Confira o que os especialistas do Hospital Sírio-Libanês já falaram na imprensa sobre o novo Coronavírus:

METRÓPOLES/BRASÍLIA
Data Veiculação: 01/01/2021 às 04h45

Um ano de plantar para depois colher: assim espera o jovem Lucas Moreira da Silva, 26, em relação ao ano de 2021. A virada começa com uma pontada de esperança para o rapaz. Encarcerado na Papuda durante quase três anos por um crime que não cometeu, Lucas recuperou a liberdade apenas em outubro de 2020. O processo relativo a ele teve ao menos cinco inconsistências que levaram a uma sequência de erros no Judiciário, resultando nos dois anos e 10 meses de detenção por engano. “É, realmente, um recomeço de vida”, afirma Lucas. “É inevitável se sentir injustiçado: foram três anos. Mas agora é começar de novo. 2020 foi um pouco difícil por causa da pandemia e desemprego, mas tenho fé para o próximo”. É na liberdade que Lucas ganhou espaço para trabalhar com a paixão que o guia desde criança: o rap. Os planos do jovem envolvem lançar um canal de música no YouTube já no começo de 2021. Familiarizado com o estilo musical, ele comenta que está em fase de produção para o começo de uma carreira. Amigos também prestaram apoio ao rapaz. Com o dinheiro de uma vaquinha criada em solidariedade a causa, Lucas tirou habilitação para dirigir moto. Em 20 de dezembro de 2017, Lucas foi preso enquanto empinava pipa perto da casa da tia, em Ceilândia. Na ocasião, ele foi acusado de cometer roubo qualificado e tentativa de latrocínio. “Eu confesso que receber o Lucas de volta foi, para mim, nada mais e nada menos que um milagre” define Maridalha Moreira, 47, mãe do jovem. “Todas as circunstâncias diziam que não. Ter o Lucas conosco é realmente gratificante. Foi o primeiro Natal que passamos juntos depois de muita dor, angústia e sofrimento. Tudo o que queremos agora é que ele viva uma vida normal. Mas eu creio que daqui para frente será só alegria, em nome de Jesus”. Milagre não é apenas no caso de Lucas que o ano de 2020 trouxe surpresas e, conforme frisado por Maridalha, um milagre. Para o jornalista Jorge Eduardo Antunes, 55 anos, que esteve muito próximo da morte, foi uma época “para renascer”. “Eu aprendi que a gente é muito frágil e a vida é uma gota de tempo, um bem ao qual não damos tanto valor”, resume o jornalista. Antunes ficou mais de 40 dias internado por complicações da Covid-19, o que resultou num grande período de tempo longe da família. Para ele, não se tratou de uma “gripezinha”: Antunes teve os músculos atrofiados devido à internação, perdeu mais de 20 quilos, ficou incapaz de comer ou andar sozinho. Até mesmo sua fala foi afetada e até hoje ainda apresenta algumas sequelas. A diabetes e hipertensão corroboraram para que seu quadro se agravasse. Começou com sintomas leves, em agosto, até evoluir para febre e exaustão. Internado no Hospital Santa Helena, começou a perder sangue pela pele e apresentou baixa oxigenação. “Os médicos achavam que era questão de dias ou de horas”, conta. “Se naquele mês me dissessem que eu poderia passar o Natal com minha família em dezembro pareceria impossível, um milagre. Não era para eu estar na foto de fim de ano com minha esposa e duas filhas”. Antunes permaneceu internado e sedado até setembro, quando seu estado começou a melhorar. Apesar de ter retornado à casa e podido passar o Natal com a família, o jornalista ainda está em estado de recuperação. “Passei por um ano complicado. Mas eu estou vivo. Para mim, pessoalmente, não posso dizer que foi terrível. Adoeci e quase morri, mas sobrevivi. O ano de 2020 me fez renascer. Me fez valorizar o respeito ao próximo, solidariedade, e a crença ainda mais absoluta na ciência- sem descuidar da religião. Todos os médicos disseram que foi um milagre”, conta. Para 2021, diz, o que ele espera de fato é o fim do negacionismo para que o país possa se recuperar da pandemia. “Essa doença ensina diariamente