Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

UOL VIVA BEM/UOL/SÃO PAULO
Data Veiculação: 12/02/2021 às 17h37

Divulgado na última quinta-feira como pré-print (ainda sem a chamada revisão de pares e publicação em revista científica), um estudo parte do projeto de pesquisa Recovery, liderado pela Universidade de Oxford, aponta que o uso do tocilizumabe associado com dexametosa (corticoide), beneficiou pacientes internados com casos graves de covid-19. Outro estudo, brasileiro, feito pela Coalizão COVID-19*, assim como algumas pequenas pesquisas, vão na direção contrária, apontando que o tocilizumabe não seria capaz de grandes mudanças nos quadros. A britânica, no entanto, é a maior análise sobre os medicamentos já feita. "Ser um pré-print é uma limitação, mas na minha opinião, muito pequena", aponta Luciano Cesar Pontes Azevedo, médico intensivista e pesquisador do Hospital Sírio-Libanês. "O grupo que fez o estudo é um dos maiores que têm atuado em pesquisas sobre covid-19, dificilmente a publicação final será muito diferente do pré-print. Além disso, esse é um estudo bem mais robusto do que o brasileiro, que teve 120 pacientes. De ponto de vista de geração de evidências, ele é bem mais confiável", conclui Azevedo, que faz parte da Coalizão COVID-19. Um outro ponto negativo, mas que na opinião do médico também não compromete de forma grave a qualidade do estudo, é que a pesquisa não foi feita na forma "duplo-cego", o que significa que nem os pacientes nem os médicos sabem o que está sendo administrado — e o que pode, de acordo com os critérios científicos, enviesar o resultado. No caso dos cientistas britânicos, eles sabiam quem recebeu os remédios. O pesquisador aponta, ainda, que o estudo indica uma redução de risco absoluto de 4%, um número que não é tão alto e pode ser um dos motivos pelos quais estudos menores teve resultados divergentes. "Foi preciso administrar a droga em 25 pacientes para salvar uma vida adicional com o remédio. Então uma análise pequena, com 200, 300 pacientes, pode não ter sido capaz de identificar como uma grande mudança." A interpretação dos autores britânicos é que o uso do tocilizumabe e do corticoide melhorou a sobrevida e o quadro clínico de pacientes com covid-19 hospitalizados com hipóxia (falta de ar) e inflamação sistêmica, independentemente do nível de suporte respiratório recebido. Apesar de ser um estudo grande e de acordo com Viviane Cordeiro Veiga, cardiologista, intensivista e coordenadora de UTI da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, bem desenhado, os próprios pesquisadores deixam a ressalva que ainda são necessários de estudo complementares. "Apesar dos resultados bastantes promissores, sabemos que não é uma resposta final. Precisamos considerar ele reforça o uso conjunto dos dois medicamentos (82% dos pacientes receberam corticoides), e os benefícios dos corticoides para quadros graves já está bem estabelecido — diversos estudos robustos apontam com unanimidade ganhos como menor tempo de internação, de uso de ventilação e até menos mortes. Por isso, precisamos levar em consideração que parte dos bons resultados podem ter sido pelo uso da dexametasona", aponta Veiga. A médica, que também faz parte da Coalizão COVID, agora integra um grupo da OMS (Organização Mundial da Saúde) que prevê uma grande meta-análise sobre o tema. Para chegar a um resultado conclusivo, pesquisadores que têm estudado o tocilizumabe analisarão dados de diversos estudos publicados em diferentes países. "Estamos fazendo reuniões desde novembro e em torno de um mês a 45 dias esperamos ter dados mais consistentes. Ao analisar diferentes pesquisas, a ideia é entender se o medicamento realmente tem benefício e para quem", diz. O tocilizumabe é uma medicação de alto custo e já comprovadamente eficaz para casos graves de artrite reumatoide. "Não é tomada por via oral, mas pela veia, então não é algo que as pessoas podem comprar na farmácia. Também é importante ressaltar que não há quaisquer evidências para a prevenção da covid-19 ou para melhora de casos leves, que representam 80% dos quadros", aponta Veiga. Assim como a droga para artrite reumatoide, é essencial que a dexametasona só seja administrada caso haja indicação médica — o que ocorre para pacientes com casos graves de covid-19, e não para prevenção ou casos leves ou moderados. "O uso indiscriminado pode causar imunossupressão, deixando a pessoa suscetível a outras infecções, levar ao ganho de peso, à disglicemia (valores de glicemia fora da normalidade), gerar hipertensão arterial e sintomas psiquiátricos e até psicóticos", explica Igor Marinho infectologista do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). *A Coalizão Covid-19 é uma aliança para condução de pesquisas formada por oito organizações de saúde do Brasil (Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Brazilian Clinical Research Institute - BCRI, e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva - BRICNet)

