Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus

EXTRA ONLINE/RIO DE JANEIRO
Data Veiculação: 18/09/2020 às 04h30

Em uma cerimônia nesta semana, o Papa Francisco pediu que as pessoas mantenham os cuidados com os mais velhos durante a pandemia da Covid-19, lembrando que há o “hábito feio de deixar os idosos de lado, abandoná-los”. Desde o início da maior crise sanitária da História, em março, os idosos têm sido apontados como principal grupo de risco. No começo, o pedido era para que o isolamento deles fosse total. Seis meses depois, porém, o vírus continua a circular, e especialistas concordam que a rotina dos mais velhos não permite que eles continuem trancados em casa por mais tempo. — O que falamos em março é impraticável quando uma pandemia fica endêmica, como no Brasil. A doença não passou, mas não podemos ter o mesmo olhar porque é muito tempo. O idoso não pode ficar sem fisioterapia, exames e contato. É preciso equilíbrio. Flexibilizar com consciência, entendendo quem é esse idoso, porque há os saudáveis e outros muito frágeis — diz a geriatra Maísa Kairalla, presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Algumas regras continuam valendo até que todos os brasileiros estejam vacinados: máscaras, higienização frequente das mãos e distanciamento social. Por outro lado, agora há outros aspectos a serem considerados. — Além de medidas para evitar contágio e transmissão, temos que encarar outras questões como o descontrole de doenças crônicas. Isso é comum em idosos e pacientes com comorbidades, que não voltaram ao médico, não refizeram exames. É preciso retomar o cuidado com as doenças crônicas — frisa o geriatra Fábio Olivieri, do Hospital Sírio Libanês (SP). Os riscos da retomada do convívio social uma questão mais delicada na pandemia é a retomada do convívio social, principalmente com a família. Segundo o geriatra Fábio Olivieri, a falta de contato com outras pessoas aumenta o risco de depressão e o avanço de doenças, como demência ou Alzheimer. Ele lembra que qualquer pessoa próxima pode estar assintomática ou com formas leves da Covid-19 e contaminar o idoso. — Mesmo quando vai se retomar o contato, dá para manter algum grau de distanciamento — afirma Olivieri, que sugere trocar os almoços de família, por exemplo, por encontros numa praça, com todos de máscara: — Não existe risco zero, mas há um risco mais tolerável, encontrar um meio termo, encontros em ambientes abertos, com máscara. A jornalista Teresa Alonso, de 67 anos, se manteve isolada em casa nos últimos meses. Mas vai retomar duas atividades importantes na sua vida: os exercícios físicos e os encontros com a filha: — Ela falou que a partir da semana que vem vamos caminhar pelo bairro. No começo ela raramente vinha na minha casa e ficava na porta, a 2m de distância. Agora ela vem, mas a gente não se abraça, nem se beija, e fica de longe, de máscara — observa Teresa Receba a newsletter do Extra Raio-x do coronavírus cadastrar.

CARTA CAPITAL/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 18/09/2020 às 03h00

CAPA Cápsula ou seringa ALÉM DAS VACINAS, OS CORTICOIDES ANTIVIRAIS SURGEM COMO ALTERNATIVA PARA O COMBATE AO CORONAVÍRUS por THAIS REIS OLIVEIRA A interrupção dos testes da vacina desenvolvida por cientistas italianos e produzida pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford foi breve: durou apenas sete dias. Embora suspensões desse tipo sejam comuns em pesquisas dessa monta, acendeu o sinal amarelo em relação às expectativas mundiais por uma vacina contra o coronavírus. Quanto maior a fadiga com o isolamento social, mais cresce a ansiedade pelo dia de ir até um posto de saúde próximo, erguer a manga da camisa e ficar livre da doença. Há, porém, muitas questões em aberto. Quem serão os primeiros a recebê-la? Quanto tempo durará o efeito imunizador? Quantos serão protegidos? Uma única dose será suficiente? De olho nos dividendos eleitorais, muitos políticos prometem uma vacina no fim do ano. As perspectivas da Organização Mundial da Saúde, contudo, são bem mais modestas: só a partir de 2022, estima-se, teremos uma parcela significativa de imunizados. Diante da realidade, é razoável não apostar todas as fichas na seringa. Em entrevista a CartaCapital em agosto, a médica Mariângela Simão, diretora-geral-assistente da OMS para vacinas e novos medicamentos, destacou a importância da busca de alternativas. "Ahumanidade