que, se você não a respeitar, vai desrespeitar o próximo. Quanta gente não levou o vírus para casa e acabou enterrando a família? ”, afirma. “É um vírus muito traiçoeiro, covarde e silencioso que vem sendo tratado como brincadeira. Mas é apavorante”. Por fim, completa: a doença que o deixou longe da família, quase o levando a morte, deixou milhares de pessoas mortas. E são milhares insubstituíveis: “Todos que morrem são pais, filhos, mães, avós, tias, amigos…. São insubstituíveis no coração de quem os ama”. Diagnóstico por acaso Foi por acaso que o bancário José Gilberto de Souza, 61 anos, morador de Sobradinho, descobriu o câncer que acometia seu corpo. Por meio de uma bateria de exames casual ele foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin. De início, não contou para família ou amigos. Apenas a esposa sabia, quem o acompanhou durante todo o tratamento. A primeira quimioterapia se deu em junho, no Hospital Sírio Libanês, onde ele afirma ter sido muito bem assessorado durante todo o processo. O primeiro exame indicou que o câncer estava muito avançado. Desde o começo, porém, o bancário afirmou não ter sentido nenhuma dor. “Em 2020, eu recebi essa graça. Fui poupado da dor e do sofrimento que a doença traz. Não posso reclamar de nada”, afirma. Ele chegou a raspar a cabeça por vontade própria. “Para 2021, eu espero que passe essa situação de pandemia. Que seja uma nova etapa na vida de todos, importante assim como 2020 foi para mim em termos de aprendizado”. José pretende se aposentar no próximo ano para tentar “aproveitar mais a vida”, já que passou muito tempo trabalhando. No mais, ele destaca o apoio que teve da família e dos médicos, que foi fundamental. Conforme explica o médico hematologista Fernando Blumm, do Sírio Libanês, só pode se dizer que um paciente está curado depois de cinco anos de acompanhamento. No entanto, Gilberto atingiu a remissão após o tratamento. “Neste período, eu convivi com as incertezas que um câncer nos traz, mas em nenhum momento perdi a fé e a certeza que esse dia iria chegar- a remissão da doença”, discursa Gilberto. Ele completa que o mais importante é manter o otimismo diante das adversidades. “Serei grato eternamente e pretendo dar sentido a cada instante em minha nova vida. Como diz o doutor Fernando, há pessoas que são feitas de eucalipto. Eu sou feito de maçaranduba”. Cateterismo de Natal “Eu estou encerrando 2020 sabendo que minha filha vai precisar de um transplante de coração” diz Arilene Maria Fontinele, 41, moradora da Cidade Ocidental. A filha de 11 anos, Maria Julia, nasceu com uma síndrome que debilita o coração. Após pedir um cateterismo em cartinha de Natal, ela teve o procedimento doado, assim como um stent cardíaco. “Para 2021, eu espero que minha filha fique bem e que eu possa dar qualidade de vida a ela. Espero deste ano só saúde, não peço mais nada, e que as pessoas tenham mais amor uma pelas outras”, afirma. “Esse é meu grande recomeço: que a Maria Julia fique bem”. A família criou uma vaquinha online para ajudar com os custos que serão necessários no tratamento da criança. Quem puder contribuir pode fazê-lo neste link. Confira na íntegra: Carta Maria Julia by Metropoles on Scribd

CORREIO BRAZILIENSE/BRASÍLIA | Outros
Data Veiculação: 01/01/2021 às 03h00

Os heróis vestem jaleco branco Médicos, enfermeiros, dentistas e outros profissionais de saúde despertam a admiração da sociedade ao formarem a infantaria que enfrenta o novo coronavírus. Mas, a Luta para salvar cada vida que entra num hospital com a doença ainda está Longe de acabar. Os primeiros heróis foram comoventes, desafiadores. De repente, não pudemos fazer coisas simples como beber água, porque requer toda uma desparamentação. Vi colegas morrerem, pacientes morrerem e ter que encarar, voltar com vistos na Itália, onde a pandemia do novo coronavírus chegou com toda força. Vestidos com