VEJA.COM/SÃO PAULO
Data Veiculação: 12/02/2021 às 06h00

O telefone de Albert Bourla, presidente mundial da farmacêutica americana Pfizer, tocou em Nova York às 19 horas em ponto do dia 11 de novembro de 2020. Do outro lado da linha, onde já eram 2 horas da madrugada, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi direto ao ponto: ele queria reservar doses da recém-anunciada vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório. “Bourla pôs seu assessor jurídico na linha, eu coloquei o meu e começamos os acertos”, contou Netanyahu em conversa por Zoom durante o Fórum Econômico Mundial. Àquela altura, o tom de Bibi, como é chamado, já era de puro orgulho, e com razão — Israel ostenta hoje o primeiríssimo lugar na imprescindível corrida da vacinação, a fresta luminosa por onde a humanidade espera se livrar da prisão imposta pelo novo coronavírus. Ao todo, foram 21 telefonemas, cerca de cinco por dia. Graças à persistência e ao envolvimento pessoal de Netanyahu, que se repetiu em negociações com as farmacêuticas Moderna e AstraZeneca, o país pode agora exibir números espantosos: 39% da população recebeu a primeira dose da vacina e, entre os acima de 60 anos, 90% já levaram a segunda picada. Nesse cenário, os israelenses, habituados que estão aos lockdowns, começam a mirar a normalidade perdida. “Pela primeira vez em muito tempo, sinto-me esperançosa e animada”, disse a VEJA Sara Cupperschmidt, brasileira de 74 anos que mora em Israel há seis. “Torço para toda a família estar junta em Pessach (a Páscoa judaica, no fim de março). No ano passado fizemos por Zoom”, acrescenta ela, que tem filhos nos dois países e deu novo sentido às coisas simples, algo que todo mundo (literalmente) experimentou em algum grau. Na lista das nações que mais vacinaram, o índice israelense está em 69,4 doses por 100 habitantes (no Brasil, 2 — veja o ranking na pág. 53). Tudo indica serem o princípio do fim da pandemia, uma vez que para chegar lá é preciso atingir a chamada imunidade de rebanho, quando a quantidade de pessoas imunizadas, ou pela vacina ou por já ter pegado a doença, é suficiente para barrar a contaminação em larga escala. Para alcançar tal estágio, o número mágico mais aceito, fruto de modelo matemático complexo, é de um universo de 70% imunes — a porta de entrada para uma vida em que máscaras e distanciamento social deixam de ser prioridade, embora sejam aconselháveis. Bem antes disso, porém, a vacinação tem impacto decisivo, ao reduzir drasticamente a incidência de casos graves. Em Israel, o Instituto Weizmann de Ciência calcula que, entre os que já receberam as duas doses, houve, no breve período de meados de janeiro a início de fevereiro, diminuição de 41% nos novos testes positivos, de 31% nas hospitalizações e de 24% nas crises severas. De quase meio milhão de pessoas duplamente vacinadas, entre a população de 9 milhões, apenas 254 tiveram Covid-19 leve, sem necessidade de atendimento médico. Os bons resultados surgiram catorze dias após a primeira dose e se intensificaram uma semana depois da segunda. “Israel é a prova de que vacinar em massa os grupos prioritários, em especial os idosos, muda o rumo da pandemia”, diz a infectologista Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo. Outros exemplos comprovam que a imunização é arma essencial contra o contágio e se torna mais potente ainda se associada a testagem ampla e adoção de lockdowns. No Reino Unido, na marcha da vacinação desde dezembro, constatou-se queda de 37% nos infectados. Nos Estados Unidos, que caminha para a aplicação de 1,5 milhão de doses por dia, os testes positivos encolheram 38%. Israel, um caso à parte, se destaca não só pelo sucesso em garantir o