Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

ESTADÃO/SÃO PAULO
Data Veiculação: 14/12/2020 às 19h18

O técnico Vanderlei Luxemburgo, de 68 anos, foi internado nesta segunda-feira no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, após testar positivo pela segunda vez para o novo coronavírus. Em julho, quando ainda comandava o Palmeiras, ele teve a doença de maneira assintomática e se recuperou em casa. Agora, ele se queixou de mal-estar e precisou receber atendimento médico. A informação foi publicada inicialmente pelo. Luxemburgo havia passado o fim de semana no Rio de Janeiro e passou a sentir fortes dores na cabeça e pelo corpo. O treinador voltou para São Paulo e imediatamente foi levado ao hospital, onde permanece internado. O Sírio Libanês ainda não divulgou informações mais detalhadas sobre o estado de saúde do paciente. O treinador está sem clube desde que foi demitido do Palmeiras em outubro. O clube trouxe para a vaga dele o português Abel Ferreira, que também teve a covid-19 e se recuperou recentemente.

EL PAÍS/SÃO PAULO
Data Veiculação: 14/12/2020 às 11h27

Foram quase seis meses trancada dentro de sua casa em Brasília. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, em março, até outubro, a aposentada Vânia Carvalho de Mendonça, 71, não colocou o pé para fora da soleira da porta. “Até as compras no mercado quem fazia era o meu marido”, conta. Em outubro a situação da crise sanitária no Brasil parecia estar melhorando, com o número de mortes e casos diminuindo semana a semana. O aniversário do neto, que Vânia não via há quase um ano, fez com que ela quebrasse sua quarentena. Entrou em um avião e viajou até São Paulo para participar dos festejos. De quebra, foi a um jantar na casa de amigos do filho, com outros oito adultos e sete crianças. Dias depois a idosa estava internada na unidade de terapia intensiva no hospital Albert Einstein, na zona sul da capital paulista, recebendo oxigênio, situação que se estendeu por cinco dias. O caso de Vânia não é exceção. Cada vez mais brasileiros das classes A e B que ficaram em quarentena no início da pandemia, contando com o privilégio do home office, chegam ao limite psicológico da tranca dentro de casa. A melhora dos números de contágios e mortes pela covid-19 e o relaxamento das restrições por parte do poder público, que liberou a abertura de bares e restaurantes, fez com que muitos isolados ganhassem as ruas pelo Brasil, muitas vezes sem o devido cuidado —como uso de máscara. De certa forma, a história se repete: o novo coronavírus chegou ao Brasil trazido por turistas de classe média que voltavam de férias na Europa, e agora encontra nesta mesma população terreno fértil novamente. “É possível afirmar que o início desta nova elevação do número de casos iniciou de novo pela classe A e B, assim como ocorreu em março. Mas logo foi seguida por um crescimento generalizado em todas as camadas da população”, afirma Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein. Uma das consequências desta reabertura foi o aumento no número de casos da doença, que teve um reflexo direto na ocupação de leitos do sistema privado e público de saúde. No Albert Einstein, por exemplo, onde Vânia foi atendida, a média diária de pessoas internadas com covid-19 na UTI em outubro e novembro foi de 28. Nos primeiros dias de dezembro este número já está na casa dos 50 atendimentos (o hospital afirma que não trabalha com taxa de ocupação, pois remaneja leitos de acordo com a necessidade). “Quase tivemos que dobrar o número de leitos de covid-19”, afirma Klajner. Situação semelhante foi vista em outros hospitais particulares. Em 7 de dezembro o Sírio Libanês anunciou um plano de contingência para lidar com o aumento na procura por leitos voltados para pacientes com o novo coronavírus, e no Hospital do Coração a média móvel de internações pela doença —que leva em conta intervalos de sete dias— saltou de 17 em meados de outubro para 51 na última semana. Já recuperada do susto, Vânia lamenta o ocorrido. “Eu me arrependo pelo lado de ter contraído o vírus. Me