estão acostumados a trabalhar com a adversidade a longo prazo.”

O GLOBO/RIO DE JANEIRO | Geral
Data Veiculação: 18/10/2020 às 03h00

O GLOBO I Domingo 18.10.2020 3a Edição ESPECIAL, DIA DO MÉDICO SETE MESES NO ‘FRONT’ DA COVID-19 Em pouco mais de sete meses, o Brasil viu os casos de Covid-19 passarem dos 5 milhões e o número de vidas perdidas alcançar a triste marca de 150 mil. O país experimenta agora uma lenta desaceleração da pandemia, tendo no horizonte as incertezas de uma possível segunda onda, do prazo para uma vacina eficaz e de como ficarão nossas rotinas em meio a esse “novo normal”. Mas uma coisa é certa: as taxas de infecção e mortalidade seriam muito maiores caso não houvesse profissionais na linha de frente da maior pandemia do século. No Dia do Médico, celebrado hoje, O GLOBO traz depoimentos de quatro deles, que vêm atendendo pacientes da Covid19 em diferentes frentes: a pneumologista Elnara Márcia Negri, pioneira ao documentar a associação do coronavírus a tromboses; o intensivista André Miguel Japiassú, que ainda se emociona com os aplausos na alta dos pacientes; o infectologista José Pozza, que não se esquece do choque ao comunicar a morte a uma família que já havia perdido cinco membros em um mês; e Yashmin Borges, que teve a formatura antecipada justamente para atuar no enfrentamento à pandemia. Veja depoimentos nesta e na página seguinte. André Miguel Japiassú, 47 anos, intensivista e professor da Fiocruz ‘2020 está sendo um rito de transição na minha carreira’ Médico diz ficar emocionado com a prontidão de colegas na crise: ‘Num tempo recorde, muitos profissionais se apresentaram espontaneamente’ Yashmin Borges, 25 anos, recém-formada ‘Me formei já vendo ao menos duas mortes por plantão’ Médica lembra que pegou o diploma numa quinta em uma cerimônia ‘drive thru’ — e no domingo seguinte começaria no Hospital Albert Schweitzer embora eu já tenha 22 anos de profissão, 2020 está sendo um rito de transição na minha carreira, sem dúvida. Às vezes, vejo a noite cair e não percebo, porque estou atendendo ou fazendo pesquisa. Aí lembro que tenho que ir para casa. Minha esposa repete: ‘Não sei como você faz caber tudo isso num dia. Mas é a urgência da hora. Se eu não fizer agora, não haverá outro momento. Muitas coisas me emocionam. Ver um paciente ganhando alta, por exemplo. Sabe que até hoje a despedida dos pacientes do hospital é com aplausos? Aquelas cenas que víamos no início da pandemia continuam acontecendo. Volta e meia estou passando no corredor quando ouço aplausos. Quando dou por mim, estou batendo palma também, mesmo se é um paciente que nem acompanhei. Antes (da pandemia) é que nós comemoravamos pouco. O que também me emociona é a prontidão dos profissionais de saúde, em geral. Tivemos que afastar muitos no início da pandemia, porque vários eram do grupo de risco ou então tinham ficado doentes. Mas rapidamente, num tempo recorde, muitos profissionais se apresentaram espontaneamente. Muitos de nossos ex-residentes e médicos afastados de hospital havia muito anos vieram nos procurar. Nunca vi isso, até me arrepio quando falo. Estamos hoje com uma equipe dez vezes maior do que tínhamos. Somos referência para o tratamento de várias doenças infecciosas, recebemos casos de ebola, por exemplo. E, em vez de as pessoas se assustarem e se afastarem, elas fazem o oposto. Isso me emociona muito. Duas coisas me atraíram para trabalhar em CTIs e UTIs como médico intensivista. A primeira foi que sempre me fascinou poder tratar de pacientes graves, ter a chance de impedir que eles morressem. A segunda é poder trabalhar sempre em equipe. Nenhum intensivista atua sozinho. Tenho ao meu lado enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, psicólogos... E como se estivéssemos em cima de uma rosa dos ventos, e no meio há o paciente. Essa coordenação entre diversos profissionais que cuidam do paciente