fornecimento adequado de vacinas, mas também pelo desempenho excepcional no ritmo de distribuição — agentes as aplicam em tendas 24 horas por dia. A título de comparação, o Reino Unido, que estreou o mesmo imunizante onze dias antes, administrou um terço do que a média proporcional de doses aplicadas em israelenses. Embora com um bom ritmo de vacinas administradas, cerca de 230 000 por dia, os brasileiros estão atrás na corrida, com quatro semanas de imunização. Só agora idosos acima de 90 anos receberam a tão aguardada espetadela — a atriz Fernanda Montenegro, 91, foi um dos famosos saudados nesta fase. O Brasil conta com uma azeitada engrenagem para campanhas de vacinação — tanto que as doses iniciais da CoronaVac saíram de São Paulo na manhã da segunda-feira 18 e na tarde seguinte já estavam sendo administradas em todos os estados. Mas não há estrutura bem montada que consiga anular de todo os danos provocados pela precariedade — e má vontade inicial — do governo federal em relação à imunização em massa dos brasileiros. As doses asseguradas até a tarde de quinta-feira 11 totalizam 300 milhões, 25 milhões a menos do que o necessário para oferecer duas a cada homem e mulher acima dos 18 anos. No momento, o Brasil está distribuindo os 11,8 milhões de doses que tem na mão — 2 milhões da AstraZeneca-Oxford e 9,8 milhões da chinesa CoronaVac. De descaso em descaso, de protelação em protelação, o Ministério da Saúde chegou à inconcebível situação em que só não se vacina mais no país por falta de imunizante disponível. No início de dezembro, enquanto o Brasil ainda patinava na compra de vacinas, Netanyahu e seu ministro da Saúde, Yuli Edelstein, foram ao aeroporto receber pessoalmente o primeiro carregamento. “É um momento emocionante, para o qual trabalhei muito”, vangloriou-se Bibi na ocasião. Dias depois, os dois foram imunizados ao vivo e em cores, dando início à campanha Voltando à Vida. O Ministério da Saúde espalhou por toda parte anúncios e explicações sobre a vacina e seus benefícios. Médicos e funcionários passaram a frequentar os programas de TV e rádio, respondendo a dúvidas da população. O sucesso da campanha israelense tem seu maior alicerce na rede de saúde pública. Todos os cidadãos estão inscritos em um dos quatro planos gratuitos, financiados pelo governo e por doações. Altamente digitalizado, cada sistema está utilizando suas clínicas e hospitais próprios, além de estádios e centros de convenção, para vacinar uma população, em geral, para lá de motivada para isso. Quem marcou hora é recebido sem filas nem burocracia (e, ressalve-se, tem sido assim no Brasil também, apesar de tudo). Os postos contam com divisórias e, dentro das baias, enfermeiros atendem quem chega. As pessoas só precisam responder a três perguntas: se têm histórico de alergia, se já pegaram Covid-19 e, no caso das mulheres, se estão grávidas. Depois, é necessário esperar quinze minutos para assegurar que não há reações imediata e ir embora. Netanyahu reza, em grande parte, pela cartilha nacionalista-populista de direita de Jair Bolsonaro e Donald Trump. Também foi muito criticado ao longo da pandemia por não tomar medidas decisivas a respeito do uso de máscara e do isolamento social — embora tenha, sim, ao contrário dos colegas negacionistas, decretado lockdowns de curta duração e fechado fronteiras. Quando a vacina chegou, porém, o primeiro-ministro fez uma aposta estratégica: usar a campanha de imunização como um muito necessário trunfo político a favor de seu partido, o conservador Likud, na eleição do dia 23 de março — a quarta de Israel em dois anos. Netanyahu ainda enfrenta os tribunais: está sendo julgado por corrupção e fraude (na segunda-feira 8, compareceu em pessoa à primeira audiência e se declarou inocente, em um processo que deve se arrastar por alguns meses). É com imensa vontade política, portanto, que o primeiro-ministro fixou o fim de março como prazo para que todos os israelenses acima de 16 anos estejam imunizados. Seu próprio futuro está em jogo. No intuito de reforçar seu voo eleitoral, Bibi não regateou com a Pfizer: pagou entre 15 e 30 dólares (o preço não foi divulgado) pela dose, o que poderia ser o dobro dos países europeus. Concordou ainda em fazer de Israel uma espécie de cobaia, abastecendo o laboratório com todos os dados e estatísticas possíveis, em