preveni durante meses e uma saidinha deu nisso. Mas emocionalmente eu precisava sair. E as crianças ficam pedindo, sabe? ‘Vovó, vem ver a gente! ’. Aí você se deixa levar por essa parte emocional”, conta. Os sintomas da doença começaram a se manifestar dias após o jantar na casa de um amigo do filho. “Eu tive febre, muita dor de cabeça e no corpo, não tinha força nem para falar. E aí veio a falta de ar, que me fez ser internada”, conta. Dos oito adultos presentes no encontro, seis testaram positivo para a doença, todos com sintomas leves e sem necessidade de internação. Com as festas de fim de ano se aproximando, existe o temor por parte das autoridades que os números da doença no país explodam, tendo em vista o aumento de confraternizações e reuniões de amigos e familiares para celebrar o Natal e o Ano Novo. “Acho que as pessoas precisam ponderar o que é melhor: deixar de estar com seus familiares por um ano, um momento, e poder desfrutar destes momentos num futuro próximo, ou correr o risco de morrer e acabou”, diz Vânia. Sistema público também sob pressão A rede privada não é a única que passa por um aumento no número de internações por covid-19. O Hospital Emílio Ribas, referência na área de infectologia, chegou a ter 100% dos leitos ocupados no início de dezembro. No dia 9 a taxa era de 90%. Também foi registrado aumento de internações em outras unidades públicas: a Unidade de Pronto Atendimento de Campo Limpo, no extremo sul de São Paulo, por exemplo, teve um aumento de 65% nos atendimentos de pessoas com covid-19. Apesar da alta de casos, a Prefeitura informou na sexta-feira que a taxa de ocupação da rede é de 57% e 91% nas unidades contratadas. “Toda a rede está com um aumento importante, tanto no sistema público quanto privado”, afirma Ana Freitas Ribeiro, coordenadora do Serviço de Epidemiologia do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas. Além das festas de fim de ano, ela acredita que a proximidade de uma vacina também tenha feito com que muitas pessoas baixassem a guarda com relação aos cuidados contra a doença. Além disso, a flexibilização da quarentena, com liberação de bares, levou mais jovens para as ruas, sem o devido distanciamento social. Foi o que ocorreu com o advogado curitibano Paulo Kroeff Baggio Silva, 30. Ele ficou trabalhando remotamente de março até o início de setembro. “Saía só para fazer o básico, mercado, essas coisas”, afirma. Aos poucos foi ocorrendo um “relaxado meio sutil”, que acompanhou a reabertura do comércio e a queda na ocupação dos leitos de UTI. Começou com um “encontrinho” com poucos amigos em sua casa, passando por um eventual almoço fora. E culminou com uma viagem para o Balneário de Camboriú, em Santa Catarina. “Lá era como se não houvesse pandemia. Festas e todo mundo sem máscara”. No começo de novembro vieram os primeiros sintomas de uma gripe leve, acompanhada da perda de paladar e olfato. Silva havia contraído a covid-19. Se recuperou dentro de algumas semanas, sem necessidade de internação. Mas este comportamento de se expor a riscos desnecessários poderia ser mitigado com ações do poder público. “Nós apontamos o dedo para quem vai para festas. Claro, é perigoso. Mas você não vê as autoridades dizendo quais atividades podem ser feitas com menor risco. Eu não vou convencer um jovem que está indo pra balada a não ir, é pouco realista. Mas e se eu comunico que ele pode ir encontrar amigos em um parque, que é mais seguro? ”, diz Vitor Mori, integrante do Observatório da Covid-19. Ele cobra uma política “de redução de danos” por parte dos governos “Você não precisa do totalmente seguro, de ficar em casa trancado 24 horas por dia, para o totalmente inseguro, de ir a uma festa”, afirma. Aviso aos leitores: o EL PAÍS mantém abertas as informações essenciais sobre o coronavírus durante a crise. Se você quer apoiar nosso jornalismo, clique aqui para assinar. Siga a cobertura em tempo real da crise da covid-19 e acompanhe a evolução da pandemia no Brasil. Assine nossa newsletter diária para receber as últimas notícias e análises no e-mail.