que me move hoje. Trabalhar com terapia intensiva exige muita resiliência. A gente tem que dar a notícia de um óbito para uma família e, no minuto seguinte, voltar para o CTI porque há outras pessoas lutando pela vida. A especialidade de intensivista é relativamente nova no Brasil, tem cerca de 30 anos de reconhecimento, mas ela nunca foi tão necessária quanto na pandemia. A percepção da sociedade sobre o trabalho do intensivista cresceu. Antes, minha mãe tinha que explicar para as amigas o que eu fazia. Agora, já não precisa.” comecei 2020 achando que concluiria o curso de Medicina em junho. A pandemia veio, no entanto, para mudar todos os planos. Com a disseminação da Covid-19 gerando um cenário cada vez mais grave, a minha formatura na Universidade do Grande Rio (Unigranrio) acabou sendo antecipada para abril. Não havia mesmo por que esperar. O diploma eu peguei numa cerimônia ‘drive thru. Isso foi numa quinta-feira, e já no domingo seguinte eu dava meu primeiro plantão, no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, Zona Oeste do Rio. Fui encarregada de cuidar só de pacientes com Covid19. Em uma sala onde deveriam ter 15 pacientes, havia 27. A partir daí, fiz uma série do que chamamos de ‘plantões-coringa, quando não se é funcionário da unidade de saúde, mas, sim, contratado apenas para o plantão, em geral para cobrir a ausência de algum médico. Isso acontecia com frequência porque, nos primeiros meses de pandemia, muitos médicos estavam adoecendo e precisando ficar de quarentena. Fiz ‘plantões-coringa’ na UPA do Complexo do Alemão, no Hospital Estadual Carlos Chagas e na rede particular. Hoje trabalho apenas na Clínica da Família Anna Nery, no Rocha, Zona Norte do Rio, para ter tempo de estudar para a prova de residência. O que acho mais desafiador em relação a esse vírus é a incerteza sobre como ele ataca o corpo. Em cada paciente, ele parece agir de maneira diferente, às vezes até oposta, o que me deu muita insegurança. Uma pneumonia bacteriana, por exemplo, você sabe que conseguirá um resultado bom do paciente se der o antibiótico certo. Com a Covid-19, a insegurança ainda é grande. Lembro que, nos meus primeiros plantões, ficava quase paranóica sem querer encostar em nada, porque tinha muito medo de levar o vírus para casa. Moro com minha mãe e minha avó de 80 anos. Além de idosa, ela é hipertensa. Tinha mais medo de contaminá-la do que de me infectar. Ainda bem que nenhuma das duas coisas aconteceu. Até hoje, quando volto do trabalho para casa, entro pela garagem, levando todos os meus pertences separados em sacolas, e vou direto para o banheiro. Nesses sete meses de pandemia no Brasil, acho que ainda estou meio anestesiada. Eu não senti exatamente a alegria de quem se forma, nem o medo de quem tem que começar a dar plantão em meio a uma pandemia. Já me formei vendo pelo menos duas mortes por plantão. Mas acho que a ficha ainda não caiu.” Elnara Márcia Negri, 53 anos, pneumologista do Sírio-Libanês ‘Estamos trocando o pneu com o carro andando’ Desde março, Negri não tem fim de semana: Trabalho 12,14 horas por dia, às vezes varando a noite estudando para entender melhor essa doença’ José Pozza, 37 anos, infectologista da Fiocruz e do Hospital Clínica Grajaú ‘Cresceu a percepção de que o SUS é importante’ Segundo especialista, cotidiano da UTI mudou muito nos últimos meses: ‘Vejo pessoas mais jovens que eu morrendo mesmo sem fator de risco’ ■ o dia 25 de março, uma paciente wLW chegou até o Hospital Sírio-Libanês (em São Paulo) com sínLl ^B drome respiratória, e, enquanto eu a atendia, um dedão do pé fez uma trombose bem na minha frente. Ali, entendi que a Covid-19 não era apenas uma síndrome respiratória grave, mas um fenômeno trombótico. Nesse caso, um tratamento com anticoagulantes, feito bem no início, podia ser a diferença entre viver ou morrer, entre recuperar a qualidade de vida ou ficar com