jalefocroças, nunca desistir, na certeza brancos e protegidos dos pdéesqàue dias melhores viriam. Cabeça, pareciam figurantes de um filme de ficção científica desses que um estranho e imbatível ser vivo se infiltra na raça humana, provocando mortes em série. De certa forma, o enredo de cinema se tornara realidade. E esses mesmos homens e mulheres de branco, médicos, enfermeiros, auxiliares e outros profissionais de saúde dos hospitais, formaram uma grande infantaria contra o agente infeccioso nos quatro cantos do planeta. Um heroísmo reconhecido até pelo misterioso artista plástico inglês Bansky, que os homenageou com um grafite num hospital de Southampton. No Brasil, a batalha tem sido árdua e inclemente. Trabalhando no combate direto à covid19, todos os dias a cirurgiã-dentista Denise Abranches agarra com as mãos o novo e invisível coronavírus. É ela quem cuida da saúde bucal dos pacientes internados na UTI em decorrência da doença, no Hospital São Paulo, na Vila Clementino, na capital paulista. Pelos riscos da profissão, viu muitos colegas perderem a vida tentando salvar outras. Mesmo assim, não se furtou à doação de si mesma. “O vírus se impôs, não pediu licença. Vivemos cenários inéditos, Como profissional da saúde, esse é meu dever, e faço isso por amor”, ensina Denise. A cirurgiã-dentista pouco escutou a voz dos pacientes que atendeu. Nem por isso deixou de se comunicar com eles. “Ainda que intubados, converso com cada um que irei realizar um procedimento, explicando cada passo do meu trabalho, que estou participando do estudo para acabar logo com esse sofrimento e que tudo vai ficar bem. É uma questão de respeito, de carinho, de demonstrar que esse paciente não está sozinho”, diz Denise, também a primeira voluntária brasileira a participar do estudo clínico da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca. Até o fim Já Ana Lúcia Freire Cantalice dedicou-se até o fim. Pediatra neonatologistae a primeiraa diagnosticar covid-19 em um recém-nascido na Paraíba, mesmo pertencendo ao grupo de risco devido à hipertensão arterial, não quis parar, sobretudo em um momento em que a necessidade de estar na linha de frente era fundamental. Vitimado próprio inimigo que tentava combater, Ana morreu aos 56 anos, em 23 de julho. “Minha mãe sempre foi uma pessoa de fibra e muito ativa. Adorava o trabalho e de estar junto dos filhos, netos, noras, genro e do marido”, lembra o filho da pediatra, ítalo. Buscando a proteção de todos, Ana militou até o fim. Idealizou um projeto de distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) personalizados para atendimento às crianças — as “Feliz Shields”, como batizou, visores personalizados com super-heróis para tornar mais lúdica e menos penosa a internação de meninos e meninas com covid19. Como na obra de Bansky, a pediatra assumiu a condição de heroína para várias crianças e seus pais. “Ela mudou a rotina da UTI neonatal e dos hospitais por onde trabalhava para proteger a todos”, destaca ítalo. Apesar da saudade de não estar ao lado da mãe para comemorar o Natal e o ano-novo, ítalo tem a certeza de que Ana quer que a vida prevaleça e continue. “O momento nos faz sentir essa dor na alma, mas também é o que nos faz olhar para frente e seguir, como ela dizia, para superar os obstáculos que tanto enfrentou”. Para Gustavo Fernandes, diretor geral do Hospital Sírio Libanês, os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde e pesquisadores escancararam o real motivo do engajamento de cada um: “Nossa rotina é muito mais do que atender às necessidades pessoais. Nesse período difícil, foi possível reavivar nosso papel, nos reconectarmos com a raiz da nossa função: cuidar da coisa mais linda que existe, que é a vida”. (Colaborou Fabio Grecchi) Stuart Martin/AFP - 7/5/20 Obra de Bansky que homenageia os médicos. Artista os compara ao Batman e ao Homem Aranha BRUNA LIMA MARIA EDUARDA CARDIM.