Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

BBC BRASIL/SÃO PAULO
Data Veiculação: 01/03/2021 às 20h47

Rafael Barifouse Da BBC News Brasil em São Paulo O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) divulgou na segunda-feira (1/3) uma carta em que pede que sejam adotadas medidas mais rígidas para reverter o pior momento do país na pandemia de covid-19. Só assim será possível "evitar o iminente colapso nacional das redes pública e privada de saúde", afirmou o Conass. Pouco mais de um ano depois da confirmação do primeiro caso da doença no Brasil, já foram registrados mais de 10,5 milhões de infecções e quase 255 mil mortes causadas pelo novo coronavírus. Mas, na contramão do que ocorre no restante do mundo, a pandemia não dá sinais de arrefecimento por aqui. O país continua a bater sucessivos recordes de óbitos, enquanto o número de novos casos cresce rapidamente. Os sistemas de saúde de vários Estados não estão conseguindo dar conta dessa demanda e estão no seu limite. Pule Talvez também tem interesse e continue lendo Talvez também tem interesse O que é o Estado de Defesa citado por Aras após pressão por impeachment Colesterol alto causado por mutações do DNA está entre as doenças genéticas mais comuns 1 ano de covid no Brasil: o que não sabíamos e aprendemos A polêmica sobre o tratamento precoce para a covid-19, criticado por entidades médicas Fim do Talvez também tem interesse Enquanto isso, a vacinação progride muito lentamente, enquanto alguns idosos precisam esperar por várias horas em filas país afora para conseguirem se imunizar. O cenário caótico se completa com a insistência do governo federal em não apoiar medidas que comprovadamente ajudam no combate à pandemia. Entenda, a seguir, os fatos que mostram por que este o pior momento da pandemia de covid-19 no Brasil até agora. 1) País segue batendo recordes sucessivos de mortes por dia até pouco tempo atrás, o dia mais letal da pandemia ainda era 25 de julho, quando a média móvel de mortes havia ficado em 1.102 óbitos por dia, segundo o monitoramento feito pelo Conass. Esse índice leva em conta a média dos sete dias imediatamente anteriores e é considerado mais adequado para medir a gravidade da situação por corrigir distorções pontuais nos números. Mas, então, o que muitos temiam aconteceu, e após um longo período de alta desta taxa, que começou em meados de novembro, o Brasil igualou em 14 de fevereiro seu recorde de óbitos até então. Muita gente respirou aliviada quando a média móvel voltou a cair logo depois, mas isso não durou e, em 24 de fevereiro, o país registrou um novo recorde de mortes: 1.124. E esse índice não parou de subir desde então, para 1.149 no dia 25, 1.153 no dia 26, 1.178 no dia 27 e, finalmente, 1.205 no dia 28, o número mais recente. 2) Alta de novos casos está próxima do recorde da pandemia A média móvel de novos casos também está crescendo aceleradamente — de novo. Após atingir seu índice mais baixo em 6 de novembro, com 16.360, a taxa começou a subir desenfreadamente. Houve um alívio entre o Natal e o Ano Novo, com uma breve redução dos números. Mas logo a tendência de alta retornou com força e atingiu em 13 de janeiro o recorde de toda a pandemia: 55.626 novas infecções por dia. Voltou a arrefecer um pouco, mas, desde 19 de fevereiro, não para de subir. Ainda não batemos um novo recorde de novos casos, mas, com 54.726 registros em 28 de fevereiro, estamos muito perto disso. 3) Os leitos de UTIs estão quase todos lotados, com pacientes sem atendimento O Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta o seu momento mais crítico desde o início da pandemia, de acordo com um boletim divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz na sexta-feira (26/2). Dados coletados em 22 de fevereiro apontavam que, além do Distrito Federal, 12 Estados estavam na zona de alerta crítica, com uma ocupação de mais de 80%: Amazonas, Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima, Rondônia, Santa Catarina, Paraná. Outros 13 Estados estavam na zona intermediária, com 60% a 80% de ocupação: Amapá, Alagoas, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Tocantins. E apenas um — Mato Grosso — estava fora da zona de alerta, com menos de 60% de ocupação. Quando levadas em consideração apenas as capitais, 17 estavam na zona de alerta crítica, das quais sete estavam com