sequelas. Pesquisando a doença, vi que aproximadamente 15% dos doentes desenvolvem trombose. Esse problema aparece, geralmente, no sexto dia da doença e pode surgir em qualquer órgão. Publiquei um estudo preliminar sobre o tratamento com anticoagulantes em 15 de abril, e essa pesquisa foi destacada pouco depois em uma edição da revista Science como uma das mais inovadoras sobre o coronavírus. Porém, antes de a publicação da Science sair, teve gente que chegou a me acusar de charlatanismo. Muitos pensavam que eu estava inventando o tratamento, querendo aparecer. O fato de eu afirmar que o novo coronavírus poderia provocar trombose era como mexer com um dogma. Aquilo acabou comigo, cheguei a pensar em abandonar a medicina. Mas aí, em maio, saiu a edição da Science definindo minha pesquisa como uma 'virada de jogo', e isso me deu respaldo, inclusive psicologicamente. Mais tarde, trabalhos de outros pesquisadores corroboraram minha descoberta. A pesquisa avançou e foi aceita para publicação, em breve, na revista Frontiers in Physiology. A sensação que tenho é de que estamos trocando o pneu com o carro andando. Em 30 anos de profissão, nunca passei por um mo- DIVULGAÇÃO mento tão desafiador. Cheguei a pensar em tirar umas férias mais longas neste ano, parar de atender por um tempo para descansar... Mal sabia o que 2020 nos aguardava! Desde março, não tenho fim de semana, trabalho 12,14 horas por dia. As vezes varando a noite estudando, tentando entender melhor essa doença. Mas o companheirismo de toda a equipe no hospital é enorme, o que é muito bonito. Ninguém solta a mão de ninguém. Já encontrei aquela mulher que atendi em 25 de março. Ela se recuperou bem, está ótima. A gente sempre brinca que foi o dedão dela que me iluminou. Eu sempre a agradeço.” Í[“ | ■ ma das situações mais marcantes I até agora nesta pandemia, para ■ ■ mim, foi quando, em agosto, tive que comunicar a morte de um paciente para sua família, e, quando terminei de falar, eles pareciam já resignados. Era o quinto familiar deles que morria de Covid-19 naquele mês. Isso me chocou muito. Trabalho como infectologista especificamente em UTI há oito anos, e o dia a dia da unidade intensiva mudou completamente nos últimos meses. Vejo pessoas mais jovens do que eu morrendo mesmo sem ter fator de risco. A cada novo estudo, vamos tentando acompanhar, nos aprimorar, para tratar melhor esses pacientes, mas o dia a dia é difícil. Há, ainda, questões práticas bem incômodas, como o fato de termos que trabalhar durante todo o tempo paramentados. Antes, usávamos capote, máscara, luvas só no momento em que estávamos dentro da UTI. Agora, esses equipamentos ficam conosco o tempo todo. Chegam muitas vezes a ferir a pele. Já fiz plantão de 24 horas, por exemplo, e, desse total, fiquei ao menos 22 horas paramentado. A exceção é apenas nos intervalos para refeição. Uma característica marcante dessa pandemia é que, além de aumentar o número de plantões, aumentou também o número de atividades dentro de cada plantão. Isso porque o paciente com Covid19 demanda vários atendimentos no mesmo dia: é preciso ajustar o bloqueador neuromuscular, verificar se melhorou oxigenação, aumentar a fração de oxigênio, reduzir a dieta. O quadro do paciente pode mudar muito rapidamente. As vezes ele está bem e, de repente, tem uma súbita piora na coagulação, faz trombose. E temos que fazer o diagnóstico HERMES DE PAULA rápido, inclusive para evitar sequelas. E o momento mais desafiador da minha carreira. Fazia residência quando veio o (vírus) H1N1, que achávamos que tinha risco de virar uma pandemia, mas acabou não sendo tão forte. Nem se compara ao que estamos vivendo. Por causa da pandemia de Covid19, a percepção geral de que o SUS é importante cresceu. A rede privada não comportaria atendimento no ápice da pandemia. O SUS, mesmo com os hospitais sucateados, teve como dar um suporte, porque há