tempo real. “Uma semana a menos de lockdown compensa isso”, declarou, pragmático. O Reino Unido e até os Estados Unidos de Trump também fecharam com antecedência vastos contratos de fornecimento com a Pfizer, desde sempre a mais adiantada no desenvolvimento do antígeno. Já as negociações do governo brasileiro se estendem, inconclusivas, desde agosto. No contrato mais promissor em andamento, só no dia 7 de janeiro o governo federal pôs a assinatura na compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, imunizante que, na visão do Planalto, padecia de dois pecados: avalizava a até então enxovalhada “vacina chinesa” e tinha sido negociado por seu desafeto, o governador João Doria. Esperadíssimo passo à frente para a volta à vida normal, a vacina leva algum tempo para funcionar e precisa estar acompanhada de restrições rigorosas contra aglomerações. Em Israel, a sensação de luz no fim do túnel é palpável, embora cautelosa e pragmática. Há mais gente na rua aproveitando o sol de um inverno pouco rigoroso, mas os israelenses continuam a sair pouco de casa, atendendo à orientação do governo e evitando fazer qualquer coisa que prejudique o alívio tão próximo. Idosos que não viam os netos há meses voltam a recebê-los e a abraçá-los — sem beijos e de máscara, até porque a vacinação só é aplicada a maiores de 16 anos. A estudante Noa Levy, de tão ansiosa pela primeira dose, conseguiu convencer a equipe a picar seu braço um dia antes do previsto. “Queria me sentir segura e poder encontrar os amigos em meu aniversário”, diz Noa, que mesmo assim não pretende retornar por ora à escola. Ecoando um sentimento comum na população, ela afirma: “Sinto orgulho de estar no país número 1 em imunização”. Passados dois meses do início da campanha israelense, o país ainda sofre os efeitos da terceira e maior onda de contaminações. Nos bairros habitados pelos judeus ortodoxos, que representam 12,5% da população e insistem em ignorar máscaras e distanciamento, os níveis de infecção são seis vezes superiores — no fim de janeiro, a foto de 10 000 aglomerados nas ruas de Jerusalém para acompanhar o enterro de um rabino chocou o país. Entre os árabes, que correspondem a 21% da população, muitos têm dúvidas quanto à segurança da vacina e, nesse grupo, os índices de hospitalizações e mortes permanecem elevados. Como os 4,8 milhões de palestinos nos territórios ocupados dispõem de um sistema de saúde próprio, não entraram na campanha israelense, apesar dos apelos vindos de todo canto. Só neste mês um primeiro lote foi cedido por Israel para imunizar equipes médicas da Autoridade Palestina. É provável que o fluxo continue e até cresça, bem como o estímulo à entrada de doações, visto que a proximidade das duas populações pode afetar o sucesso da imunização do país. Apenas agora, com quase metade de seus habitantes vacinados pela primeira dose, Israel julgou prudente afrouxar as medidas de fechamento em vigor há mais de um mês. Os restaurantes podem vender refeições para viagem e os escritórios que não lidam com o público reabriram, assim como salões de beleza e parques. Também foi revogada a proibição de receber visitas em casa e só circular a pé em um raio de 1 quilômetro. As escolas começam a voltar às aulas nas áreas de menor contágio. Mas cinemas, teatros e comércio seguem fechados, com exceção de mercados e farmácias. E ainda permanece suspensa a maioria dos voos nos aeroportos do país, para evitar a importação de novas variantes do vírus. “As mutações, que se propagam com rapidez e afetam os jovens, complicaram a situação”, diz o biólogo Eran Segal, do Instituto Weizmann. “Mas posso afirmar, com cautela: a mágica começou”. Tomara que se espalhe pelo planeta e permita que, de novo, o dia possa nascer feliz em toda parte. Mazel tov. Publicado em VEJA de 17 de fevereiro de 2021, edição nº 2725

VEJA/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 12/02/2021 às 03h00