ocupação igual ou superior a 90%: Porto Velho, Florianópolis, Manaus, Fortaleza, Goiânia, Teresina e Curitiba. A lotação está sendo atingida até mesmo em alguns dos maiores hospitais privados do país, como o Sírio Libanês e o Albert Einstein, em São Paulo, nos quais já há fila de espera de pacientes por leitos de UTI. 4) A vacinação está lenta e com muitos problemas até o momento, só 3,11% da população brasileira já recebeu ao menos uma dose da vacina contra a covid-19. Isso representa pouco mais de 6,57 milhões de pessoas, de acordo com o monitoramento feito por um consórcio de veículos de imprensa do país. O número é ainda menor se contabilizadas apenas as pessoas que já receberam a 2ª dose. Foram 1,93 milhão até agora, ou 0,91% da população. Até o momento, de acordo com o site Our World in Data, o Brasil já aplicou 3,97 doses a cada 100 pessoas, enquanto o índice é de 22,5 a cada 100 nos Estados Unidos, 30,77 a cada 100 no Reino Unido e 93,5 a cada 100 em Israel. Por falta de vacinas, capitais como Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza e São Luís chegaram a interromper a imunização e só puderam retomar alguns dias depois, com a chegada de novos lotes. A combinação de grande procura com infraestrutura inadequada fez com que houvesse relatos de idosos que passaram horas na fila para conseguir ser vacinados. 5) Bolsonaro continua a fazer campanha contra o isolamento e as máscaras Antigo crítico do isolamento social, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) segue fazendo campanha contra esse tipo de medida. Na última semana, diversos Estados e cidades adotaram toques de recolher e lockdowns ou endureceram as restrições aplicadas ao comércio para tentar conter a alta de casos. No domingo (28/2), Bolsonaro compartilhou em seu Twitter um vídeo de uma empresária que se manifestou contra o lockdown decretado pelo Distrito Federal, com a legenda: "O povo quer trabalhar". Na sexta-feira, o presidente ameaçou os governadores dizendo que aqueles que "fecharem seus Estados" é que deverão custear o auxílio emergencial dado à população, sem detalhar como isso seria feito. Bolsonaro também falou recentemente contra o uso de máscaras, ao comentar que um estudo feito por uma universidade alemã havia apontado prejuízos do seu uso por crianças. O presidente não divulgou, no entanto, qual seria este estudo e disse que não daria mais detalhes para não ser alvo de críticas. O uso de máscaras e o isolamento social são dois métodos considerados altamente eficazes para conter a disseminação do coronavírus, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

ISTOÉ ONLINE/SÃO PAULO
Data Veiculação: 01/03/2021 às 13h00

No começo de fevereiro, um grupo de pesquisadores da Universidade de Toronto divulgou um estudo com um medicamento antiviral experimental que foi capaz de acelerar a recuperação de pacientes com covid-19. O trabalho, publicado na revista Lancet Respiratory Medicine, teve como objetivo testar a droga em pessoas infectadas que não tinham sido hospitalizadas. Pacientes que receberam uma única injeção de peginterferon-lambda tiveram mais de quatro vezes mais chances de terem a infecção curada em sete dias, quando comparados a um grupo tratado com placebo. O trabalho trouxe uma nova esperança de que seja possível ter um tratamento que consiga conter a dispersão do Sars-CoV-2. Não é a primeira vez, porém, que surge essa sensação. Em um ano da pandemia de covid-19, a ciência foi capaz de desenvolver, de modo recorde, pelo menos meia dúzia de boas vacinas contra o coronavírus, mas por mais que estejam sendo feitos centenas de estudos com remédios – em sua maioria já usados para outras doenças -, ainda nenhum se mostrou eficaz para barrar o vírus. A expectativa agora se volta para que a ciência inove e passe a desenvolver novos fármacos, do zero: moléculas desenvolvidas para ter como alvo específico proteínas do coronavírus. Ao longo do ano, algumas drogas se mostraram úteis para reduzir os danos da doença, aliviar os sintomas e principalmente reduzir tempo de internação dos casos mais graves, mas ainda não existe um tratamento de fato para a covid-19. Muito menos um que seja precoce. Não foram poucos os remédios já conhecidos que acabaram noticiados como promissores após se mostrarem eficazes in vitro contra o vírus ou em experimentos iniciais com poucas