protocolos muito eficientes, e os profissionais são muito gabaritados, estão acostumados a trabalhar com a adversidade a longo prazo.” Veja depoimentos de outros dez médicos em: https://bit.ly/346PjnA A INFECTOLOGISTA QUE VIAJOU COM A PANDEMIA A trajetória da brasileira Renata Mendonça, que começava sua residência na Itália quando eclodiu o surto de Covid-19 e hoje trabalha no projeto de uma das vacinas das pesquisas para testes de vacina. No percurso, teve a sorte de não ter se infectado pela doença. O que era para ser uma experiência individual virou também uma narrativa da pandemia e de seu impacto para a comunidade médica mundial em 2020: susto, perdas, exaustão, muita pesquisa e o orgulho de salvar vidas. Da linha de frente na Itália aos esforços, no Brasil, para encontrar uma vacina contra a Covid-19, a infectologista Renata Mendonça, de 35 anos, testemunhou várias batalhas da guerra mundial contra o vírus. Ela chegou para trabalhar como residente de Infectologia num hospital de Milão junto com o coronavírus e, depois de quase dois meses de intenso trabalho, foi repatriada ao Brasil para se juntar no combate à pandemia em Salvador poucos dias após a transmissão comunitária no país ter sido confirmada pelo governo. Desde então, ajudou a elaborar protocolos de proteção, em decorrência da inesperada experiência de campo que teve no Norte da Itália, e agora trabalha como subinvestigadora de uma DIÁRIO DE BORDO • Avanço da Diário da nanHpmia Ei médica REFLEXÃO PARAO FUTURO "A vacina é minha esperança para vencermos esse vírus e voltarmos a abraçar as pessoas. Mas, mesmo depois de provarmos a eficácia, teremos questões práticas de produção em escala e distribuição. Tenho esperança de que algo realmente mude, e não voltemos ao antigo normal" pandemia Primeiros casos de uma "pneumonia misteriosa" chegam a hospital em Wuhan, na China. Menos de um mês depois, OMS alerta sobre 44 casos da desconhecida doença relacionada a mercado de frutas da cidade chinesa Primeira morte oficial decorrente da doença, na China. No fim do mês, em 30/1, OMS declara "Emergência Internacional", e Itália confirma primeiros casos no país 8/DEZ 2019 11/JAN 2020 "Eu e minhas parceiras de trabalho todas com o rosto cansado. Endocrinologista, gastroenterologista, cirurgiã vascular, mastologista, cirurgiã plástica e geriatra: todas na linha de frente da Covid19. São todas mulheres fortes e destemi- "Primeira reunião sobre o vírus para todo o hospital. Foram detalhadas à equipe as informações disponíveis até então. Era Chegam ao Brasil os 34 brasileiros repatriados de Wuhan. Todos entram em quarentena na base militar de "Meu primeiro "Primeiro dia como previsto que a "Cheguei em Anápolis (G0). "Trens pela Itália "Muitas mudanças no dia em Milão. residente no doença chegasse Veneza. Fui Dois dias começaram a ser hospital: horários de até então, a hospital San à Europa, mas não sozinha para depois, OMS dá cancelados após visita restritos, e Covid-19 não Raffaele Turro. A com tanta força, conhecer as festas o nome de uma denúncia de pacientes com outras era uma rotina era a habitual em parte em de carnaval logo "Covid-19" infecção em um patologias que não a realidade na de uma enfermaria, virtude da no primeiro dia. para a doença passageiro. Dez Covid-19 foram Europa. Havia sem máscara nem capacidade da As pessoas ainda causada cidades da região remanejados. Desde apenas um qualquer paramen- Itália e dos seus Brasil se aglomeravam pelo novo da Lombardia e então, só internaríamos casal chinês tação. Não recursos para sanciona sem nenhuma coronavírus outra no Veneto pacientes suspeitos infectado havia pacientes evitar uma a Lei de proteção" entraram em ou confirmados em Roma" com Covid19" tragédia" Quarentena. confinamento" com a doença" 0* \ rk v rk \ álfe * v rk v rk v 0, y ? y 2 y > 2 y 2 y 2 y l/FEV 3/FEV 6/FEV 7/FEV 8/FEV 9/FEV 22/FEV 24/FEV \ "A rotina