Com empenho do governo, planejamento e adesão popular, Israel avança rapidamente para a imunização de toda a sua população adulta e vira exemplo mundial no combate à pandemía DANIELA KRESCH, de Tel-Aviv, E MARIANA ROSÁRIO 50 17 DE FEVEREIRO, 2021 CAPA; MONTAGEM CDW FQTO K SHUTTERSTDCK ,V ; jL 1 1'— r^i 1 Uh ■ L. 9 0 telefone de Àlberl Bourla+ presidente mundial da farmacêutica americana Pfizer, tocou em Nova York às 19 horas ern ponta do dia 11 de novembro de 2020. Do outro lado da Unha, onde já eram 2 horas da madrugada* o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi direto ao ponto: ele queria reservar doses da recém anunciada vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório. ‘Úiourla pôs seu assessor jurídico na linha, eu coloque í o meu e começa ritos os acertos”, contou Netanyahu em conversa por Zoom durante o Fórum ALÍVIO Vida nova: diante do ritmo intenso de vacinação © com 95% dos idosos já imunizados, as pessoas, ainda cautelosas, começam a sair em Tel-Aviv fã esqj Econômico Mundia l. Àquela altura, o tom de Bibi, como é chamado, já era de poro orgulho, e com razão — Israel ostenta hoje o primeiríssimo lugar na imprescindível corrida da vacinação, a fresta luminosa por onde a humanidade espera se livrar da prisão imposta pelo novo coronavirus. Ao todo, foram 21 telefonemas, cerca de cinco por dia. Graças à persistência e ao envolvimento pessoal de Netanyahu, que se repetiu em negociações com as farmacêuticas Moderna e ÁstraZeneca, o país pode agora exibir números espantosos: 39% da população recebeu a primeira dose da vacina e, entre os acima de 60 anos, 90% já levaram a segunda picada. Nesse cenário, os israelenses, habituados que estão aos iocMownsç começam a mirar a normalidade perdida. "Pela primeira vez em muito tempo, sinto-me esperançosa e animada", disse a VEJA Sara Gupperschmidt, brasileira de 74 anos que mora em Israel há seis. “Torço para toda a família estar junta em Pessach (a Páscoa judaica, no fim de março), no ano passado fizemos por Zoom" acrescent a ela, que tem filhos nos dois países e deu novo sentido às coisas simples, algo que todo mundo (literalmente) experimentou cm algum grau. Na lista das nações que mais vacinaram, o índice israelense está em 69,4 doses por 100 habitantes (no Brasil, 2 — veja o ranking na pâg. 53), Tudo indica serem o princípio do fim da pandemía, urna vez que para chegar lá é preciso atingir a chamada imunidade de rebanho, quando a quantidade de pessoas imunizadas, ou pela vacina ou por já ter pegado a doença, é suficiente para barrar a contaminação em larga escala. Para alcançar tal estágio, o número mágico mais aceito, fruto de modelo matemático complexo, c de um universo de 70% imunes — a porta de entrada para uma vida em que máscaras e distanciamento social deixam de ser prioridade, embora sejam aconselháveis. Bem antes disso, porém, a vacinação tem impacto decisivo, ao reduzir drasticamente a incidência de casos graves. Em Israel, o Instituto Weiztnann de Ciência calcula que, entre os que já receberam as duas doses, houve, no breve período de meados de janeiro a início de fevereiro, diminuição de 41% nos novos testes positivos, de 31% nas hospitalizações e de 24% nas 17 DE fevereiro. 2021 Si! SIR KEQ'\R•‘fl.MAKJLLTOETTY IKWBE5 INTERNACIONAL ESPECIAL EM CAMPAINHA Netanyahu fde máscara preta* recebe o primeiro lote de doses: triunfo político às vésperas da eleição crises severas. De quase meio milhão de pessoas duplamente vacinadas, entre a população de 9 milhões, apenas 254 tiveram Covid-19 teve, sem necessidade de atendimento médico. Os bons resultados surgiram catorze dias após a primeira dose e se intensificaram uma semana depois da. Segunda. “Israel é a prova de que vacinar em massa os grupos prioritários, em especial os idosos, muda o rumo da pandemia”* diz a infectologísta Mirsan Dal Ben.do Hospital Sirio-Libanês, de São Paulo. Outros exemplos comprovam que a imunização é arma essencial contra o contágio e se toma mais potente ainda se associada a testagem ampla e adoção de hckdowns, No Reino Unido, na marcha da vacinação desde dezembro. Constatou-se queda de37% nos infectados, Nos Estados Unidos, que caminha para a aplicação de 1.5 mil hão de doses por dia, os testes positivos encolheram 38%. Israel, um caso à parte, se destaca não só pelo sucesso em garantir o torneei mento adequado de vacinas, mas também pelo desempenho excepcional no ritmo de distribuição — agentes as aplicam em tendas 24 horas por dia. A título de comparação, o Reino Unido, que estreou o mesmo imunizante onze dias antes, administrou um terço do que a média proporcional de doses aplicadas em israelenses. Embora com. um bom ritmo de vacinas administradas, cerca de 230 000 per dia, os brasileiros estão atrás na corrida, com