pessoas. Mas quando submetidos a estudos clínicos robustos, randomizados e com muitos voluntários, a maioria acabou descartada. Talvez o exemplo mais marcante disso seja o da hidroxicloroquina. Existem agora muitas evidências de que a hidroxicloroquina e a cloroquina não funcionam contra a covid. Mas ainda há 179 ensaios clínicos nos Estados Unidos com 169.370 pacientes que estão recebendo o medicamento, segundo o Covid Registry of Off-Label & New Agentes, na Universidade da Pensilvânia. No Brasil, de acordo com o último balanço da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), do Ministério da Saúde, ainda há 27 estudos com as drogas em andamento. Diretrizes internacionais Atualmente entidades como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) indicam como diretriz de tratamento o uso de remédios como o remdesivir, anticorpos monoclonais e corticoides – como a dexametasona -, que têm um papel importante principalmente nos casos mais graves, hospitalizados e entubados. Eles ajudaram a reduzir o tempo de internação e as mortes. Mas, como ressaltou reportagem do The New York Times de meados de fevereiro sobre a falta de tratamentos, essas drogas não são “um santo remédio” nem servem para todos. v A OMS alerta que a dexametasona, por exemplo, é recomendada somente para pacientes severos e criticamente doentes com covid-19 sob supervisão médica. Estudo randomizado feito com 7 mil pacientes mostrou que houve redução da mortalidade no grupo que tomou o remédio, na comparação com o grupo que tomou placebo. Mas não é recomendado para pacientes leves e moderados porque o medicamento pode aumentar o risco de complicações ou efeitos adversos – lembrando que este corticoide não ataca o vírus em si, mas o efeito inflamatório que ele causa no corpo, a chamada tempestade de citocinas. Já o remdesivir, que impede o vírus de se replicar dentro das células, consegue reduzir modestamente o tempo que o paciente precisa para se recuperar, mas não tem nenhum efeito sobre a mortalidade. Outro problema é que ele é injetável e muito caro – tanto que nem está disponível no Brasil. Os anticorpos monoclonais, que impedem o vírus de entrar nas células, podem ser muito potentes, mas apenas quando administrados antes de as pessoas adoecerem a ponto de serem hospitalizadas. Derrotas Especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que, por um lado, a falta de avanço no tratamento não é inesperada. Primeiramente porque os maiores esforços científicos foram para as vacinas – o que faz sentido seguindo o princípio mais básico do “é melhor prevenir do que remediar”. Por outro lado, os vírus, em geral, são mais difíceis de lidar com medicamentos do que bactérias, por exemplo. “A nossa história contra vírus é feita de derrotas há anos. Todo mundo fala da covid-19, mas também lutamos contra ebola, dengue, hepatite, rubéola, febre amarela. São todos vírus, mas para quais deles temos tratamento eficaz? Para alguns temos vacina, outros a gente controla, como a aids. Agora temos um remédio que erradica a hepatite C do organismo. Mas, em geral, perdemos feio, não só contra a covid”, disse ao Estadão a pesquisadora Flávia Machado, professora de Medicina Intensiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Flávia faz parte da Coalizão Covid-19 Brasil, aliança formada pelos hospitais Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa de São Paulo, pelo Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e pela Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet). O grupo vem realizando ensaios clínicos para avaliar a eficácia e a segurança de potenciais terapias para pacientes com covid-19. “Infelizmente o que mais vimos até agora é o que não funciona”, diz. A pesquisadora explica o desafio: “Vírus não é bactéria. As bactérias são organismos com parede celular. Um mesmo antibiótico pode servir para combater várias bactérias, porque as paredes celulares (por onde o remédio entra) são parecidas. Já o vírus é uma partícula, quase não é um ser vivo. Ele só vive dentro das nossas células. Só ali consegue se reproduzir, mas isso também os deixa mais protegidos”. A coalizão começou agora em fevereiro uma nova linha de pesquisa que deve alcançar mil pacientes. O estudo Revolution vai avaliar se drogas antivirais isoladas e/ou em combinação entre si são efetivas para tratar casos de covid-19 