no hospital já me destruía de cansaço, e ainda entrei como subinvestigadora de uma das pesquisas para teste de vacina no Brasil. É um aprendizado diário" "Comecei a trabalhar na linha de frente contra a Covid19 em Salvador (BA). Fui procurada por planos de saúde e hospitais para ajudar na criação de protocolos de proteção à Covid19" (19/3) Itália ultrapassa o número de mortos da China. (20/3) "Todo dia mudava a paramentação, que ficava cada vez mais pesada. A máscara deixava marcas no rosto. Havia muita incerteza "Meus colegas em Salvador me mandaram mensagem de força por uma chamada de vídeo. Foi na Itália que eu perdi o primeiro paciente para a Covid. Enfrentamos um problema sério de UTI no país, e foi necessário tomar 18/OUT 1 milhão de das no combate à Decreto de quarentena em relação ao decisões difíceis mortes por pandemia" futuro. Porque sobre quem teria covid19 não! 100 mil 1 Brasil se aquilo estava acesso aos leitos" mundo mortes no 1 aproxima de São Paulo. acontecendo?" s Brasil I 10 mil mortes 0| 0, É / Ác. 0 / ■W- \ 28/SET l=| -S* 21/SET 8/AGO 23/JUL 9/MAI 4/ABR \ ■S* 22/MAR 19 e 20/MAR y h 18/MAR Primeira morte por Covid19 registrada no Brasil, um homem de 62 anos em São Paulo "Piorou muito a situação na Itália. Aumentavam novos casos e mortes. Todos trabalhavam até a exaustão. Pelo hospital, mensagens com palavras de força. Para sair na rua, era necessário um termo emitido pelo governo" 1 OMS declara pandemia "Mudava o modo de ir ao mercado. Filas com distanciamento, restrição de pessoas, álcool em gel na entrada e luvas. Chegavam ao Brasil as notícias de mercados desabastecidos da Itália. Meus amigos e família estavam preocupados. Parecia uma guerra" Confirmado o primeiro caso no Brasil, em SP. "Primeira reunião para definição de protocolos e tratamentos para Covid-19 da x ^ Lombardia, com base nos diversos tratamentos empíricos testados pelos chineses. Também decidimos pela suspensão dos ambulatórios e de outras atividades no hospital" 17/MAR 11/MAR 28/FEV 26/FEV Editoria de Arte O GLOBO I Domingo 18.10.2020 3a Edição Sociedade 19 LUTA POR DIVERSIDADE NA PROFISSÃO Pretos e pardos ocupam menos de 1/3 das vagas nos cursos de Medicina e buscam suporte em coletivos O “Não temos médicos nas nossas famílias, não vivemos em um meio social com outros médicos. Então é importante que a gente tenha pessoas a quem recorrer” “Às vezes, faço uma prescrição, e a pessoa vai a outro médico, branco, para confirmar. Penso ‘será que não confiou porque sou negra? Por que sou mulher?’” Monique França, médica e fundadora do Coletivo Negrex A médica Monique França, 31 anos, atendia uma idosa no Jacarezinho, região periférica da cidade do Rio, na Zona Norte, quando de repente ouviu a mulher dizer: “Fico muito feliz de ver pessoas como a gente sentadas no lugar em que você está”. A paciente era negra, assim como Monique. A médica de família e comunidade não esquece essa frase: — Chorei muito. Aquela mulher resumiu ali nosso sentimento ao conseguir ocupar espaços que não são aqueles pré-designados para a gente. Foi para enfrentar o racismo e o classismo que historicamente rondam a Medicina, tida como “profissão de elite”, que Monique e amigos fundaram em 2015 o Coletivo Negrex. O grupo reúne estudantes de Medicina e profissionais negros, funcionando como uma rede de suporte, troca de experiências e de contatos. Hoje, o coletivo soma cerca de 500 membros de vários estados do país. — O coletivo foi pensado como um espaço de reconhecimento e de apadrinhamento também — destaca Monique. —Não temos médicos nas nossas famílias, não vivemos em um meio social com outros médicos. Então é importante que a 50,3% de alunos no ensino superior da rede pública são negros Em 2018, pretos e pardos viraram maioria, considerando-se todos os cursos de graduação, segundo IBGE 28,9% é a presença de pretos e pardos na graduação de Medicina Percentual