vai conviver com este vírus por mais algum tempo. Ao menos até que tenhamos três coisas. A primeira, testes rápidos, baratos e que funcionem. A segunda, um medicamento: precisamos de uma droga para impedir que se morra pelo coronavírus. Essas coisas precisam caminhar juntas.” MAIS DE 150 MEDICAMENTOS ESTÃO EM TESTE NO MUNDO, A MAIORIA NOS ESTÁGIOS INICIAIS DE PESQUISA Há mais de 150 medicamentos em teste no mundo. Alguns acumulam evidências de eficácia, mas a maioria ainda está nos estágios iniciais de pesquisa. Esses estudos podem ser divididos em três grandes frentes: antivirais que atacam a capacidade do coronavírus de se desenvolver no organismo, drogas que acalmam o sistema imunológico e anticorpos retirados do plasma sanguíneo dos sobreviventes. Até agora, a mais promissora delas pertence ao segundo grupo. E a dexametasona, corticoide usado há décadas para aliviar inflamações e tratar doenças que requerem controle da resposta imune, como a artrite reumatoide, alergias e asma. Cientistas sabem que os casos mais graves da Covid-19 estão relacionados a uma resposta inflamatória que atinge todo o organismo. E como se, para combater o frio, o morador de uma casa ateasse fogo nos móveis. Até aqui, a dexametasona só tem, no entanto, demonstrado benefícios a pacientes em estado crítico. O estudo Recovery, conduzido pela Universidade de Oxford em parceria com o governo britânico e a Fundação Gates, indicou que a dexametasona reduziu em 35% as mortes em pacientes ventilados e em 20% entre aqueles que receberam apenas oxigênio. No Brasil, uma pesquisa conduzida pelos hospitais Albert Einstein, H Cor, Sírio-libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa reforçou o efeito benéfico: pacientes em estado grave que receberam a droga ficaram seis dias sem respiração artificial. Os que não receberam, quatro. Outro medicamento potencial é o remdesivir, antiviral da Gilead testado, sem sucesso, contra o ebola e a hepatite C. Primeiro remédio contra a Covid-19 a ser aprovado pelo FDA dos Estados Unidos, o remdesivir é promissor, mas carece de evidências mais robustas. Uma pesquisa patrocinada pela Gilead concluiu que a droga pode encurtar o tempo até a melhora clínica e, com isso, diminuir a mortalidade, mas não teve efeito sobre a necessidade de intubação nem sobre o período 16 cartacapital.com.br MICHAEL DANTAS/AFP E D AVI D B E NI TO/1STO C K PH OTO de internação hospitalar. Um estudo posterior não apontou nenhum efeito na redução da mortalidade. Na segunda-feira 14, a farmacêutica Eli Lilly anunciou que um anti-inflamatório lançado em 2017, o baricitinibe, reduziu o tempo de internação de pacientes em estado grave. Mas o estudo não foi revisado por pares nem apresenta benefícios tão grandiosos. Os mil pacientes da pesquisa foram divididos em dois grupos: um recebeu remdesivir e o outro a nova droga. Neste segundo grupo, houve redução de mais um dia no tempo de internação. Em tempos habituais, a busca pela cura seria diferente. “Geralmente, as primeiras fases de pesquisas duram um ano, dois anos. Isso só para descobrir as potenciais substâncias”, explica Carina Carvalho Silvestre, professora-adjunta do departamento de Farmácia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Para ganhar tempo contra a Covid-19, descreve, as farmacêuticas e os cientistas têm apostado em medicamentos existentes. Esse cenário também abre caminho à pseudociência, agora impulsionada pela ultradireita no poder. A dexametasona é uma das apostas dos cientistas para reduzir as mortes O exemplo mais evidente é o da cloroquinae da sua versão mais light, a hidroxicloroquina. Incensado por Donald Trump e Jair Bolsonaro, o antimalárico passou por estudos científicos padrão-ouro em todo o mundo. Nenhum deles sugeriu qualquer eficácia da droga contra a doença. Entre engodos e descobertas, nesses quase dez meses de pandemia a medicina e a ciência têm aprendido com a doença. Nos hospitais, as técnicas de tratamento hospitalar se aperfeiçoam. Algumas são relativamente simples, como manter os pacientes de bruços por algumas horas. “Isso auxilia na proteção pulmonar e na oxigenação inclusive em pacientes não entubados”, aponta Fábio Rodrigues, fisioterapeuta especializado em recuperação cardiorrespiratória do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “No início, havia a recomendação de entubação quase imediata, mas com o tempo