hospitalizados com doença moderada. Serão testados os remédios atazanavir, daclatasvir e daclatasvir associados a sofosbuvir. Busca por inovação A falta de avanço até o momento em relação aos tratamentos contra a covid-19 pode estar relacionada ao fato de que a abordagem usada no início da pandemia foi buscar o reposicionamento de fármacos – pegar remédios que já existiam para outras doenças e testá-los, in vitro, contra o coronavírus. É o que afirma o químico Adriano Andricopulo, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), câmpus São Carlos, que trabalha com química medicinal, planejamento de fármacos e medicamentos para combater a covid-19. A estratégia fazia sentido porque, sendo promissores nesta primeira etapa, eles poderiam já passar aos testes com humanos, visto que já eram sabidos como substâncias seguras. Isso poderia ganhar tempo, se dessem certo. Mas não foi isso o que aconteceu. Cerca de 250 substâncias foram registradas como tentativas para tratamento de covid-19. “Acredito que não houve sucesso até o momento porque não se procurou inovação, um espaço químico novo para cobrir proteínas alvo do Sars-CoV-2”, disse o pesquisador ao Estadão. Essa busca por desenvolver um medicamento específico para uma proteína alvo está começando agora, mas é um processo que pode levar bastante tempo, já que terá de cumprir todas as etapas de testes. Sucesso com camundongos. Andricopulo cita como exemplo uma droga experimental ingerível, a EIDD-2801, que, em camundongos, se mostrou capaz de interromper a proliferação do vírus e prevenir sua entrada em células humanas. Os pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte relataram os resultados na revista Nature no início de fevereiro. Eles administraram o remédio em camundongos modificados com tecido de pulmão humano de 48 horas a 24 horas antes de eles serem expostos ao vírus. “Descobrimos que o EIDD-2801 teve um efeito notável na replicação do vírus após apenas dois dias de tratamento – uma redução dramática de mais de 25.000 vezes no número de partículas infecciosas no tecido pulmonar humano quando o tratamento foi iniciado 24 horas após a exposição”, afirmou em comunicado à imprensa o autor principal do trabalho, Victor Garcia. “Os títulos do vírus foram significativamente reduzidos em 96% quando o tratamento foi iniciado 48 horas após a exposição”, afirmou. O medicamento começou a ser testado já em humanos em ensaios de fases 2 e 3. “São resultados muito positivos porque conseguiram tratar os pacientes, controlando a infecção, e também em bloquear a transmissão, que é o que se procura loucamente”, comentou. Nos Estados Unidos, somente agora os NIH criaram uma importante iniciativa para desenvolver os antivirais, o que significa que não deverão estar em uso a tempo para combater a atual pandemia. “Essa iniciativa provavelmente não oferecerá nenhum tratamento em 2021”, afirmou Francis Collins, diretor dos NIH ao The New York Times. “Se houver uma covid-24 ou covid-30, no futuro, queremos estar preparados”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O ESTADO DE S.PAULO/SÃO PAULO | GERAL
Data Veiculação: 01/03/2021 às 03h00

Com vacina, mas ainda sem remédio eficaz Enquanto, por um lado, vacinas foram des envolvidas em tempo recorde, por outro, nenhum remédio existente s e mostrou eficaz para combater o coronavírus. Pesquisadores agora trabalham em novas drogas, do zero. metrópole/pág.aio No primeiro ano da pandemia, pesquisadores se debruçaram sobre remédios já existentes para outras doenças, mas nenhum deles se mostrou realmente eficaz para barrar o coronavírus. Agora, eles se voltam para o desenvolvimento de novos fármacos, do zero Tratamentos contra covid-19 avançam em ritmo mais lento do que vacinas UHN -16/2/2021 mt 1 «jF \ e í, Q, » ti 0 * « 0 4r. r , Pegint6rferon La^ Directions: InjectoA Esperança. Pacientes que receberam peginterferon-lambda tiveram 4 vezes mais chances de se curarem em sete dias Giovanct Girardi No começo de fevereiro, um grupo de pesquisadores da Universidade de Toronto divulgou um estudo com um medicamento antiviral experimental que foi capaz de acelerar a recuperação de pacientes com covid-19.0 trabalho, publicado na revista Lancet Respircitory Medicine,teve como objetivo testar a droga em pessoas infectadas que não tinham sido hospitalizadas. Pacientes que receberam uma