é menor que em outros cursos de prestígio, como Direito e Engenharias, mostra a Semesp gente tenha pessoas a quem recorrer, de quem receber orientação. E se fortalecer psicologicamente. Porque a gente se depara com várias cenas de racismo, e chega uma hora em que cansa ter que se colocar o tempo todo no lugar de quem reclama, reivindica. COTAS VIRARAM O JOGO Em 2018, pela primeira vez, os negros ocuparam a maioria (50,3%) das vagas em instituições de ensino superior da rede pública, de acordo com a pesquisa “Desigualdade Social por Cor ou Raça no Brasil”, divulgada em fins do ano pas- FOTOS ARQUIVO PESSOAL * q 1 w Apoio. A médica Monique França sado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os fatores que tornaram essa marca possível, segundo o próprio instituto, está uma série de políticas públicas e de ações afirmativas adotadas a partir dos anos 2000, como o sistema de cotas, que reserva vagas em universidades e institutos federais a candidatos de determinados grupos populacionais. O relatório do IBGE também destaca a expansão, na rede privada, dos financiamentos estudantis, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (Prouni). No entanto, em cursos mais concorridos, a presença de negros ainda é pequena. Em Medicina, apenas 28,9% dos estudantes se autodeclaram pretos ou pardos, segundo levantamento da Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação (Semesp). O número é baixo mesmo se comparado a outras profissões de prestígio, como Direito e Engenharias (ambas com 41,8% de estudantes negros, cada uma). A história de Monique é parecida com a da grande maioria de seus poucos colegas de profissão negros: filha de uma empregada doméstica e um caminhoneiro, ela foi a primeira da família a ter curso superior — e logo em Medicina, a carreira mais disputada. Mas os desafios, relacionados a um racismo estrutural, são frequentes. —Uma vez, estava fazendo um atendimento junto com uma amiga branca. A acompanhante do paciente parabenizou apenas a minha amiga por estar fazendo Medicina. Presumiu que a futura médica ali era só ela —lembra Monique. —Às vezes, faço uma prescrição, e a pessoa vai a outro médico, branco, para confirmar. Penso “será que não confiou porque sou negra? Por que sou mulher? Por que não passei um milhão de exames?” Os fatores se acumulam. Foi para conseguir dar mais atenção à população negra e periférica, em geral negligenciada, que ela escolheu ser justamente médica de família. —Assim consigo dar um retorno da educação que recebi para pessoas que são como eu —diz ela, que é formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Coletivo Negrex. Rede de suporte reúne mais de 500 estudantes de Medicina e profissionais negros OS MAIORES LEGADOS PARA O DIA A DIA MÉDICO Uso amplo de EPIs, telemedicina e a valorização do conhecimento científico vieram para ficar Apandemia de Covid-19 trouxe grandes transformações para o cotidiano médico, e algumas deixaram legados que devem ser incorporado permanentemente à prática, dizem os próprios profissionais ouvidos pelo GLOBO. O uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) em todas as etapas de atendimento é um deles. A necessidade de proteção contra o novo vírus fez com que fosse adotado um protocolo rígido de paramentação que incluía a retirada quase cirúrgica dos equipamentos para evitar o contágio. Pós pandemia, o procedimento deverá continuar, sobretudo em prontos-socorros, para proteger os profissionais não apenas do coronavírus, mas também de outros agentes infecciosos transmitidos pelo ar. Além disso, durante a crise da Covid-19, também ocorreu a consolidação da telemedicina, autorizada no país em caráter emergencial no começo da crise. A consulta remota foi aliada, inclusive, na triagem de quem, diante dos sintomas da Covid19, deveria ou não procurar um pronto-socorro no auge da pandemia. — Embora não substitua a medicina