quatro semanas de imunização. Só agora idosos acima de 90 anos receberam a. tão aguardada espetadela — a atriz Fernanda Montenegro, 91, foi um dos famosos saudados nesta fase. O Brasil conta com uma azeitada engrenagem para campanhas de vacinação — tanto que as doses iniciais da CoronaVac saíram de São Paulo na manhã da segunda-feira 18 e na tarde seguinte já estavam sendo administradas em todos os estados. Mas não há estrutura bem montada que consiga anular de todo os danos provocados pela precariedade — com má vontade inicial — do governo federal em relação à imunização em massa dos brasileiros. As doses asseguradas até a tarde de quinta-feira 11 totalizam300 milhões, 25 milhões a menos do que o necessário para oferecer duas a cada homem e mulher acima dos 18 anos. No momen- 52 17 DE FEVEREIRO, 2D2I U0TTI MIL1R0D.EPVEFE RESISTÊNCIA Ortodoxos no Muro das Lamentações: contágio seis vezes maior por não seguirem as regras de isolamento QUEM LARGOU NA FRENTE A lista de países que aplicaram até agora mais doses de vacina * A cada 100 habitantes !F Irillllllllllbll IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII MlilISIIIIIIIIIIIIililI IIIIIIIIII ■■ IIIIIIIIIIIIIII 1® ISRAEL 2a EMIRADQS ÁRABES 3* SEYCHELLES 4a REINO UNIDO 5® ESTADOS UNIDOS 6a MALTA 7® SÉRVIA Ba DINAMARCA 9® CHILE 1Üfi ISLÂNDIA 42a BRASIL s» » ► 1,9 é a média mundial de vacinação e 1,1 àada América do Sul 47,3 45,1 20 13,5 9,8 5,5 5,1 2 Fome: Our Workí ín Date to, o Brasil está distribuindo os 11,S milhões de doses que tem na mão — 2 milhões da AstraZeneca-Oxtbrd e 9,8 milhões da chinesa CoronaVac. De descaso em descaso, de protelação cm protelação, o Ministério da Saúde chegou à inconcebível situação em que só não se vacina mais no pais por falta de imunizante disponível no início de dezembro, enquanto o Brasil ainda patinava na compra de vacinas, Netanyahu e seu ministro da Saúde, Yuü Edelstein, foram ao aeroporto receber pessoalmente o primeiro carregamento. WÉ um momento emocionante, para o qual trabalhei muito*5, vangloriou-se Blbi na ocasião. Dias depois, OS dois foram imunizados ao vivo e em cores, dando início à campanha Voltando à Vida. O Ministério da Saúde espalhou por toda parte anúncios e explicações sobre a vacina e seus benefícios, Médicos e funcionários passaram a frequentar os programas de TV e rádio, respondendo a dúvidas da população, O sucesso da campanha israelense tem seu maior al icerce na rede 17DE FEVEREIRO, 2021 U DOED BALI LTYfll PI M ADE P_U 5- INTERNACIONAL ESPECIAL ZELO Londres, ainda em fockdown:o número de casos caiu cerca de um terço com o avanço da imunização em massa de saúde pública. Todos os cidadãos estão inscritos em um dos quatro planos gratuitos, financiados pelo governo e por doações, altamente digitalizado, cada sistema está utilizando suas clínicas e hospitais próprios, além de estádios e centros de convenção, para vacinar uma população, em geral, para lá de motivada para isso, quem marcou hora é recebido ser filas nem burocracia (e+ ressalve-se, tem sido assim no Brasil também, apesar de tudo). Os postos contam com divisórias e, dentro das baias, enfermeiros atendem quem chega. As pessoas só precisam responder a três perguntas: sc têm histórico de alergia, se já pegaram Covid-19 e, no caso das mulheres, se estão grávidas. Depois, é necessário esperar quinze minutos para assegurar que não há reações imediatae ir embora. Netanyahu reza, em grande parte, pela cartilha nacionalista-populista de direita deJair Bolsonaroe Donald Trump. Também foi muito criticado ao longo da pandemia por não tomar medidas decisivas a respeito do uso de máscara c do isolamento social — embora tenha, sim, ao contrário dos colegas negacionistas, decretado tocfcrfown# de curta duração e fechado fronteiras. Quando a vacina chegou, porém, o primeiro-ministro fez uma aposta estratégica: usar a campanha de imunização como um muito necessário trunfo político a favor de seu partido, o conservador Likud» na eleição do dia 23 de março — a quarta de Israel cm dois anos, Netanyahu ainda enfrenta os tribunais:está sendo julgado por corrupção e fraude (na segunda-feira 8, compareceu cm pessoa â primeira audiência e se declarou inocente, em um processo que deve se arrastar por alguns meses). É com imensa vontade política, portanto, que o primeiro-ministro fixou o fim de março como