percebemos que podemos usar outros recursos ventilatórios.” No HC, os pacientes em terapia intensiva ficam em média 11 dias internados. Para contornar essa crise, será necessária uma gama cada vez mais ampla de terapias. “Sozinhos, os medicamentos não conseguem conter epidemias”, avalia Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP. “As soluções não farmacológicas foram decisivas na redução de casos de tuberculose, malária, esquistossomose..., mas os medicamentos são importantes para os indivíduos.” Diante dos repiques de casos, embora menos letais, e da aparição de um número pequeno, mas crescente de reinfecções, é ilusão sonhar com uma cura a jato. Talvez nunca se tenha uma “cura”: não há para gripe, o resfriado e outras infecções semelhantes. Um tratamento eficaz pode não ser suficiente para derrotar o vírus, mas tornaria a doença mais branda. Além da razão óbvia de salvar vidas, um remédio eficaz pode aliviar as rígidas restrições à circulação e o contato entre os seres humanos. Passados 37 anos da descoberta da Aids, a vacina contra a doença não saiu do papel. A ciência foi, no entanto, capaz de desenvolver coquetéis que controlam o vírus e impedem o avanço da doença, garantindo não apenas sobrevivência, mas qualidade de vida aos infectados. No caso da tuberculose, doença infecciosa, respiratória e mortal como o coronavírus, o tratamento via remédios contribuiu para reduzir o contágio da doença: em 2018, o Brasil teve 36,2 casos para cada 100 mil habitantes ante 51,3 em 1990. • CARTACAPITAL 23 DE SETEMBRO DE 2020 17

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 18/09/2020 às 03h00

Saúde coronavírus toquem os olhos diretamente, prevenindo assim que o vírus seja transferido das mãos para os olhos”, afirmam os cientistas no texto. Um artigo publicado por pesquisadores da Finlândia em 2017, no periódico The Open Ophthalmology Journal, mostrou que há abundância do receptor ECA2 nos olhos, o mesmo que o novo coronavírus usa para se conectar com a protema em forma de espinho a iniciar a infecção nas células humanas. Médicos de diversas partes do mundo têm relatado sintomas nos olhos de pacientes, como conjuntivite, que podem estar relacionados à infecção pelo Sars-CoV-2. Um estudo publicado em março, também na revista JAMA Ophthalmology, demonstrou a presença do vírus na conjuntiva (mucosa dos olhos) de infectados. Estimativas de dentistas apontam que até 12% dos doentes podem ter algum sintonia nos olhos. Segundo Émerson Castro, oftalmologista do Hospital Sírio-Libanês, as manifestações causadas pela Covid-19 nos olhos são pouco frequentes e geralmente mais brandas do que as geradas por outras viroses que atingem o órgão. Há a possibilidade do aparecimento de uma lesão na retina, imperceptível para os pacientes e sem consequências graves, mas que pode também estar ligada ao Sars-CoV-2. Há ainda indícios de que, a partir dos olhos, o vírus pode ser transportado para a mucosa nasal e dar início a uma infecção respiratória. Em um comentário publicado também pela JAMA Ophthalmology sobre o artigo dos pesquisadores da China, a infeetologista Lisa Maragakis, da Universidade Johns Hopkins, aponta algumas limitações do estudo, como o númeUso diário de óculos pode proteger do vírus, diz estudo Artigos científicos sugerem que olhos são rota para infecção pelo Sars-CoV-2 Pessoas usam proteção nas Filipinas, que teve 3.550 casos de Covid na quarta Roueiie umaii/xinhua Everton Lopes Batista são pau lo Pessoas que fazem o uso diário de óculos por longos períodos estão menos expostas à infecção pelo novo coronavírus, segundo um estudo divulgado na quarta-feira (16) na revista científica JAMA Ophthalmology, publicada pela Associação Médica Americana (AMA). No artigo, pesquisadores de instituições de saúde e pesquisa da China descrevem um estudo feito com um grupo de 276 pacientes hospitalizados com a Covid-19 na cidade de Suizhou, próxima a Wuhan, na provínda de Hubei, marco zero do coronavírus. Dos internados, apenas 16 (5,8%) usavam óculos por mais de oito horas por dia, todas pelo mesmo motivo: miopia. Na província de Hubd, cerca 31,5% das pessoas com a idade média dos participantes da pesquisa (42 a 57 anos) são míopes, segundo o estudo. Para os cientistas, a menor proporção de usuários de óculos entre os internados com Covid-19 sugere que a proteção dos olhos, além das máscaras que resguardam nariz e boca, pode