presencial, a telemedicina complementa e facilita o acesso, resolvendo muitas coisas e direcionando de maneira muito mais racional aquilo que precisa ir para a consulta presencial — HERMES DE PAULA destaca Rubens Belfort Junior, presidente da Academia Nacional de Medicina, que lembra ainda que a modalidade pode economizar tempo e dinheiro tanto de profissionais quanto de pacientes. Presidente do Cremesp, Irene Abramovich faz um alerta sobre excessos na prática: — A medicina não pode ser exercida o tempo todo via internet, porque é uma relação humana, de ouvir e examinar o paciente. A confiança e busca por orientação da ciência, com suas descobertas quase em tempo real, foram destacadas pelo patologista Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do laboratório Richet, como outro grande avanço nos últimos meses: — Nunca se teve tão rápido uma descrição de uma doença como tivemos sobre a Covid19. Toda a comunidade científica, dos laboratórios e das pesquisas trabalharam bastante. A relação médico-paciente também foi transformada nos últimos meses. Os profissionais de saúde se tornaram o apoio emocional dos pacientes internados em isolamento e a ponte com as famílias, que não podiam estar presentes. Muitos são os relatos de pacientes que ficaram próximos de seus médicos após superarem grandes dificuldades. Remoto. Cristiane Simões, dermatologista do grupo Iron, analisa prontuário de paciente durante teleconsulta PRESENTE EFUTURO DA MEDICINA EM DEBATE 0 GLOBO promove, com apoio da Afya, amanhã, a partir das 9h, dois debates on-line sobre o presente e o futuro da medicina, como parte das comemorações do Dia do Médico. Especialistas da área de saúde estarão nos dois encontros virtuais, que serão transmitidos nas redes sociais do GLOBO (facebook.com/jornalo- globo e youtube.com/jornaloglobo) e no site do jornal (oglobo.globo.com). Informações e inscrições pelo site diadomedico.oglobo.com.br. 9h: O novo médico com o tema "0 novo médico", o primeiro debate virtual vai tratar da incorporação das novas tecnologias e das novas habilidades que os profissionais devem desenvolver, além dos novos protocolos adotados. Participam: Dr. Alexandre Siciliano, diretor médico do hospital Pró-Cardíaco; Natasha Slhessarenko Fraife Barreto, conselheira do Conselho Federal de Medicina; Romeu Domingues, cochairman do ConselhodaDasa;eJúliodeAngeli, VP de Inovação e Serviços Digitais da Afya. llh: Saúde mental no segundo encontro, o debate será sobre como melhorar, no cenário atual, a rede de apoio aos médicos, submetidos cada vez mais a jornadas extenuantes. Participam: Patricia Rocco, professora titular e chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar do IBCCF/UFRJ e membro da Academia Nacional de Medicina e Brasileira de Ciências: Suzana Lobo, presidente da Associação Médica Intensiva Brasileira; Eduardo Moura,cofundadorda PEBMED; e Walter Palis, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro. O SUSTO DE SE VER COMO PACIENTE Especialistas relatam momentos de tensão e ansiedade quando se infectaram pela Covid-19, situação que se repetiu em outros 361 mil contágios e 332 óbitos de profissionais da saúde no país, segundo o Ministério da Saúde Q “Meu maior medo era perder o controle que eu achava que tinha. Cheguei a ligar para casa, falei com a família que ficaria um tempo sem dar notícias. Esse momento foi crítico” Cesar Medeiros, cardiologista “Durante a doença, pensava que, se acontecesse algo, eu seria tratado pelos meus colegas. Ter ia um porto seguro. Mas eu tinha medo” Bruno Bussade, cardiologista e intensivista enquanto travava uma guerra diária contra a Covid-19 na emergência de um hospital de Salvador, a médica Moema Quintana viu, em maio, a própria mãe se contaminar pelo coronavírus e desenvolver crises convulsivas, sintomas respiratórios e um quadro neurológico. O pai, os irmãos e ela também acabaram se