O ESTADO DE S.PAULO/SÃO PAULO | CADERNO 2
Data Veiculação: 14/12/2020 às 03h00

DIRETO DA FONTE SOMA RACY © Blog: estadão.com.br/diretodafonte Facebook: facebook.com/SoniaRacyEstadao Instagram: @colunadiretodafonte Colaboração Marcela Paes marcela.paes@estadao.com Paula Bonelli paula.bonelli@estadao.com Sofia Patsch sofia.patsch@estadao.com ROBERTO KALIL FILHO ‘O coração também é afetado pelo coronavírus’ Respeitado médico elogia o SUS e defende maiores investimentos no sistema IARA MORSELU/ESTADÃO Ele enfrentou os sintomas mais graves da covid-19 logo no começo da pandemia, quando ainda não havia protocolos para tratar a doença “admito que me senti mal como nunca antes”. E explica que uma gama de medicações ajudou a curá-lo. Depois de 10 dias internado na unidade de terapia semiintensiva do Hospital SírioLibanês e alguns dias em casa, em São Paulo, Roberto Kalil, que dirige a ala de cardiologia da instituição, estava de volta ao jaleco, à máscara e ao tratamento de seus pacientes. “Vivo medicina 24 horas por dia, minha determinação é ser médico”, resume o diretor clínico do Incor (Instituto do Coração, em São Paulo), aproveitando para avisar que a doença vai muito além da crise respiratória ou da febre alta (nos casos mais graves, como o dele): “O coração é muito atingido pelo coronavírus, cerca de 7% das mortes pela covid19 são causadas por miocardite. O que é isso? Trata-se do acometimento do coração pelo coronavírus”. Para o Kalil, que tem entre seus pacientes mais famosos políticos de todos os matizes, o Brasil está fazendo um bom trabalho no combate ao coronavírus. Esse trabalho mostrou, inclusive, o quão importante é o SUS, que na sua opinião, necessita de maiores investimentos. “Muita gente que não conhece o sistema fala mal do atendimento, mas a verdade é que ele salvou milhões de vidas nos últimos meses.” Se estamos preparados para a segunda onda da covid19? “Ainda estamos na primeira, e precisamos nos manter firmes no reforço dos cuidados básicos e na manutenção do distanciamento social. ” A seguir, os melhores momentos da conversa do cardiologista com a coluna. • qual a sua percepção sobre a covid-19 neste momento? As pessoas já falam em segunda onda, mas não saímos da primeira ainda. Estamos em uma fase de flexibilização, como todo mundo sabe, mas longe do fim da pandemia. Existem muitas pessoas infectadas, o número de mortes ainda é bastante alto. Então, todo cuidado tem de ser redobrado, com o uso de medidas protetivas: usar a máscara, lavar as mãos e manter o distanciamento social. O problema é que, com a flexibilização, as pessoas que estavam em casa começaram a sair. • há algum tempo você disse que o SUS sairia mais forte dessa pandemia. Quais os efeitos do vírus no sistema? O Sistema Único de Saúde foi responsável por salvar milhares de vidas. Ele atende mais de 100 milhões de pessoas, é muito bem estruturado. Claro que, quando o SUS foi criado, em 1988, a população era mais jovem, e a medicina não tinha a alta tecnologia que tem hoje. Agora, a população está mais idosa, e a medicina está mais cara. O SUS precisa de financiamento (está subfinanciado há décadas). O sistema necessita melhorias urgentes estruturais e valorização dos seus profissionais. E isso custa dinheiro, simplesmente porque estamos tratando do maior sistema de saúde do mundo. Quero frisar que onde o SUS estava melhor aparelhado, tivemos menos mortes. • acha que a fama de oferecer mau atendimento não condiz com a realidade? Tenho certeza. Porque as catástrofes são muito mais comentadas do que as coisas boas. Isso faz parte, não é crítica nenhuma. Mas, o que aconteceu com a covid19? As autoridades, a população, a mídia, todos viram o valor real do SUS na luta contra a pandemia. • E sobre a guerra das vacinas? É natural isso acontecer? No meio da pandemia, haver uma guerra política? Eu não sou especialista nesse assunto, não sou imunologista, não sou infectologista nem sanitarista. O que sei sobre vacinas é o que a gente discute nos comitês dos hospitais e o que está na mídia. O que posso dizer é que a Anvisa é um órgão extremamente sério e responsável pela aprovação das vacinas ou de qualquer medicação. O Brasil tem vacinas que estão em fase final de testes. Qual é a melhor? Não sei. O que sei é que toda politização é ruim quando se trata de ciência. Mas no mundo inteiro foi assim. No mundo inteiro houve politização em relação ao novo coronavírus, em todos os aspectos. • você é a favor que a vacina seja obrigatória? Não. Até porque vai demorar até que a população inteira seja vacinada. Tem de ter as doses, tem de ter os insumos, algumas populações serão vacinadas primeiro. E assim que funciona. Um plano de imunização tem que ser aprovado conforme as necessidades população. • não seria o caso de fazer uma lei para obrigar as pessoas a se vacinarem? Não, aí é questão de convencimento. As campanhas de vacinação têm de ser fortalecidas, e a covid19 chama a atenção para essas