ajudara evitar a infecção. Os pesquisadores afirmam que o estudo não é conduzido e que mais pesquisas sobre o tema devem ser feitas. “Desde o início do surto de Covid-19 em Wuhan, em dezembro de 2019, percebemos que poucos pacientes que usavam óculos deram entrada no hospital Assim, coletamos informação sobre o uso de óculos de todos os pacientes com a doença como parte do histórico médico e usamos esses dados para examinar a relação entre o uso de óculos e a infecção da Covid-19”, escrevem os autores no artigo. O estudo contou com pacientes que ficaram internados entre janeiro e março deste ano, período em que as taxas de transmissão do SarsC0V-2 na China ainda eram altas. Todos os participantes tiveram o diagnóstico de Covid-19 confirmado por teste do tipo PCR, que detecta a infecção na fase aguda. “Nossa hipótese é que os óculos evitam que as pessoas do pequeno de participantes e os dados sobre a presença da miopia na população geral, coletados décadas atrás e que podem estar desatualizados. Mesmo assim, a infectologista admite que o uso dos óculos pode oferecer proteção às pessoas. “Embora os óculos não forneçam a mesma proteção que os óculos de segurança ou os escudos faciais, eles podem servir como uma barreira que reduz a inoculação do vírus, semelhante ao que as máscaras de tecido fazem”, afirma Maragakis. “O estudo é provocativo, e levanta a possibilidade de que ouso de uma proteção ocular pela população geral possa oferecer algum grau de proteção contra a Covid-19”, completa. Para Castro, do Sírio-Libanês, a hipótese levantada pelo artigo é plausível. “Em média, tocamos os olhos cerca de dez vezes por hora, e os óculos podem funcionar como uma defesa contra esse toque”, afirma. O oftalmologista alerta para cuidados que devem ser tomados por quem usa os óculos para diminuir os riscos de contaminação. “Devemos evitar tocar os óculos o tempo todo, principalmente quando estivermos na rua e com as mãos não higienizadas”, diz. “Em locais públicos, os óculos estão expostos à contaminação, e depois trazemos para dentro de casa. Assim como limpamos o corpo com um banho, é importante lavá-los na torneira, com água na temperatura ambiente e sabão”, sugere o médico. O embaçamento das lentes causado pelas máscaras também não deve impedir o uso dos óculos na rua, segundo Castro. “Basta colocar um esparadrapo prendendo a máscara na região do nariz para evitar a saída do ar quente que embaça as lentes.”

CORREIO BRAZILIENSE/BRASÍLIA | Outros
Data Veiculação: 18/09/2020 às 03h00

Toda confiança à ciência »entrevista GUSTAVO FERNANDES, diretor-geraLdoSírio-Libanêsem Brasília Desconfianças em relação às descobertas científicas e um crescente movimento anti vacinas são alguns dos principais obstáculos dados pela medicina atua e isso atrapalha, inclusive, na luta contra o câncer. É o que explicou o médico Gustavo Fernandes, diretor-geral do Sírio-Libanês em Brasília, em entrevista, ontem, ao programa CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TVBrasília. “Ver alguém desconfiar de uma ciência que fez com que a estimativa de vida da população mais ♦ A desconfiança em relação à ciência esteve muito clara na pandemia, as pessoas começam a desconfiar também da vacina. Na sua especialidade, essa * dúvida das pessoas atrapalha, também? Essa é uma das coisas mais dolorosas que a gente consegue enxergar, é essa questão da vacina, inclusive na minha especialidade. * As vacinas reduzem a morte por câncer, também. O câncer de colo que dobrasse em 100 anos é algo assombroso”, declarou o oncologista. Ele ressaltou que os avanços no tratamento permitiram que a mortalidade geral por câncer reduzisse de 80%, há diferença de 40 anos, para apenas lm2e0n%te dos casos, hoje. Casos como o de adultos jovens, como o astro de Hollywood Chadwick Boseman, são raros, embora muito impactantes, explicou o médico. E o estilo devida e o rastreio correto do câncer podem fazer a diferença. 