única injeção de peginterferon-lambda tiveram mais de quatro vezes mais chances de terem a infecção curada em sete dias, quando comparados a um grupo tratado com placebo. O trabalho trouxe uma nova esperança de que seja possível ter um tratamento que consiga conter a dispersão do Sars-CoV-2. Não é a primeira vez, porém, que surge essa sensação. Em um ano da pandemia de covid19, a ciência foi capaz de desenvolver, de modo recorde, pelo menos meia dúzia de boas vacinas contra o coronavírus, mas por mais que estejam sendo feitos centenas de estudos com remédios em sua maioria já usados para outras doenças -, ainda nenhum se mostrou eficaz para barrar o vírus. A expectativa agora se volta para que a ciência inove e passe a desenvolver novos fármacos, do zero: moléculas desenvolvidas para ter como alvo específico proteínas do coronavírus. Ao longo do ano, algumas drogas se mostraram úteis para reduzir os danos da doença, aliviar os sintomas e principalmente reduzir tempo de internação dos casos mais graves, mas ainda não existe um tratamento de fato para a covid-19. Muito menos um que seja precoce. Não foram poucos os remédios já conhecidos que acabaram noticiados como promissores após se mostrarem eficazes in vitro contra o vírus ou em experimentos iniciais com poucas pessoas. Mas quando submetidos a estudos clínicos robustos, randomizados e com muitos voluntários, a maioria acabou descartada. Talvez o exemplo mais marcante disso seja o da hidroxicloroquina. Existem agora muitas evidências de que a hidroxicloroquina e a cloroquina não funcionam contra a covid. Mas ainda há 179 ensaios clínicos nos Estados Unidos com 169.370 pacientes que estão recebendo o medicamento, segundo o Covid Registry of Off-Label & New Agentes, na Universidade da Pensilvânia. No Brasil, de acordo com o último balanço da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), do Ministério da Saúde, ainda há 27 estudos com as drogas em andamento. Diretrizes internacionais. Atualmente entidades como a • Tentativas “Infelizmente o que mais vimos até agora é o que não funciona” Flávia Machado PROFESSORA DE MEDICINA INTENSIVA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP) E INTEGRANTE DA COALIZÃO COVID-19 BRASIL Organização Mundial de Saúde (OMS) e os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) indicam como diretriz de tratamento o uso de remédios como o remdesivir, anticorpos monoclonais e corticoides como a dexametasona -, que têm um papel importante principalmente nos casos mais graves, hospitalizados e entubados. Eles ajudaram a reduzir o tempo de internação e as mortes. Mas, como ressaltou reportagem do The New York Times de meados de fevereiro sobre a falta de tratamentos, essas drogas não são “um santo remédio” nem servem para todos. A OMS alerta que a dexametasona, por exemplo, é recomendada somente para pacientes severos e criticamente doentes com covid-19 sob supervisão médica. Estudo randomizado feito com 7 mil pacientes mostrou que houve redução da mortalidade no grupo que tomou o remédio, na comparação com o grupo que tomou placebo. Mas não é recomendado para pacientes leves e moderados porque o medicamento pode aumentar o risco de complicações ou efeitos adversos lembrando que este corticoide não ataca o vírus em si, mas o efeito inflamatório que ele causano corpo, a chamada tempestade de citocinas. Já o remdesivir, que impede o vírus de se replicar dentro das células, consegue reduzir modestamente o tempo que o paciente precisa para se recuperar, mas não tem nenhum efeito sobre a mortalidade. Outro problemaé que ele é injetável emuito caro tanto que nem está disponível no Brasil. Os anticorpos monocl onais, que impedem o vírus de entrar nas células, podem ser muito potentes, mas apenas quando administrados antes de as pessoas adoecerem a ponto de serem hospitalizadas. Derrotas. Especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que, por um lado, a falta de avanço no tratamento não é inesperada. Primeiramente porque os maiores esforços científicos foram para as vacinas o que faz sentido seguindo o princípio mais básico do “é melhor prevenir do que remediar”. Por outro lado, os vírus, em geral, são mais difíceis de lidar com medicamentos do que bactérias, por exemplo. “Anossa história contra vírus é feita de derrotas há anos. Todo mundo fala da covid-19, mas também