campanhas. Acho que as pessoas vão aderir mais às vacinas (de um modo geral) no pós-covid. Porque elas têm de se vacinar, sim, não apenas para evitar o coronavírus, mas outras doenças. • as pessoas estão deixando de cuidar da saúde por causa da pandemia? Essa é uma pergunta importante, porque o isolamento social foi muito ruim nesse ponto, muitas pessoas deixaram de fazer seus tratamentos, deixaram de se cuidar, com medo de pegar covid. Isso levou a um aumento na incidência de morte súbita em casa, aumento de infartos, por exemplo. No mundo inteiro, não apenas aqui. Para se ter uma ideia, em março e abril, o pronto-socorro do Incor atendeu metade dos infartos que costuma atender. Onde essas pessoas infartaram? Em casa. Com a flexibilização, elas precisam voltar a procurar seus médicos, retomar os tratamentos. Já as pessoas que tiveram coronavírus nas formas mais graves, e se curaram, devem manter acompanhamento clínico geral e cardiológico também. Estudos chineses mostram que, três meses depois de se curarem, muitas pessoas eram acometidas de fibrose pulmonar. E preciso monitoramento constante nos primeiros meses pós-covid. Quer dizer, as pessoas têm de se cuidar sempre, mas precisam entender que a covid pode continuar agredindo o organismo, porque o vírus vai embora, mas as consequências dos processos inflamatórios que ele causa podem permanecer por um bom tempo. • Como foi a sua experiência com a covid-19? 0 que aconteceu com você? Peguei a covid em março, bem no começo da pandemia. Eu já tinha cuidado de vários pacientes com o coronavírus, e a gente nunca espera que vá ficar doente, óbvio. Então, em uma sexta-feira, comecei a sentir os sintomas. Sintomas normais, nada demais, me sentindo um pouco estranho, mas nada de muito importante. Fui ao hospital na segunda-feira seguinte e fiz o exame: meu pulmão já estava 50% comprometido pelo vírus. • Você não tinha febre? Nada. Zero. Simplesmente um mal-estar. Nem dor no corpo eu sentia. Era um estado gripai, mas bem leve. Após o diagnóstico da covid, fui internado. E ainda bem que fiz o teste rapidamente, porque comecei a passar muito mal: veio a febre, veio a dor no corpo, veio a falta de ar. Fi- quei em uma unidade semiintensiva, quase tive de ser entubado. Os primeiros cinco dias de internação foram horríveis, porque fiz parte daqueles 5% de pessoas que apresentam os sintomas mais graves possíveis. • que remédios foram usados? Na época você declarou ter tentado a cloroquina. Usei corticoide, anticoagulante antibióticos e cloroquina. Na época, a OMS recomendava não usar anti-inflamatórios. Como foi muito no comecinho da pandemia, não sabíamos que protocolo seguir, que remédios seriam benéficos. Foi uma gama de medicações que me ajudaram, não algo específico. • 0 que mudou em você depois da infecção? Você é conhecido por ser um médico muito duro, autoritário, bem objetivo. No pós-covid, acha que ficou mais flexível? Eu vivo a medicina 24 horas, minha vida é cuidar dos meus pacientes. Eu estou há 40 anos no Incor, um serviço público que é tudo para mim, eu “nasci” ali. Sei que ninguém é Deus, ninguém sabe tudo, mas, dentro do conhecimento e da experiência que você tem, precisa sempre propor o melhor para o paciente. Agora, eu sou duro, quer dizer, tenho de botar a fantasia de durão, porque dirijo uma instituição como o Incor, dirijo uma cardiologia como a do Hospital Sírio-Libanês, dirijo uma equipe grande de médicos. As pessoas acham que eu sou autoritário, acham que eu sou um dragão cuspindo fogo pelos corredores... bom, acho que é preciso ser um pouco assim para que as coisas andem. • Mas você não me respondeu: o que mudou na sua vida no pós-covid? Olha, essa história de ‘ai, meu Deus, quase morri, quase fui para a UTI, estou mudado’... não aconteceu comigo, não. Meus amigos no Incor e no Sírio garantem que eu fiquei mais bonzinho. Bonzinho nada. Sou o cão chupando manga de sempre! (risos) • Se pudesse voltar atrás, teria escolhido alguma outra profissão? De jeito nenhum. Eu faria tudo isso de novo sem pensar duas vezes. Eu amo a medicina, demorei três anos para entrar na faculdade, tive que prestar três vezes o vestibular, mas teria prestado trinta, se precisasse. A minha determinação sempre foi a de ser médico. Amo o que faço. • Como cardiologista, o que você pode dizer dos efeitos da covid19 sobre o coração? No começo, se achava que era uma síndrome respiratória que atingia sorri e n t e os pulmões; hoje já há vários estudos mostrando que ela atinge diversos órgãos, incluindo o coração. Estudos publicados em outubro reunindo autópsias de vítimas da covid19 demonstram que, além da pneumonia e da insuficiência respiratória, quase 70% do coração dessas pessoas também foram comprometidos pelo vírus. Nos primeiros casos relatados, em Wuhan (epicentro da pandemia, na China), 7% das mortes foram causadas por miocardite, que é o acometimento do coração pelo vírus. WiW.MW.lMlíM RIRRUOIRVÍI OTEnrmjíras Encontros