prazo para que todos os israelenses acima de 16 anos estejam imunizados, seu próprio futuro está em jogo. No intuito de reforçar seu voo eleitoral. Bibi não regateou com a Pfizer: pagou entre 15 e 30 dólares (o preço não foi divulgado) pela dose, o que poderia ser o dobro dos países europeus, concordou ainda em fazer de Israel unia espécie de cobaia, abastecendo o laboratório com todos os dados e estatísticas possíveis, em tempo real, “Uma semana a menos de lockdown compensa isso”, declarou, pragmático. O Reino Unido e até os Estados Unidos de Trump também fecharam com antecedência vastos contratos de fornecimento com a Pfizer, desde sempre a mais adiantada no desenvolví mento do antígeno. Já as negociações do governo brasileiro se estende- 54 17 BE FEVEREIRO, 2D21 A PICADA Fernanda Monte negro: o Brasil está com 2% da população vacinada dem, inconclusivas, desde agosto, No contrato mais promissor em andamento, só no dia 7 de janeiro o governo federal pôs a assinatura na compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, imunizante que, na visão do Planalto, padecia de dois pecados: avalizava a até então enxoval h ada "vacina, chinesa1’ e tinha sido negociado por seu desafeto, o governador João Dor ia. Esperadíssimo passo á frente para a volta à vida normal a vacina leva algum tempo para funcionar e precisa estar acompanhada de restrições rigorosas contra aglomerações. Em Israel, a sensação de luz no fim do túnel 6 palpável, embora cautelosa e pragmática. I lá mais gente na rua aproveitando o sol de um inverno pouco rigoroso, mas os israelenses continuam a sair pouco de casa, atendendo ã orientação do governo e evitando fazer qualquer coisa que prejudique o alivio tão próximo, idosos que não viam os netos há meses voltam a recebê-los e a abraçá-los — sem beijos e de máscara, até porque a vacinação só é aplicada a maiores dc 16 anos, A estudante Noa Levy, de tão ansiosa pela primeira dose, conseguiu convencer a equipe a picar seu braço um dia antes do previsto, “Queria me sentir segura e poder encontrar os antigos em meu aniversário” diz Noat que mesmo assim não pretende retornar por ora à escola. Ecoando um sentimento comum na população, da afirma: “Sinto orgulho de estar no pais número ] em imunização”. Passados dois meses do início da campanha israelense, o país ainda sofre os efeitos da terceira e maior onda dc contaminações. Nos bairros habitados pelos judeus ortodoxos, que representam 12,5% da população e insistem em ignorar máscaras e distanciamento, os níveis de infecção são seis vezes superiores — no fim de janeiro, a foro de 10 000 aglomerados nas ruas de Jerusalém para acompanhar o enterro de um rabino chocou o país. Entre os árabes, que correspondem a 21% da população, muitos têm dúvidas quanto à segurança da vacina e, nesse grupo, os índices de hospitalizações e morres permanecem elevados. Como os 4.8 milhões de palestinos nos territórios ocupados dispõem de um sistema de saúde próprio, não entraram na campanha israelense, apesar dos apelos vindos de todo canto. Só reste mês um primeiro lote foi cedido por Israel para imunizar equipes medicas da Autoridade Palestina, É provável que o fluxo continue e até cresça, bem como o estimulo à entrada de doações, visto que a proximidade das duas populações pode afetar o sucesso da imunização do pais. Apenas agora, com quase metade de seus habitantes vacinados pela primeira dose, Israel julgou prudente afrouxar as medidas de fechamento em vigor há mais de um mês. Os restaurantes podem vender refeições para viagem e os escritórios que não lidam com o público reabriram, assim corno salões de beleza e parques. Também foi revogada a proibição de receber visitas ertt casa e só circular a pé em um raio de i quilômetro. As escolas começam a voltar às aulas nas áreas de menor contágio. Mas cinemas, teatros e comércio seguem fechados, com exceção de mercados e farmácias. E ainda permanece suspensa a maioria dos voos nos aeroportos do país. Para evitar a importação de novas variantes do vírus. “As mutações, que se propagam com rapidez e afetam os jovens, complicaram a situação”, diz o biólogo Eran Segai* do Instituto Weizmann. “Mas posso afirmar, com cautela: a mágica começou” Tomara que se espalhe pelo planeta e permita que, de novo, o dia possa nascer feliz em toda parte. Mazeí Cov. ■ 17DE FEVEREIRO, 2021 H.