lutamos contra ebola, dengue, hepatite, rubéola, febre amarela. São todos vírus, mas para quais deles temos tratamento eficaz? Para alguns temos vacina, outros a gente controla, como a aids. Agora temos um remédio que erradica a hepatite C do organismo. Mas, em geral, perdemos feio, não só contra a covid”, disse ao Estadão a pesquisadora Flávia Machado, professora de Medicina Intensiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Flávia faz parte da Coalizão Covid-19 Brasil, aliança formada pelos hospitais Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa de São Paulo, pelo Brazilian Clinicai Research Institute (BCRI) e pela Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet). O grupo vem realizando ensaios clínicos para avaliar a eficácia e a segurança de potenciais terapias para pacientes com covid-19. “Infelizmente o que mais vimos até agora é o que não funciona”, diz. A pesquisadora explica o desafio: “Vírus não é bactéria. As bactérias são organismos com parede celular. Um mesmo antibiótico pode servir para combater várias bactérias, porque as paredes celulares (por onde o remédio entra) são parecidas. Já o vírus é uma partícula, quase não é um ser vivo. Ele só vive dentro das nossas células. Só ali consegue se reproduzir, mas isso também os deixa mais protegidos”. A coalizão começou agora em fevereiro uma nova linha de pesquisa que deve alcançar mil pacientes. O estudo Revolution vai avaliar se drogas antivirais isoladas e/ou em combinação entre si são efetivas para tratar casos de covid-19 hospitalizados com doença moderada. Serão testados os remédios atazanavir, daclatasvir e daclatasvir associados a sofosbuvir. /comnyt PONTOS-CHAVE Os caminhos da ciência contra o coronavírus • Estrutura 0 vírus é uma partícula que vive dentro das nossas células, quase não é um ser vivo, diz a pesquisadora Flávia Machado. Por isso é mais difícil desenvolver drogas. • Estudos iniciais No primeiro momento da pandemia, os pesquisadores apostaram em medicamentos já existentes para outras doenças, mas o resultado foi parcial. SUMAIA VILELA/AGÊNCIA BRASIL -13/1/2021 • Rapidez A estratégia fazia sentido porque, sendo promissores nesta primeira etapa, eles poderíam já passar aos testes com humanos, pois eram sabidos como seguros. • Nova estratégia Como o uso de drogas conhecidas não foi realmente eficaz, os pesquisadores se voltam agora para o desenvolvimento de um fármaco novo.

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | COTIDIANO
Data Veiculação: 01/03/2021 às 03h00

Pacientes entre 30 e 50 anos lotam terapias intensivas Diferentemente do início da pandemia de Covid, as UTIs estão lotadas agora com pessoas mais jovens (entre 30 e 50 anos) e em pior condição. Os pacientes ficam internados, em média, de dois a cinco dias a mais, o que prejudica o giro de leitos. Saúde BI Com hospitais lotados por Covid, mais pacientes jovens e graves ocupam UTIs Há serviços com mais pessoas internadas nas unidades de terapia intensiva do que nas enfermarias Paciente em tratamento na UTI do hospital Emílio Ribas, em São Paulo Reinautocanato-8.jan.21/uoi. Cláudia Collucci são paulo No momento em que os casos de Covid-19 provocam lotação em hospitais públicos e privados do país, médicos relatam uma mudança no perfil desses pacientes nas UTIs. Em geral, estão chegando pessoas mais jovens, entre 30 e 50 anos, mais graves e que demandam mais tempo de terapia intensiva. Ficam, em média, de dois a cinco dias a mais na UTI em relação aos pacientes com Covid internados nos primeiros meses da pandemia, o que prejudica o giro de leitos. Alguns serviços já registram mais pacientes nas UTIs do ue nas enfermarias, sugerino maior gravidade dos casos. A médica intensivista Suzana Lobo, presidente da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), relata que há até bem pouco tempo a relação era de dois pacientes nas enfermarias para um na UTI. “Agora isso está invertendo em muitos locais. Sugere internações mais tardias, com pacientes mais graves. Talvez por confiança nesses ditos tratamentos precoces, que a gente sabe que não funcionam.” No Hospital de Base de São José do Rio Preto (SP), onde Lobo dirige o centro de terapia intensiva, na sexta (26) havia 121 pacientes de Covid na UTI e 88 na enfermaria. Há um mês, no dia 25 de janeiro, eram 113 na enfermaria e 96 na UTI. Ainda não há dados