infectando. O quadro da mãe evoluiu, levando a uma internação de 28 dias em estado grave. Uma tia não resistiu. Com o susto na família aparentemente controlado e a mãe já em casa, em agosto a cirurgiã de 38 anos voltou a sentir alguns sinais da Covid-19. Só que mais intensos. Vieram os mesmos sintomas de colegas e pacientes: a fadiga, a falta de ar e a perda do paladar, até hoje não recuperado. Moema, hoje de volta ao trabalho, pode ter sido uma das raras pessoas reinfectadas pelo vírus, e seu caso está sendo estudado em São Paulo. — Na primeira vez, fiquei tranquila, porque a necessidade de manter a cabeça fria falou mais alto. Mas, na segunda, eu pensava: será que vou ser internada, como minha mãe e meus colegas? Você fica tenso e ansioso. A preocupação é viver apenas aquele dia —relata a médica, cujo marido e filha de apenas 1 ano também se contaminaram quando Moema teve sua aparente segunda infecção. —A gente acaba ficando com medo ao ver os colegas sendo internados e fica assustado com os óbitos na classe. Assim como a cirurgiã, tantos outros profissionais da saúde pelo mundo sentiram na pele o que era passar à posição de paciente num piscar de olhos. No Brasil, já foram 361.219 casos confirmados e 332 óbitos por Covid-19 em profissionais da saúde, segundo dados do Ministério da Saúde até 10 de outubro — do total, 38.310 contágios e 65 mortes foram em médicos. CONSCIÊNCIA DOS RISCOS Foi este o caso de Cesar Medeiros, cardiologista intervencionista que atua em três hospitais do Rio de Janeiro. Em abril, ele passou nove dias internado em terapia intensiva. — Cogitou-se que eu teria que ser sedado e intubado. Meu maior medo era perder o controle que eu achava que tinha. Cheguei a ligar para casa, falei com a família que ficaria um tempo sem dar notícias. Esse momento foi crítico. Mas conseguimos ARQUIVO PESSOAL Sintomas que voltaram. A cirurgiã Moema Quintana (de uniforme branco, à direita) teve suspeita de reinfecção por Covid-19, e seu caso é estudado em São Paulo sar aquela noite e, no dia seguinte, comecei a melhorar —relatou Cesar, de 50 anos. Apenas cinco dias depois de receber alta, o médico cruzava de novo as portas dos hospitais. Mas daquela vez para curar depois de ser curado: — Comecei a exercer funções que não eram minhas. Voltei a dar plantões, algo que não fazia havia muitos anos. Em uma semana, passei de paciente a trabalhador da saúde. Para Bruno Bussade, médico da Casa de Saúde São José no Rio, a volta ao trabalho foi um susto. Ele se contaminou logo no início da pandemia no Brasil, quando os conhecimentos sobre o vírus e os casos no país ainda eram mais escassos. Mas, no fim do seu isolamento, as notícias já demonstravam que a explosão de casos ainda estava por vir. —Durante a doença, pensava que, se acontecesse algo, eu seria tratado por colegas. Teria um porto seguro. Mas eu tinha medo —relata o cardiologista e intensivista de 40 anos. — Quando voltei do isolamento, fiquei assustado, pois pulamos de dois para quase 15 pacientes internados por Covid19. Para José Alexandre Araújo, urologista de 42 anos também infectado no início da pandemia, a consciência de médico sobre os riscos que corria produziu ansiedade. Quando os sintomas de dor de cabeça, febre alta e a perda de cinco quilos não deixavam dúvidas, ele foi ao hospital, pagou as contas e deu suas senhas para a mulher, temendo ser intubado. Ele pôde, no fim das contas, se recuperar em casa. E, apesar dos meses seguintes terem sido duros ao ver “muita gente morrer”, José conseguiu transformar sua experiência numa ferramenta de cuidado: — Hoje conto aos pacientes que tive a doença. Você entende quem passou pela falta de ar, pelo cansaço e consumo de energia. Só quem teve sabe. Editor Responsável: Eduardo Graça Edição: Flavia Martin Repórteres: Clarissa Pains, Heloísa Traiano e Evelin Azevedo Diagramação: Nel Figueiredo Fotógrafo: Hermes de Paula.