ANAHP
Data Veiculação: 12/02/2021 às 00h00

Pesquisa da Coalizão COVID-19 Brasil integra estratégia da OMS para o enfrentamento à Long COVID 12 de fevereiro, 2021 Estudo que acompanha mais de mil pacientes brasileiros foi apresentado para especialistas e pesquisadores no primeiro simpósio global sobre a Síndrome Pós-COVID A preocupação com as sequelas e os sintomas persistentes que, ainda sem explicação, atingem uma grande parcela de pacientes até por meses depois da infecção pelo coronavírus, fez a Organização Mundial da Saúde convocar especialistas internacionais para um simpósio dedicado exclusivamente à Síndrome Pós-COVID ou Long COVID. Nesta terça-feira (9), um grupo de representantes da OMS, médicos e pesquisadores participaram de a reunião virtual para melhor definir a enfermidade, ampliar os conhecimentos, alinhar métodos de estudos e planejar estratégias globais de atendimento. A pesquisa Coalizão VII, da Coalizão COVID-19 Brasil, foi uma das cinco apresentadas no evento — a única brasileira. O estudo é um dos nove desenvolvidos pela aliança formada por Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio-Libanês, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet). As pesquisas avaliam a eficácia e a segurança de potenciais terapias para pacientes com COVID-19 no Brasil. O Coalizão VII analisa os impactos a longo prazo e a qualidade de vida, após a alta hospitalar, de pacientes que tiveram a doença. Até o momento, estão sendo acompanhadas mais de mil pessoas. O médico intensivista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento Regis Goulart Rosa, representante da Coalizão Covid-19 Brasil, destaca que uma preocupação dos profissionais da saúde no mundo todo é com, além de todas as consequências da pandemia de COVID-19, uma pandemia de incapacidade. “Os sistemas de saúde precisam se preparar para tratar sequelas e reabilitar esses pacientes. Temos observado desde problemas respiratórios, cardiológicos, neurológicos, fraqueza muscular, até estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. A OMS quer organizar o que se tem de pesquisas e dados disponíveis para entender melhor esses quadros clínicos e definir estratégias para prevenir e tratar a Long COVID”, explica. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ressaltou que o trabalho de enfrentamento da Long COVID está no início e deve se estender por muitos anos. Ele defendeu que as informações e estudos precisam sair de dentro dos hospitais e centros de pesquisa e chegar às comunidades. “Todos precisam, desde a Atenção Básica, conhecer os efeitos da infecção nas crianças, nos grupos de risco e em todos os grupos e entender os impactos sociais e econômicos desta enfermidade. É preciso garantir a reabilitação dos pacientes. Temos 800 centros de colaboração em diversas regiões e vamos pedir que incluam a Long COVID entre as prioridades”, afirmou. Os resultados de estudos feitos no Reino Unido, Estados Unidos, China, Itália e Índia também servirão de base para a tomada de decisões com foco no reconhecimento, pesquisa e reabilitação dos pacientes. Os pesquisadores convidados formaram grupos de trabalho para o aprofundamento, a discussão e a elaboração de quadros clínicos. A pesquisadora da OMS responsável pela equipe clínica de enfrentamento à Long COVID, Janet Diaz, apresentou o formulário, disponível na Plataforma Global de Dados Clínicos da OMS, para que os profissionais possam reportar casos para monitoramento com as diretrizes de acompanhamento, como intervalos entre consultas e relatos de sintomas e sequelas. Ver o mês atual