gerais consolidados que explique essa mudança de perfil dos pacientes e da doença. Entre as hipóteses estão maior exposição ao vírus dos mais jovens, circulação de novas variantes do coronavírus, demora em ir para o hospital e mais uso de recursos terapêuticos de longa duração. “Há uma clara percepção nas últimas semanas de que o perfil mudou. No nosso serviço, os pacientes mais jovens e mais graves têm sido uma constante na UTI” diz o intensivista Ederlon Rezende, chefe da UTI de adultos do Hospital do Servidor Estadual, em São Paulo, e que faz parte do conselho consultivo da Amib. O infectologista David Uip, do Sírio-Libanês, diz que, na prática clínica, o tempo médio de internação dos seus pacientes com Covid-19 na UTI passou de 13 para 17 dias, e a média de idade caiu dez anos. “Antes víamos muito mais pacientes agudizados de 60 para cima, agora estamos vendo de 50, mas também ainda mais jovens. Eu internei um estudante de medicina de 22 anos. Tivemos duas meninas de 36 anos na UTL Todos saíram vivos”, diz ele. A cardiologista e intensivista Ludhmila Hajjar, professora da USP e médica do InCor (Instituto do Coração), tem a mesma percepção. “Estou com pacientes jovens, de 30, 30 e poucos anos, internados, intubados. Isso a gente não via antes nesse volume. É paciente de Manaus, de Mato Grosso, de Rondônia, de Brasília, de São Paulo”, relata. Na sua experiência, o tempo de permanência desses pacientes em UTI também mudou. No ano passado, era de até 14 dias, em média, agora está batendo em 20 dias. O médico intensivista Cristiano Augusto Franke, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, é outro que observa uma mudança de perfil dos internados na terapia intensiva. “É claro que ainda temos pessoas mais idosas, mas antes não víamos tantos jovens sem eomorbidades chegando muito graves e com um tempo de internação prolongado. Isso tem estrangulado o sistema. Estamos com as UTIs lotadas”, diz. Segundo Suzana Lobo, relatos assim têm chegado de várias partes do país, embora também haja serviços que ainda não registraram mudanças no perfil de pacientes. “Mais jovem e mais graves é uma percepção generalizada, já o período de permanência tem variado. Vamos precisar de mais tempo para ter um dado global”, afirma. De acordo com ela, há muita variabilidade regional e diferentes estruturas de UTIs. Agora, com a circulação das novas variantes, será preciso avaliar também se elas, além do potencial de maior transmissibilidade, vão influenciar no maior tempo de internação. O intensivista Felipe Bittencourt, do Hospital Guadalupe, de Belém, por exemplo, diz que ainda não houve mudança no perfil de pacientes atendidos. Os mais jovens abaixo de 60 anos representam hoje 28,3% dos internados na UTL “Mas é possível que seja apenas uma questão de tempo e de volume de pacientes. Desde o início da pandemia, estamos trabalhando com uma espécie de ‘delay’ epidemiológico, em que a realidade dos serviços e centros de maior volume torna-se a nossa realidade em questão de duas a três semanas”, afirma. Para Uip, essa mudança no tempo de permanência na UTI pode ser reflexo de um maior aprendizado, que envolve mais possibilidades de recursos terapêuticos e, portanto, uma alta mais tardia. “Estamos utilizando doses de medicamentos acima de todos os limites que conhecíamos. Eu sou do tempo que fazíamos bloqueio neuromuscular para pacientes com tétano, com contraturas. As doses que estão utilizando hoje são muito maiores e por mais tempo. Estamos usando antibióticos que já sabíamos, o que tem de novo e voltando para os de segunda linha.” Outro exemplo é o Ecmo (equipamento que funciona como pulmão e um coração artificiais para pacientes que estão com os órgãos comprometidos), antes usado em pacientes com insuficiência cardíaca crônica, e que agora está sendo muito utilizado para casos de insuficiência respiratória aguda por Covid. "Estamos salvando pacientes inacreditáveis, que muita gente não acreditava que sobrevivem”, conta. Para Ederlon, é preciso mais tempo e mais estudos para poder compreender essa mudança de perfil dos pacientes e do tempo de internação. “Seria uma nova variante que, além de mais contagiosa, tem potencial de ser mais grave? Seriam os jovens que estão mais expostos porque não toleram mais o distanciamento e estão aglomerados? O cuidado melhorou? Ou é uma combinação de tudo?