'As pessoas precisam entender que uma parte da solução do problema está com eles. Está na prevenção”, afirmou. de útero que mata mais de cinco mil mulheres por ano no Brasil é prevenível por uma vacina, uma vacina contra o HPV que o governo provê. Essa é uma das boas coisas que o Brasil tem, programas de vacinação. Então, vacinas para hepatite B reduzem incidência de câncer do fígado. Então, ver alguém desconfiar de uma ciência que fez com que a estimativa de vida da população mais que dobrasse em 100 anos é algo assombroso. Querer voltar para o passado é, de fato, algo assombroso. É uma questão impressionante porque os avanços da medicina são evidentes nos últimos anos... Hoje, a regra do meu dia a dia é atender septuagenários no consultório. Ninguém quer ir para o plano espiritual agora. As pessoas estão vivendo muito e vivendo bem. Isso, naturalmente, graças a uma série de avanços sociais, novas regras e, também, à prática da boa medicina. Na oncologia, especificamente, a gente tem muita notícia boa para dar. As notícias boas desde que a oncologia começou, há 40 anos, elas não param de aparecer. Nós desenvolvemos uma série de tratamentos para o câncer. O uso de cirurgias, e cirurgias melhores, foi muito impulsionado nos últimos anos. Métodos que diagnosticam tumores mais precoces, programas de rastreamento para algumas doenças, para câncer de pulmão, câncer de mama, câncer de próstata— reduzindo as chances de os indivíduos morrerem. Desenvolvimento de terapias que, na época, 40 anos atrás eram novas, como quimioterapia, depois, imunoterapia, terapias alvo, que vêm fazendo com que a mortalidade por câncer reduza ano após ano, mais ou menos 1% por ano. O câncer é uma doença que matava 80% das pessoas, passa, hoje, a matar 20% das pessoas que adquirem câncer. Então, hoje, a chance de alguém se curar é muito maior do que a chance de alguém morrer de câncer. Mas, ainda somos surpreendidos por casos como o do astro de Hollywood, Chadwick Boseman, uma pessoa rica, esclarecida, que morreu de câncer colorretal. Ainda é perigoso. O que as pessoas devem concluir de casos como esse? Essa é uma exceção. Eu tive a oportunidade de analisar 500 casos de pacientes com menos de 50 anos com câncer colorretal, a gente não percebe nenhuma característica específica neles que façam o tumor aparecer, salvo histórias familiares muito significativas, o que se associa à síndrome genética, e em outras, casuísticas, a gente vê obesidade como sendo um fator importante. No caso do Pantera Negra (ChadwickBoseman), era um jovem, que adoeceu por volta de 40 anos de idade, um pouquinho menos, e que não tinha nenhuma dessas histórias. Então, esse é um imprevisto. A gente fala que é um atropelamento na calçada. Isso acontece numa quantidade muito pequena, do ponto de vista proporcional, mas machuca muito. Machuca muito porque a morte de um adulto jovem por câncer é muito desestruturadora para a cabeça das pessoas, enche a gente de medo. E, especificamente nos Estados Unidos, existe um pequeno aumento da incidência de câncer colorretal em pacientes mais jovens. É um número de algumas centenas de casos. Isso fez com que a Sociedade Americana de Câncer recomendasse reduzir a idade do rastreio para câncer colorretal dos 50 para os 45 anos. Essa é uma prática que eu adotei na minha clínica diária, embora não ache que a gente tenha uma estrutura perfeita de dados para isso. Mas, mesmo com 45, a gente não pegaria esse caso. Paralelamente aos avanços da pesquisa e da tecnologia, existem, também, maneiras mais simples que são importantes na prevenção do câncer, como mudanças no estilo de vida. Queria que o senhor falasse um pouquinho sobre isso. A gente sempre fala da responsabilidade pública em cima das coisas.A gente fala do SUS, do Estado prover etc. e tal. Mas existe tanto na covid19, quanto no câncer, como em grande parte dos processos relacionados à saúde, uma responsabilidade individual muito grande, como existe em tudo. A gente sabe há 40 anos que cigarro aumenta a chance de câncer, veja que não é antiga a informação, se fuma há alguns milhares de anos, a gente sabe que dá câncer há 40 anos. E ainda tem gente que fuma. Então, assume-se uma responsabilidade. A obesidade aumenta o risco de câncer. Nós sabemos que sol aumenta a chance de câncer de pele quando em horários inapropriados. Sedentarismo, algumas práticas alimentares. As pessoas precisam entender que uma parte da solução do problema está com eles. Está na prevenção. Essas práticas são muito semelhantes às doenças cardiovasculares. As doenças cardiovasculares eo câncer andam muito próximas nesse sentido. (Cada um tem sua responsabilidade individual), como tem a responsabilidade de usar máscara, de passar álcool em gel na mão, de beber pouco. São responsabilidades de um cidadão, para se proteger, para se preservar. Ed Alves/CB/D.A Press JÉSSICA GOTLIB.